Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

JORNAL DE DEBATES > LEITURAS DO NY TIMES

A arte da manipulação de informação

Por Alexandre J. Eisenberg em 17/06/2008 na edição 490

Ao buscar informações sobre o Holocausto na Internet, deparei-me com uma enorme discrepância entre duas fontes tidas como entre as mais confiáveis sobre o assunto: (1) o Yad Vashem – museu sobre o Holocausto, memorial e acervo documental, localizado em Jerusalém, Israel, ponto de visita obrigatória de turistas naquele país; e (2) o Museu Nacional do Holocausto dos EUA, localizado em Washington DC, que igualmente recebe enorme número de visitas diariamente.

Com toda a sua carga histórica e emocional, o genocídio nazista trouxe tanto da lama moral humana para a superfície da vida cotidiana das pessoas que, na mesma proporção, inúmeras foram e ainda são as tentativas de distorcer os poucos trabalhos sérios de documentação daquela catástrofe. As principais distorções são praticadas por neonazistas e islamofascistas, que fazem o possível para reduzir em mais de 90% o número de judeus assassinados pelos alemães e seus colaboradores ucranianos, croatas, lituanos, romenos, gregos, franceses, húngaros, eslovacos, etc. O objetivo é claro: culpar as vítimas pelo seu destino e ainda indiciar os sobreviventes por ´exagerar` o número de mortos e os horrores por eles sofridos.

Mas… o que pensar de uma discrepância alarmante entre o Museu Nacional do Holocausto de Israel e o Museu Nacional do Holocausto dos EUA? Quando a diferença de versões é grande demais, muito além do que se chama ‘margem de erro’, qualquer simples mortal deduz o óbvio: uma das versões é falsa. Ocorre que neste caso não se trata de versões produzidas pela corja da humanidade, mas sim pelas maiores autoridades sobre o assunto, o que é muito mais assustador que as manifestações insanas dos racistas profissionais e amadores do Ocidente.

Pois bem, ao ponto: segundo o Yad Vashem de Israel, cerca de 600.000 pessoas, entre sérvios, ciganos, judeus e croatas antinazistas, foram assassinadas no campo de Jasenovac, na Croácia [ver aqui]. Já o Museu Nacional do Holocausto dos EUA afirma que ‘embora seja necessário realizar mais pesquisas para aumentar a precisão dos números, as estimativas atuais colocam o número de vítimas assassinadas pelos Ustashi [nazistas croatas] em Jasenovac durante a II Guerra Mundial entre 56.000 e 97.000’ [ver aqui].

Ou seja, na melhor hipótese, há uma discrepância de cerca de 84% entre ambas as fontes.

Discrepância notável

Para que se tenha uma idéia da importância desta discrepância, basta considerar que a diferença máxima de estimativas entre os principais pesquisadores do Holocausto quanto ao número de vítimas judias é de cerca de 19,3%, o que já é uma diferença enorme, atribuída à dificuldade de obtenção de dados que permitam maior precisão [ver aqui].

Uma vez que 84% está de longe muito acima da já enorme margem de erro entre os principais pesquisadores, resta saber quem está mentindo sobre as vítimas de Jasenovac e por quê. Não se trata de uma questão secundária, já que ninguém mentiria à toa em 2008 sobre um gigantesco genocídio ocorrido há mais de 60 anos. Tudo em política é determinado pelos interesses de grupos que atuam num mesmo contexto. E toda política é determinada por elites governantes cujo grau de representatividade popular é diretamente proporcional à sua capacidade de manipulação de informação. É preciso portanto estabelecer à qual das fontes acima interessa não só mentir sobre uma parcela do genocídio nazista como, considerando a discrepância mencionada, inverter mesmo a realidade.

Qual seria o interesse de Israel em aumentar em 84% o número de vítimas fatais no campo croata de extermínio de Jasenovac?

Para responder a esta pergunta é preciso antes verificar a proporção de vítimas de cada etnia no campo de concentração de Jasenovac. Segundo o documento acima referido, produzido pelo Yad Vashem, dos cerca de 600.000 prisioneiros assassinados pelos nazistas croatas, em torno de 25.000 eram judeus. Outros tantos eram ciganos e opositores políticos do regime fascista de Ante Pavelic (inclusive croatas de oposição). Mas a grande maioria das vítimas eram sérvios, de fé cristã ortodoxa e que se opunham aos nazistas croatas, de fé católica romana.

A ótica antijudaica ou anti-semita busca sempre dizer que os judeus exageram os números de seus mortos no Holocausto para obter capital político para o Estado de Israel, indenizações da Alemanha etc. Mas, independente da dificuldade em obter precisão, a estimativa do Yad Vashem de que somente 4,16% dos assassinados em Jasenovac fossem judeus prova o oposto da visão anti-semita, pois a parcela judaica de mortos neste campo é muito pequena. Fica claro, portanto, que se Israel quisesse distorcer os dados a seu favor, aumentaria então o número de judeus mortos em relação aos demais grupos, o que, conforme mostram os números do Yad Vashem, não é o caso.

