Terça-feira, 22 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

JORNAL DE DEBATES > SONÂMBULOS

A Grande Guerra, as guerras

Por Alberto Dines em 29/07/2014 na edição 809

Impossível desligar-se da data e esquecer que a Grande Guerra começou formalmente há exatos 100 anos. Sobretudo quando os assuntos dominantes do noticiário internacional são três guerras regionais, herdeiras diretas da catástrofe euro-afro-asiática de 1914-1918. A remissão torna-se imperiosa num Observatório comprometido com o debate sobre o desempenho da imprensa.

Impossível ignorar o papel dos jornais como fomentadores do clima nacionalista, guerreiro e triunfalista produzido pelo atentado de Sarajevo (pronuncia-se Saraievo). Mas o espírito algo sonso e delirante daqueles Anos Elétricos foi também fabricado pelos arautos do progresso e da prosperidade – a mídia de então.

Hermann Broch (1886-1951), o visionário e cético vienense, produziu (entre outros) dois títulos que sintetizam a mentalidade daquele tempo – o ensaio “Alegre Apocalipse” e a trilogia ficcional “Os Sonâmbulos” (este também utilizado por Christopher Clark para explicar como eclodiu a guerra de 1914; Companhia das Letras, 2014).

Os avanços das ciências, da tecnologia e as facilidades oferecidas às massas criaram uma falsa sensação de certeza e inevitabilidade. A imprensa não foi propriamente belicista, ela se embalou num imenso autoengano, a primeira grande bolha da história: as evidências de progresso e prosperidade irreversíveis. Naquele clima sonambúlico imaginava-se que os grandes impérios com suas tríplices alianças eram imperecíveis. Guerras, se houvesse, seriam breves.

A Grande Guerra foi precedida por um inédito movimento pacifista e em suas fileiras engajaram-se muitos jornalistas e intelectuais de grande prestígio. Alguns (como o jornalista-tribuno socialista francês Jean Jaurès) pagaram com a vida seu idealismo humanitário. Não é por acaso que outro vienense, o satirista Karl Kraus (1874-1936), pacifista intransigente, converteu-se no primeiro media critic de que se tem notícia.

Armas perigosas

Num mundo ainda mais informado e conectado do aquele do início do século 20, é imensa a capacidade do sistema midiático global em embarcar nas simplificações, fomentar preconceitos, equívocos e exacerbações. Deveria ser o contrário: antes mesmo de apontar culpados por um conflito bélico é indispensável desativá-los.

Não há quem desconheça os horrores da guerra (mesmo quando o sangue é clonado com massa de tomate), mas quando uma começa ou se reacende – caso do atual enfrentamento entre Israel e o Hamas, na Faixa de Gaza – a primeira reação é tomar partido. E, ao tomar partido, transfere-se a batalha da linha de frente para a retaguarda e a guerra amplia-se, torna-se total.

Quem começou o terceiro round entre Israel e o Hamas? O sequestro e morte dos três adolescentes israelenses ou a represália contra o jovem palestino queimado vivo por fanáticos? Os quatro martírios são igualmente abomináveis, esta é a mensagem que deveria resultar do noticiário.

Cabe à mídia listar antecedentes ou causas – sobretudo a mídia digital, cada vez mais pulverizada e rasa –, mas a busca de antecedentes sem um suporte humanitário e moral costuma ser deletéria. No caso do conflito entre árabes e judeus pode-se chegar à rivalidade entre Sara, mulher do patriarca Abrahão, e a sua concubina, Agar.

Os filmes onde a guerra é retratada com fidelidade devem conter uma carga equivalente de horror. Relatos de guerras podem ser armas de guerra quando manejados pela soldadesca tacanha e burra.

Utopismo e palpitismo

Do primeiro conflito entre o Estado de Israel e os países árabes até a sangueira de hoje, o contencioso central é a partilha da antiga Palestina em dois estados decidida pela Assembleia Geral da ONU, sob a presidência do brasileiro Oswaldo Aranha, em novembro de 1947. O governo de Israel (então liberal-trabalhista) saudou-a e a acatou prontamente. Os vizinhos não reconheceram e procuraram anulá-la.

Quatro décadas e cinco guerras depois, em Oslo, com a liderança de Yasser Arafat, os palestinos convenceram-se de que era a única solução viável e construtiva capaz de interromper a dinâmica da guerra. Hoje, a extrema direita israelense em coalizão com os fanáticos religiosos se recusa a reconhecer o Estado Palestino previsto na partilha que legitimou o Estado de Israel. Está na contramão do que deseja a Autoridade Palestina, os pacifistas dos dois lados, a esquerda judaica na diáspora, os governos dos EUA, União Europeia, América do Sul, Rússia, China, Índia e alguns países árabes.

O articulista de plantão na pág. A-6 da edição de segunda-feira (29/7) da Folha de S.Paulo, camuflado com o uniforme de utopista, declara que Israel é uma aberração, precisa acabar, judeus e árabes devem ser obrigados a conviver num estado único. Não explica quem os obrigará. O premiê Benjamin Netanyahu agradece, também os aiatolás iranianos.

Saudações ao jornalista Ricardo Melo, o mais sério candidato ao Nobel da Guerra.

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