Quinta-feira, 22 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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JORNAL DE DEBATES >

A formação dos jornalistas

Por Lilia Diniz em 27/05/2009 na edição 539

O Observatório da Imprensa exibido ao vivo na terça-feira (26/5) pela TV Brasil discutiu os rumos do ensino de Jornalismo no Brasil. Em meio à polêmica sobre e necessidade de diploma para exercer a profissão, uma Comissão de Especialistas convocada pelo Ministério da Educação (MEC) estuda mudanças nas diretrizes curriculares do curso. Questões como o equilíbrio entre a formação teórica e prática, a presença de profissionais que atuam no mercado nas salas de aula e a falta de verbas das universidades públicas estiveram em pauta no debate.


Participaram do programa no estúdio em São Paulo os jornalistas – e professores – José Marques de Melo e Caio Túlio Costa. Marques de Melo é presidente da Comissão do MEC que formula novas diretrizes para o ensino do jornalismo. Escritor e pesquisador, é fundador da Escola de Comunicação e Artes (ECA-USP), doutor em Ciências da Comunicação e um dos fundadores do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp. Caio Túlio Costa foi o primeiro ombudsman da imprensa brasileira. Trabalhou na Folha de S.Paulo durante 21 anos. Foi um dos fundadores do UOL, do qual foi diretor geral até 2002. Ex-presidente do iG, atualmente é consultor da operadora de telefonia Oi. É professor de Ética Jornalística.


A jornalista Ana Arruda Callado participou do debate pelo estúdio do Rio de Janeiro. Escritora e professora universitária, é doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ e preside o Conselho Estadual de Cultura. Foi vice-presidente da ABI e presidente do Conselho Administrativo da associação.


Antes do debate ao vivo, na coluna ‘A Mídia na Semana’ Dines comentou fatos que estiveram em destaque dos últimos dias. O primeiro assunto da seção foi a polêmica em torno da participação da menina Maísa, de 7 anos, em de programas de televisão. A pequena apresentadora do SBT foi proibida de participar do Programa Silvio Santos e está recebendo acompanhamento psicológico após sofrer constrangimento e ferir-se durante o trabalho. ‘O certo seria que o apoio psicológico fosse estendido também ao apresentador’, disse Dines.


Em seguida, o jornalista comentou o fato de o jornal norte-americano The New York Times ter ‘engavetado’ as denúncias do escândalo Watergate, que levou à renúncia do presidente Richard Nixon, em 1974, publicadas pelo concorrente The Washington Post. Para Dines, faltou disposição ao Times. O último assunto da coluna foi o início do II Fórum Nacional de TVs Públicas, que ocorre em Brasília entre 26 e 28/05, tema da próxima edição do Observatório.


O ‘fazer’ e o ‘pensar’


Ainda antes do debate ao vivo, em editorial sobre o ensino de Jornalismo, Dines ponderou que é importante que o cidadão possa avaliar a formação ‘daquele que vai ajudá-lo a pensar, tomar decisões e fazer juízos’. Dines ressaltou que a sociedade tem ‘nuances e subjetividades’ que justificam a discussão. ‘A sociedade muda, a imprensa que a serve também muda, aqueles que vão exercê-la precisam ser preparados de acordo com as novas exigências. Este Observatório está comprometido desde a sua fundação com a tarefa de oxigenar a discussão sobre jornais e jornalistas trazendo-a para perto da sociedade’, explicou [ver íntegra abaixo].


O Observatório visitou três escolas de Jornalismo consideradas ‘ilhas’ de excelência: a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Para qualificar os estudantes, as escolas mantêm laboratórios práticos que ensinam os primeiros passos da profissão. Recentemente, a USP e a UFPE reformaram as instalações técnicas, mas a luta para manter a atualização do material é constante. Na iniciativa privada, a PUC-RS destaca-se por oferecer equipamentos compatíveis como os do mercado de trabalho.


Mais de 40 alunos disputam cada vaga no curso de Jornalismo e Editoração da USP. É o mais concorrido de toda a universidade. Para José Luiz Proença, chefe do Departamento de Jornalismo, a receita para o bom desempenho do curso é a seleção dos alunos e a alta qualificação dos professores. Todos têm mestrado e apenas um ainda não concluiu o doutorado. E a dedicação exclusiva, que tem como conseqüência o afastamento dos professores do mercado formal, é uma exigência. Todos os docentes das disciplinas práticas tiveram uma passagem significativa pelo mercado, mas optaram por seguir a carreira acadêmica. A proposta fundamental do curso não é ‘fazer’ jornalismo, mas ‘pensar’ jornalismo: o aluno não é um ‘fazedor de notícias’ e sim um questionador.


