Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

JORNAL DE DEBATES > VARIG, 200 ANOS & MILÍCIAS

A imprensa deixou de ser uma referência

Por Alberto Dines em 10/06/2008 na edição 489

A Era da Homogeneização (ou da Massificação) é um dado concreto, inescapável. O mundo despersonaliza-se rapidamente, a grande geléia global é uma realidade. Também a ‘desfulanização’. Razão pela qual a crítica dos meios de comunicação torna-se obrigatoriamente vaga, desprovida de culpados, restrita aos fenômenos.


O certo seria nomear os veículos jornalísticos individualmente, mas numa sociedade cada vez mais indiferenciada e equalizada é impossível escapar das denominações genéricas como ‘Mídia’, ‘Imprensa’ ou ‘Grande Imprensa’. Os próprios participantes desses conjuntos preferem proteger-se através da despersonalização do que assumir responsabilidades singulares.


Qualquer que seja o foco ou enfoque da observação, a imprensa brasileira está em dívida com a sua parceira – a sociedade – em três episódios recentes, muito destacados e graves:


** O chamado ‘escândalo Varig’;


** O embargo à comemoração dos 200 anos da imprensa;


** O tratamento frio, distante, desprovido de solidariedade, dado ao episódio do seqüestro e tortura da equipe do jornal O Dia por um bando de paramilitares na favela do Batan, Rio de Janeiro.


Varig: aval às maracutaias


É extraordinária a transformação da ex-diretora da ANAC, Denise Abreu, ex-vilã do caos aéreo, em paladina da moralidade no serviço público. Há pouco mais de um ano estava sendo achincalhada, diabolizada, quase responsabilizada pela catástrofe com o Airbus da TAM. Hoje convertida num Quixote de saias, é a grande acusadora das falcatruas relacionadas com a compra da Varig.


As duas atuações não são necessariamente contraditórias; a mutação, porém, exige explicações. A imprensa está ostensivamente desatenta à metamorfose operada na vida (e imagem) de Denise Abreu. Reviravolta tão rápida e drástica num personagem precisa ser explicada aos leitores, sob pena de colocar sob suspeita a veracidade da própria narrativa.


Mais grave ainda é a parcialidade da mídia na reconstrução do episódio que Luis Nassif chamou de ‘imolação’ e os analistas empresariais designaram como ‘operação de salvamento’ da Varig.


A imprensa exultou quando Dilma Rousseff, ministra-chefe da Casa Civil, e Waldir Pires, então ministro da Defesa, estatistas históricos, anunciaram que o Estado não era um hospital de empresas mal geridas e que o dinheiro do contribuinte não poderia ser investido num negócio administrado irresponsavelmente. Pronunciamento tão inequívoco a favor das soluções de mercado era um presente dos céus.


Naquele exato momento a mídia oferecia um aval às maracutaias que agora a surpreendem. Cúmplice ou apenas incentivadora, a imprensa – ou a grande imprensa – não pode se fingir inocente. Não desconfiou, confiou na moralidade das leis do mercado, baixou a guarda, não investigou.


Se fossem verdadeiramente imparciais, nossos editorialistas e comentaristas de economia não poderiam omitir que mesmo nos EUA – pátria da livre iniciativa – só a pronta e breve intervenção do Estado é capaz de evitar as grandes catástrofes empresariais e financeiras.


O vexame que estamos oferecendo ao mundo desenvolvido inclui uma formidável desatenção por parte de uma instituição que goza de inúmeros privilégios constitucionais justamente para manter-se atenta e zelar pelo interesse público.


200 anos: em brancas nuvens


O embargo da grande imprensa e suas corporações às comemorações dos 200 anos da nossa imprensa – descontadas as desanimadas exceções da Folha de S.Paulo e do Correio Braziliense (de Brasília) – pelo visto ficará sem explicações.


Seria válido contestar a data e a primazia concedida a Hipólito da Costa ou escolher Frei Tibúrcio José da Rocha, primeiro redator Gazeta do Rio de Janeiro, como patriarca da nossa imprensa. Não querem um maçom e anticlerical como precursor do nosso jornalismo? Então que se inventem teorias: a historiografia não é uma ciência exata, é elástica. Estabeleça-se o debate, questione-se, que se desencavem as acusações contra a probidade do redator do Correio Brazilirense. Ignorar o espetacular início da imprensa e esconder o atraso com que chegamos até ela é crime de lesa-identidade.




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Hipólito da Costa, o crítico boicotado – A.D.