Dada a pequena porcentagem de judeus em comparação à porcentagem de sérvios assassinados conforme os números do Yad Vashem, fica claro, portanto, que não há nenhum interesse israelense em aumentar o número de vítimas de Jasenovac.

Por outro lado, qual seria o interesse dos EUA em reduzir em 84% o número de vítimas fatais em Jasenovac?

Uma vez que a grande maioria das vítimas de Jasenovac eram sérvios, é mais razoável supor que, qualquer que fosse o motivo dos EUA para reduzir tão drasticamente o número de assassinados no maior dos campos de extermínio croatas, tal motivo estaria mais ligado aos sérvios que aos ciganos, judeus ou prisioneiros políticos. Isto se comprova não somente por pura lógica mas também pela concordância entre o Yad Vashem e o Museu do Holocausto dos EUA no que tange o número de judeus mortos nos maiores campos de extermínio nazistas estabelecidos na Polônia ocupada [ver aqui], e também pela pequena diferença no levantamento do número de judeus mortos em Jasenovac por ambas as instituições (25.000 segundo o Yad Vashem e até 20.000 segundo o Museu do Holocausto dos EUA).

Em resumo, a enorme discrepância entre os levantamentos do Yad Vashem e do Museu do Holocausto dos EUA sobre o número total de assassinados no campo de Jasenovac diz respeito exclusivamente às vítimas de etnia sérvia.

Neste caso é preciso reformular a pergunta acima da seguinte maneira: qual seria o interesse dos EUA em reduzir tão drasticamente o número de sérvios assassinados no complexo de Jasenovac?

Assunto encoberto

O jornalista investigativo Jared Israel, editor do website Emperor’s Clothes, pesquisou os arquivos do New York Times e descobriu algo impressionante: que o jornalão estadunidense mudou súbita e drasticamente o número de vítimas de Jasenovac, bem como sua linha de análise a respeito, a partir de 1991 [o artigo está aqui]. Antes de 1991, o número de vítimas, segundo o NYT, era muito semelhante ao levantado pelo Yad Vashem. A partir de 1991, o número de vítimas passa a ser aquele que hoje figura no Museu Nacional do Holocausto dos EUA.

O fato de que o principal jornal dos EUA contradiga drasticamente todos os seus próprios artigos a respeito da parcela croata do Holocausto publicados desde 1941 até 1991 (um período de 50 anos) é muito significativo, pois pode indicar um interesse estadunidense em encobrir uma parcela fundamental dos crimes do Holocausto, cometida pelo então governo fascista da ‘Croácia independente’ – um Estado-marionete da Alemanha nazista que foi desmantelado pelos comunistas ao fim da II Guerra.

Isto na prática significa crime de negação do Holocausto, pois assim como anti-semitas, neonazistas e islamofascistas negam que pelo menos 5 milhões de judeus tenham sido assassinados nos campos de extermínio nazistas, os EUA, por meio de seu Museu Nacional do Holocausto (uma entidade governamental inaugurada em 1992) e de sua grande imprensa negam que pelo menos 500.000 sérvios tenham sido exterminados no complexo de Jasenovac. [Documento oficial da Organização das Nações Unidas demonstra a contradição entre a postura oficial dos EUA e sua atuação nos Bálcãs, a qual só não é percebida pelo grande público porque a imprensa ocidental, em conluio com os governos das grandes potências, se encarregou de encobrir o fato de que os separatistas croatas que tomaram o poder na Croácia na década de 1990 (e que lá estão até hoje), com ajuda militar ocidental, são exatamente os ustashi (nazistas croatas) que exterminaram mais de 600.000 iugoslavos, a grande maioria dos quais eram sérvios, no complexo de Jasenovac em 1941.]

Objetivos estratégicos

Por que os EUA aceitam as estimativas dos pesquisadores sobre o número de judeus e ciganos assassinados no Holocausto nazista mas passaram a negar as vítimas sérvias a partir da década de 1990?

A resposta está na política estadunidense – neste caso idêntica à européia ocidental – de apoiar diplomática e militarmente a secessão da Croácia nos anos 1990 e organizar a destruição da hoje já defunta Iugoslávia. Uma vez que a ala secessionista da Croácia na década passada era exatamente formada pelos Ustashi, os fascistas croatas que cometeram o genocídio anti-sérvio no complexo de Jasenovac, era necessário ‘relativizar’ tais crimes através não só da redução drástica do número de vítimas como de propor uma equivalência moral entre vítimas e carrascos, como fez o New York Times em seu artigo de 4 de março de 1991 [ver aqui]. Isto foi apenas parte do pérfido processo de demonização do povo sérvio pela imprensa e intelectualidade ocidentais. Esta é a razão pela qual há uma enorme discrepância entre o Museu do Holocausto dos EUA e aquele de Israel quanto ao número de vítimas no complexo de campos de extermínio de Jasenovac, na Croácia.

Quanto aos objetivos estratégicos dos EUA na destruição da Iugoslávia, isto é outro assunto que não cabe tratar aqui. Os interessados podem buscar as seguintes bibliotecas online a respeito:

** The Emperor’s New Clothes

** Historical and Investigative Research

** Srpska-Mreza

******

Professor universitário

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