Academia vs. mercado de trabalho


Ao estimular que os alunos cursem diversas cadeiras em áreas correlatas e complementares ao Jornalismo, a UFPE pretende enriquecer a trajetória individual de cada estudante e oferecer ao mercado profissionais diferenciados. O perfil dos professores é similar ao da USP: com titulação e dedicação exclusiva. ‘Professor demanda uma formação específica. Não é o fato de você ser um profissional do mercado que determinará que seja um excelente professor’, afirmou Luiza Nóbrega, coordenadora do Curso de Comunicação Social da universidade. Luiza explicou que a UFPE ‘já ultrapassou’ a discussão do enfoque em teoria ou prática. ‘É preciso procurar pontos onde a teoria vai ajudar a uma prática melhor e a avaliação das práticas reflita a própria teoria’, comentou.


A PUC-RS tem em seus quadros um grande número de professores que ainda atuam formalmente no mercado de trabalho. Cristiane Finger, coordenadora do Curso de Jornalismo, explicou que os pontos positivos do curso são a obrigatoriedade de o aluno participar dos laboratórios e o fato de as disciplinas teóricas e práticas estarem distribuídas ao longo dos quatro anos da graduação. A alternância evita a concentração da carga teórica no início, quando os estudantes ainda não estão preparados intelectualmente. Finger criticou o fato de não haver representantes de universidades privadas na comissão montada pelo MEC. ‘É lastimável’, disse.


Tudo precisa ser melhorado


O Observatório também gravou entrevistas com jornalistas que têm larga experiência na formação de novos profissionais. Carlos Eduardo Lins da Silva, atual ombudsman da Folha de S.Paulo, avaliou que ‘as escolas de jornalismo são ruins, assim como o ensino em geral no Brasil é ruim’. Tudo precisa ser melhorado, na visão do jornalista. A questão principal não é só o currículo, mas a formação profissional dos professores, a formação educacional dos alunos e a estrutura das universidades. Outro ponto destacado por ele foi a necessidade de os laboratórios das escolas de Jornalismo obrigarem os alunos a respeitar prazos rígidos para a conclusão dos produtos.


Luiz Paulo Horta, coordenador de Estágios de O Globo, atribui o esvaziamento das disciplinas humanísticas das escolas do ensino médio ao mecanismo de ‘corrida de cavalinhos’ do vestibular. As universidades têm dificuldade de suprir esta carência. Horta explicou que, nos Estados Unidos, o início do curso de Jornalismo é voltado para o estudo das Ciências Humanas; depois, foca-se nas disciplinas específicas do Jornalismo. E os alunos são cobrados em relação ao hábito de leitura. ‘Hoje temos um grande avanço na técnica jornalística, mas falta uma visão maior que gera, por exemplo, um bom jornalismo de opinião’, avaliou.


Para Muniz Sodré, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é preciso refletir sobre o futuro da atividade jornalística. Na sua avaliação, o jornalismo impresso terá um viés analítico e profundo, aproximando-se de uma historiografia do cotidiano e do discurso das Ciências Sociais. Muniz Sodré comentou que o periódico francês Le Monde Diplomatique já segue esta linha. ‘O jornalismo de pílulas, instantâneo, de fofocas, apressado, já está sendo feito na internet, no rádio e na televisão’, disse.


Deficiências em todos os cursos


No debate ao vivo, Dines pediu que José Marques avaliasse os cursos de Jornalismo no Brasil. Para o presidente da comissão do MEC, o ensino de Jornalismo ‘não é dos melhores, mas já foi pior’. A maioria das escolas hoje está equipada adequadamente, mas falta aprofundamento da parte humanística e uma melhor compreensão da sociedade brasileira e do mundo contemporâneo. Esta lacuna prejudica a formação dos novos jornalistas.


Na avaliação de Ana Arruda Callado, os cursos de jornalismo são ‘cobrados demais’. Há deficiências também na formação superior de profissionais de outras áreas, como Medicina e Direito, mas ‘só se ouve falar do Jornalismo’. Ana Arruda concorda que o problema do ensino superior é decorrente da deficiência dos ensinos fundamental e médio. ‘O aluno chega sem uma base mínima’, avaliou a professora. Em quatro anos de estudo, não é possível corrigir o atraso na formação do aluno.


Ana Arruda concorda com Carlos Eduardo Lins da Silva de que é preciso que os laboratórios das universidades simulem a realidade das redações. ‘Não pode um aluno ficar fazendo jornal de mentirinha durante quatro anos e depois ser jogado em um jornal de verdade.’ A falha mais grave, na avaliação da jornalista, é que os estudantes não têm o hábito da leitura e pouco conhecem da história e a cultura do Brasil. ‘A tragédia está na falta absoluta de matérias como História, Economia, Ecologia’, criticou. É possível que o aluno aprenda a técnica em um curto período de tempo com um ‘bom estágio’ em uma redação. O ensino das disciplinas teóricas deveria ser elaborado e direcionado especificamente para o jornalismo.