O Dia: omissão injustificada


A maneira fria e distante como a grande imprensa paulistana tratou a violência cometida pelos paramilitares contra a equipe de jornalistas de O Dia produz conclusões imediatas. A primeira delas: a imprensa paulistana, apesar do porte, não é nacional.


Os jornalões impressos na Paulicéia circulam simbolicamente em algumas capitais, valem como referência, mas não atuam nacionalmente. A não ser de forma episódica. Não é por acaso que ostentam no cabeçalho o nome de um estado.


Comeram mosca no sábado (31/5), quase deixaram sem registro no dia seguinte uma inédita agressão que correu mundo. É desagradável, acontece com os melhores diários. Imperdoável foi o descaso posterior, a incapacidade de perceber que a atuação das milícias nas favelas cariocas é um dado novo no panorama da violência em nossas grandes cidades.


As milícias não são um caso de polícia, são uma realidade institucional, braço armado de um bando de políticos marginais cuja articulação vem se fazendo em grande velocidade. Com uma imprensa conformada com o papel cada vez mais relevante da televisão, torna-se impossível criar uma consciência coletiva para enfrentar emergências ou convocar resistências às desordens institucionais.


A agenda brasileira para ser implementada exige uma imprensa minimamente comprometida com o espaço nacional. Tal como o Supremo Tribunal Federal (convertido no inconteste balizador moral da República), a imprensa precisa assumir o seu papel de referência, fator de equilíbrio e discernimento.


Com falhas tão visíveis e tropeços tão primários, impossível.

Todos os comentários

  1. Comentou em 11/06/2008 Ouhydes Fonseca

    Dines, caro

    Eu também imaginava que a chamada grande imprensa dedicaria mais espaços para o tema dos 200 anos. Dai, concordo com suas críticas. Gostaria, apenas, de registrar que A Tribuna, de Santos, fundada em 1894, centenária portanto, por iniciativa do Curso de Jornalismo da Universidade Católica de Santos-UniSantos e em parceria conosco, publicou no dia primeiro de junho um caderno especial de oito páginas (tamanho standard). O material foi produzido por profissionais de A Tribuna e professores e alunos de jornalismo. Esse caderno, na verdade, faz parte de uma série de atividades que a parceria vem desenvolvendo e continuará até o fim do que estamos chamando de O ano do Hipólito. O trabalho é intermediado pela Cátedra Giusfredo Santini de Comunicação em convênio assinado entre a direção do jornal (Giusfredo Santini, já falecido, foi o consolidador do jornal na segunda metade do século passado) e a UniSantos. Aparentemente, o bicentenário de Hipólito teve maior repercussão na academia do que nos veículos de comunicação impressa. Nesse sentido, registro também que o Jirnal da Usp, editado pela Reitoria, edição de 2 a 8 de junho, dedica cinco páginas ao assunto. Creio,porém, que muitas outras iniciativas desse tipo tenham ocorrido nos cursos de jornalismo de todo o país. Com o respeito e admiraçãode sempre ao mestre e amigo, aceite um abraço do Ouhydes Fonseca

  2. Comentou em 10/06/2008 Gersier Lima

    Dines,
    Vc é uma pessoa bem informada e sabe o que houve anos atrás no (dês)governo de FHC.
    Vc sabe que Varig tinha dívidas com a BR Distribuidora, com a INFRAERO,com o Banco do Brasil e com o… UNIBANCO.
    Acusam Lula de colocar petistas em cargo,mas nunca demonizaram o (dês)governo de FHC quando distribuía benesses colocando tucanos e aliados em cargos ditos “interessantes” .
    Um dos resultados dessa política nefasta é o caso VARIG
    Os tucanos que na época assumiram o controle dessa empresa pagaram ao UNIBANCO os duzentos milhões de reais que a mesma lhe devia.
    Porque foi paga essa dívida?Como foi paga essa dívida?Quem controlava o UNIBANCO?
    A mídia faz questão de esconder, mas muita gente sabe que era o irmão do senador Jorge Bornahaussen na época do PFL hoje Demos,que posam hoje de defensores da ética e do “bom uso” do dinheiro público.
    Se isso não é tráfico de influência podemos chamar de que?
    Adivinhem se a BR Distribuidora, a INFRAERO e o Banco do Brasil receberam o que lhes era devido
    Querem e cobram uma CPI da VARIG,mas para variar,desde que seja só no período do Governo Lula,igual queriam com a CPI dos cartões.
    Ultimamente o óleo de peroba está em falta no mercado. Certa mídia e certos senadores da oposição são os responsáveis .
    É por isso Dines que a imprensa está indo cada vez mais ladeira abaixo,deixando de “ser referência”.

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