Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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JORNAL DE DEBATES >

A violência em todos nós

Por Ivo Lucchesi em 22/04/2008 na edição 482

Se do horror trazido à tona pelo caso Isabella se pode extrair alguma aprendizagem, esta deve direcionar-se para a reflexão de todos em torno de uma questão: com que parcela de violência cada um de nós contribui para impedir que a vida seja melhor do que deveria? Diagnosticar a violência num ato de esganadura é fácil. Ela é material e deixa marcas visíveis. Indignar-se ante alguém que é capaz de jogar uma criança da altura de 20 metros não é reação menos previsível (ainda mais insuportável se o bárbaro ato envolve pai e filha). Esse tipo de crueldade, igualmente por sua indisfarçável concretude, nos coloca, de pronto, num aparente estado de superioridade, já que não seríamos capazes de tamanha desumanidade. Todavia, uma avaliação mais rigorosa pode não nos isentar do reconhecimento de que geramos outras formas de horror.


Faces mascaradas da violência


1) A respeito da mídia: a cobertura ‘jornalística’ em torno do assassinato de Isabella deixa, com plena evidência, a sintonia perfeita que existe entre ‘modelo midiático’ e ‘expectativa receptora’. Os altos índices de audiência em televisão e rádio, além do aumento de vendas de jornais e revistas por conta da exploração cinematográfica e sádica, são mais que reveladores. Público de todas as classes sociais devorou cada imagem, cada foto, cada parágrafo, em meio a verdades, falsificações, vazamentos, desmentidos. Mídia e público demonstraram uma cumplicidade que tem a medida de nossa ruína.


Por favor, que ninguém venha justificar o comportamento de populares em prol do profundo sentimento de justiça. A mídia antropofágica, na ânsia vampiresca de sugar cada gota de sangue deixada pelo inerte corpo de uma criança para transformá-la em ‘notícia’, igualmente serviu para flagrar, em milhares de pessoas, o impulso corrosivo que as habita. Houve de tudo: de vandalismo a exibicionismo infantilóide, com direito a fantasias, tortas e sorrisos que as câmeras capturavam. Por horas e horas, centenas e centenas de pessoas, em pé, à espera de quê? Dezenas de helicópteros, diariamente, cruzaram o céu para filmagens aéreas. Informaram e filmaram o quê? Sentimentos de familiares foram brutalmente estraçalhados por mídia e público para nada.


O que se viu não passou de um deplorável quadro cultural a expor a nossa miséria subjetiva. Como precisamos da violência explícita para escoarmos nossa violência oculta e represada! Depois, é simples: os culpados são os assassinos e a mídia. Por que não desligamos rádio e televisão? Por que não encalhamos jornais e revistas? É simples: a razão cínica nos protege na falsificação de nossos desejos e atos. Consumimos tudo que, na verdade, queríamos e, em seguida, exorcizamos tudo, condenando os meios de comunicação que abusaram e distorceram.


2) Sobre comentários on line: outra face mascarada da violência é detectável, por exemplo, nas democráticas ofertas que veículos on line, a exemplo do OI, tornam disponível o ‘diálogo’ entre articulistas e leitores. Aqueles que têm o hábito de consultar a seção de ‘comentários’ facilmente encontram vasto painel que vai de produtivos embates até a mais desprezível expressão do grotesco, do tosco, da gratuita corrosão, da tagarelice rancorosa, da tentativa de ridicularização e variantes ainda piores. Quanto aos que fazem uso para a qualificação argumentativa, para esses só há elogios. Afinal, é isso que um autor espera de leitores (contra ou a favor).


Contudo, o que dizer dos detratores de plantão? Que subjetividades são essas? Por que sentem a necessidade de perder tempo com um texto que julgam ruim ou com um autor que consideram um ‘imbecil’? Além do tempo perdido com a leitura, ainda perdem mais tempo em mandar mensagens raivosas? Serão comportamentos normais? Quando me vejo diante de um texto inexpressivo, ou repleto de ‘incongruências’, ignoro-o e parto para outra leitura. Meu tempo é precioso.


O que, pois, pretendo sinalizar é que algumas pessoas sentem intensa necessidade de liberar impulsos destrutivos e escolhem seus alvos. Isto não é exercício democrático. É tão-somente expressão de ‘fixações’ sádicas e mórbidas que não escondem sentimentos de frustração, inveja, falsa soberba, ou seja, máscaras da violência. Estamos muito mal, culturalmente. Estamos usando tecnologia de ponta sem um pingo de educação. Cercamo-nos de ferramentas sofisticadas para comportarmo-nos, cerebralmente, como seres ferruginosos.