Visão mais profunda da realidade social


Para Caio Túlio Costa, há um abismo entre aquilo que se ensina e aprende nas universidades e o que se faz no Jornalismo. Além da preocupação com a formação humana, é fundamental que o novo currículo englobe o estudo aprofundado da Filosofia. ‘O jornalista precisa entender onde Moral e Ética se conjugam, o que esses dois conceitos têm para nos dizer’, advertiu. Caio Túlio avalia que a imprensa está passando por um período de grande mudança estrutural, no qual a interatividade tem um papel destacado. ‘As escolas de jornalismo estão a anos-luz dessas mudanças estruturais que estão acontecendo’, avaliou.


‘É muito melhor ensinar a técnica jornalística para alguém que vem de uma escola de Economia, de Direito, de Sociologia, de Filosofia, do que dividir o ensino desta técnica de uma maneira muito superficial com o ensino humanístico que a escola de Comunicação dá hoje’, disse Caio Túlio. Para que os cursos de jornalismo sejam minimamente respeitados, é preciso que os alunos ‘saiam das escolas pelo menos sabendo ler’. José Marques de Melo acrescentou que nos Estados Unidos há duas formas do exercício da atividade jornalística. Opta-se por cursar quatro anos de Jornalismo ou se pode escolher apenas a pós-graduação.


O presidente da Comissão concordou que é aceitável que um profissional diplomado em outra área possa complementar sua formação para exercer o ofício de jornalista. Mas é necessário observar que a sociedade também precisa de ‘jornalistas generalistas’, não só de especialistas em Direito ou Economia, por exemplo. ‘É preciso falar para toda a população’, disse.


Marques de Melo explicou que a comissão é composta por profissionais que têm notória ‘competência’ na área e que faz uma ponte entre o mercado, a academia e a sociedade civil. Coincidentemente, os profissionais convidados são de universidades públicas e não há representantes de entidades privadas. Todas as partes puderam participar das audiências públicas, inclusive os alunos. Ele esclareceu que a comissão não irá apresentar um novo currículo, mas novas diretrizes. O currículo continuará sendo competência de cada universidade. Não será imposto ‘de Brasília para toda a nação’.


***


Assunto de interesse público


Alberto Dines # editorial do Observatório da Imprensa na TV nº 504, no ar em 26/5/2009


Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.


O currículo das escolas de jornalismo é assunto de interesse público? Se a sociedade não discute a formação dos médicos ou advogados, por que razão levar este debate ao conhecimento da sociedade?


Se o diploma é indispensável para o exercício do jornalismo é, pelo menos, conveniente que o cidadão que receberá as informações produzidas pelo jornalista tenha condições de avaliar a formação daquele que vai ajudá-lo a pensar, tomar decisões e fazer juízos. Nada nos impede de discutir a formação dos engenheiros, biólogos ou psicanalistas, mas o papel da imprensa na sociedade tem nuances e subjetividades que justificam este debate público.


A questão não se circunscreve ao Brasil. A Unesco a considera de tanta importância que chegou a propor um paradigma curricular (ver aqui).


Em boa hora o ministro da Educação, Fernando Haddad, decidiu rever mais uma vez o currículo das escolas de jornalismo. A sociedade muda, a imprensa que a serve também muda, aqueles que vão exercê-la precisam ser preparados de acordo com as novas exigências.


Este Observatório está comprometido desde a sua fundação com a tarefa de oxigenar a discussão sobre jornais e jornalistas, trazendo-a para perto da sociedade. Hoje vencemos mais uma etapa no projeto de aproximar o público da coisa pública.


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A mídia na semana


** Shirley Temple, a menina prodígio de Hollywood encantou diversas gerações com os seus cachinhos dourados. Agora Shirley Temple está na TV brasileira com o nome de Maísa Silva, 7 anos. O final, porém, é outro. A americana chegou a ser embaixadora do seu país, a nossa Maísa não aguentou a pressão do SBT e pediu para ir para casa. O apresentador Sílvio Santos não deixou, o Ministério Público interferiu e o juiz determinou que a nossa Shirley só pode continuar na TV desde que tenha um apoio psicológico. O certo seria que o apoio psicológico fosse estendido também ao apresentador.


** Engavetar ou não engavetar uma denúncia quente? Esta é a questão. Repórteres querem publicar logo o que produziram, editores preferem esperar e apurar melhor. O Washington Post desvendou o escândalo Watergate e derrubou Nixon. Mas o seu rival, o New York Times, resolveu esperar, esperar e agora, 37 anos depois, revela-se que esperou demais, tinha as mesmas informações mas não a mesma disposição.


** a TV pública começou há 42 anos mas só recentemente a sociedade brasileira despertou para o debate sobre a necessidade de alternativas à TV comercial. Este debate ganha a partir de hoje [terça, 26/5] um grande impulso com a realização em Brasília do 2º Fórum Nacional de TVs Públicas. Nosso tema da próxima edição.

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