Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

JORNAL DE DEBATES > FÓRUM SOCIAL MUNDIAL

A vitória da cítara

Por Gilson Caroni Filho em 27/01/2009 na edição 522

Quem acompanhou a cobertura dos dois fóruns (Davos e o de Porto Alegre) feita pelos grandes jornais brasileiros viu que o direcionamento era claro. No primeiro, a razão instrumental dos dirigentes de grandes corporações era apresentada como encarnação máxima da sensatez. No segundo, grupelhos nostálgicos produziam uma atração turística de gosto duvidoso. Com o advento da crise sistêmica do capitalismo, um silêncio desconfortável se instalou nas redações. O encanto promovido por elas se esfarelou como um castelo de areia.

O fracasso do neoliberalismo condensa a tragédia de um pensamento utilitarista que considerava boa a democracia que estivesse adequada ao mercado, que consagrava a liberdade econômica como superior à liberdade política e, para não obstar o processo acumulativo, entregava os postos-chave do Estado aos carcereiros de qualquer aspiração republicana.

O ideal era a fragilização da esfera pública, o esmagamento de qualquer forma de auto-organização da sociedade incompatível com as práticas de negociação da empresa monopólica moderna. Isso era Davos e sua lógica binária pretensamente tranqüilizadora. Uma solene encenação da única ópera de Beethoven, Fidelio, para os menestréis da ‘boa gestão’ corporativa. 

Caminho correto

A melhor descrição desse cenário foi feito por Marilena Chauí, em texto para a revista Desvios, em 1984: ‘Tanto o mercado propriamente dito quanto a política são tratados como barganha num espaço competitivo constituído por indivíduos, grupos ou pela massa’.

Se Kierkegaard descreveu a angústia como experiência propriamente humana do ser livre, a ‘Montanha Mágica’ das finanças jamais a levou em conta. Sua realidade ‘transparente e apaziguadora’ estava livre de qualquer pulsão dialética, apascentando administradores racionais e gerentes científicos.

O Fórum Social Mundial era o oposto disso. Representava uma aposta na política como ferramenta para construção de novas estruturas que funcionassem de forma relativamente igualitária, relativamente não-hierárquica, efetivamente democrática. O outro mundo só possível pela práxis dos que não desistiram de se assenhorearem da própria história.

O colapso do capitalismo era visto não como mais um ciclo de destruição criativa, mas como ruína da ordem social em escala planetária, com desdobramentos políticos absolutamente imprevisíveis. As estradas, ao contrário do que rezava o credo neoliberal, não mostravam o caminho correto para o desenvolvimento. De forma oposta, cabia aos movimentos anti-sistêmicos criar transversais, resgatando o Estado do arcabouço institucional que levava à supressão de direitos e a inserções subalternas.

Prognósticos contrariados

Por tudo isso, o FSM foi visto pela grande imprensa como um ‘Woodstock’ dos trópicos, um desfile de batas e slogans que não escondiam o ‘clima retrô’ das propostas. Em Davos, o substantivo. Em Porto Alegre, o anedótico. Era a lógica editorial de quem reproduzia mantras como se fossem discursos próprios.

Como disse Oded Grajew em entrevista à Folha de S.Paulo, ‘o colapso financeiro confirmou as previsões que o fórum fazia. É só recuperar toda a nossa história. Sempre falamos isso. Mas a gente não fica feliz e contente com a crise. Queremos é um mundo com qualidade de vida’.

Com um maestro desnorteado pela perda da partitura, a iluminação do Fidelio de Davos está cada vez mais precária. As cordas da cítara de Ravi Shankar, no entanto, voltam a vibrar com intensidade. Contrariando prognósticos, Woodstock parece ter vencido. E o que parecia ‘retrô’ agora é adivinhado como possibilidade, como angústia do devir, como história que teima em não terminar.

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Professor titular de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), Rio de Janeiro, RJ

Todos os comentários

  1. Comentou em 02/02/2009 Thomaz Magalhães

    Andrea Guedes, os hippies achavam que tanto os milicos como os comunistas eram uns caretas, você não sabia? E ô Fernando Pinto, eu não sou caçador de comunistas, só não gosto deles como pessoas. Você gosta?

  2. Comentou em 31/01/2009 Andrea Guedes

    Marcelo, a melhor coisa que o Obama deveria fazer era ouvir os conselhos do Lula em questões econômicas, ambientais e, acima de tudo, sociais.

  3. Comentou em 28/01/2009 Rogério Ferraz Alencar

    Eduado Souza, se você acha que Clovis Rossi mal se contém na má vontade contra os utópicos, veja o que diz Luis Milman, no texto O circo de opiniões, aqui mesmo, no OI. Mas vou avisando: o texto é nojento. É um show de virulência e agressões contra o FSM, que ele chama de excrescência esquerdopata apoiada pelo lulopetismo.

  4. Comentou em 28/01/2009 Leandro Alves

    Salve o FSM 2009! O FSM é sem dúvida o evento social internacional mais importante desta década e certamente contribuiu para as grandes transformaçoes sociais e políticas em nosso continente, tendo influenciado outras tantas pelo resto do mundo. Acho que os problemas sociais agudos, potencializados pela crise mundial do capitalismo/neoliberalismo, seguidos da crise ambiental, com a necessidade da preservaçao do meio ambiente no mundo e principalmente da Amazônia, deverao ser os focos principais dos debates e da busca de soluçoes. Espero que o FSM seja muito frutífero e volte a orientar o mundo quanto a uma saída democrática e coletiva, ao modo socialista, para todos estes desafios da humanidade! Sucesso ao FSM 2009!

  5. Comentou em 28/01/2009 Adriana Marques

    Um belo texto é escrito com boas verdades! Parabéns, professor!

  6. Comentou em 16/12/2004 Sidney Borges

    Eu estava certo!

    Quando da instalação da CPI do Banestado, após tomar conhecimento do montante envolvido e do modus operandi dos maganos, escrevi para o “Observatório da Imprensa” um artigo onde, entre outras coisas, afirmei:

    “Se os culpados forem apontados, o Brasil entra em guerra civil”.

    Para mim a CPI era a principal pauta para a Imprensa Nacional.
    A oportunidade de mostrar as caras daqueles que comandam impunemente o saque ao cofre da velha senhora.
    Depois de tomar conhecimento da lista contendo os noventa e um nomes, ficou claro que nos últimos quinhentos anos nada mudou.
    Temo que nos próximos quinhentos, nada mudará, além dos atores, por obvio.
    Quanto à imprensa, podemos dizer que vem cumprindo o seu papel.
    Há páginas e páginas discutindo se o Pedro Bial exagerou ao chamar o Dr. Roberto de Dr. Roberto.

    Sidney Borges
    * humilde e pacato jornalista
    http://www.ubatubavibora.com

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