3) Política, esporte, religião e amor: eis mais quatro áreas propícias para exposição da violência. Algo de comum as une? Sim, a paixão, cúmplice das emoções descontroladas. Em nome de uma visão turva, que nos arrasta para a torrente de sentimentos e sensações, somos capazes de mentir, perseguir cruelmente e até de matar. Nas quatro áreas, a utopia da verdade absoluta, a idolatria, a crença e, por fim, a dependência afetiva se constituem em armas de poder letal. Em cada uma delas, há o perigo permanente de o eu ver o ‘outro’ como extensão de si mesmo.


Se, porém, numa sociedade cuja aposta na democracia não for um valor supremo, o ‘outro’ representar a diferença, abrem-se apenas duas possibilidades: a conversão da diferença em igualdade ou a eliminação da diferença. Na sociedade brasileira, há longo tempo, vêm-se percebendo preocupantes sinais de manifestações que apontam para progressivas tensões nas quatro áreas. Bem, diagnosticar não basta. É necessário indagar e arriscar possíveis atalhos que, em algum nível, nos possam levar a tentativas de superação.


Violência e audiovisual


A relação que ora pretendo desenvolver parte de um pressuposto: sons e imagens atuam, prioritariamente, no campo das sensações e das emoções, diferentemente do código verbal impresso cuja destinação primeira se volta para o pensamento. Isto posto, não é difícil deduzir o que ocorre com uma sociedade quando esta elege, de modo predominante, o consumo de codificações audiovisuais em detrimento da absorção de conhecimento e informações em fontes da linguagem impressa. É óbvio que as duas modalidades são riquíssimas, razão pela qual uma se soma a outra.


O problema está na substituição de uma pela outra. Mais grave ainda se o audiovisual predominar sobre a linguagem impressa. Não se trata de preconceito. É apenas a insofismável constatação quanto à natureza das duas codificações: o audiovisual está para o movimento assim como a linguagem impressa está para a fixação. São duas experiências semióticas tão contrárias entre si quanto, entre si, complementares. Em conseqüência, quem é solidamente educado na concentração exigida pela linguagem impressa está habilitado a expandir a inteligência para assimilar a mobilidade dos signos numa tela. Quem, entretanto, se condiciona a imagens em movimento não consegue ter concentração (e paciência) para a imobilidade da linguagem impressa.


Os dez mandamentos do kit violência


Afora o que foi desenvolvido em tópicos anteriores, proponho agora aspectos que podem formar o imaginário da violência. Em outro artigo do OI, tratei do kit sofrimento. A seguir, formulo os mandamentos que regem o kit violência, no qual se conforma o modelo com o qual a subjetividade se pode predispor, em algum momento de sua vida, a atos violentos:


1. responder rapidamente a situações;


2. decidir celeremente ante opções dadas;


3. substituir conhecimento por conteúdo;


4. privilegiar a técnica, em prejuízo da reflexão teórica;


5. priorizar a liberdade de expressão, em detrimento da liberdade de pensamento;


6. apostar todas as fichas no ‘cassino do entretenimento’, em lugar de educar-se em fontes de densidade qualitativa;


7. consumir o descartável, desdenhando o que é perene;


8. aprender que a convicção inabalável é mais segura e reconfortante do que o regime da dúvida;


9. compreender que cognição, intuição e percepção não integram o campo da razão;


10. encantar-se com as promessas de conquista da felicidade.


Seguramente, quem matou a indefesa Isabella reúne, na sua personalidade, os ‘dez mandamentos’ da animalização do humano. Assim, mídia e público não precisam perder tanto tempo em conjecturas que apenas polícia, perícia e o judiciário estão, técnica e legalmente, habilitados para os encaminhamentos devidos. O que mídia e público precisam repensar é o que pretendemos como futuro. Desejamos mais assassinatos como o de Isabella, ou nossa aspiração é que sejamos capazes de combater tudo que favorece a invasão bárbara da violência? A decisão está na consciência de cada cidadão, com base nas suas escolhas cotidianas.


Por fim, não tenho a pretensão de ser portador da solução. Apenas externei a contribuição que estava ao alcance de meu pensamento. Se cada um puder acrescentar, substituir, aprimorar, não se cale. Peço apenas que se reflita sobre as implicações de cada um dos ‘dez mandamentos’.

******

Ensaísta, articulista, doutor em Teoria Literária pela UFRJ, professor titular de Linguagem Impressa e Audiovisual da Facha (Rio de Janeiro)

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