Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

JORNAL DE DEBATES > OI NA TV

Acabou a Copa, é hora de balanço

Por Lilia Diniz em 15/07/2010 na edição 598





A Copa do Mundo da Jabulani, das vuvuzelas e
do polvo profeta chegou ao fim. A competição na África do Sul começou monótona,
com poucos gols e muitas faltas, mas esquentou na segunda fase e terminou com um
novo país no seleto time dos campeões: a Espanha. Para os torcedores do Brasil,
é hora de começar a arrumar a casa para o mundial de 2014. Parte dos ‘190
milhões de técnicos’ brasileiros credita a eliminação nas quartas de final ao
técnico Dunga. Com fama de retranqueiro, o treinador desagradou já na convocação
do time, quando não escalou os jogadores santistas Neymar e Ganso.



A relação do técnico com a mídia foi conturbada. Para reparar excessos
cometidos na Copa de 2006, quando a imprensa foi acusada de desconcentrar o
time, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) estabeleceu novas regras. Houve
restrição ao acesso aos jogadores e programas humorísticos foram proibidos de
participar das entrevistas coletivas. Em uma delas, após a partida contra a
Costa do Marfim [20/6], Dunga chegou a xingar jornalistas. No jogo em que o time
foi desclassificado, o técnico mostrou descontrole e esbravejou à beira do
campo, ao estilo ‘guerreiro’ que defendeu em um polêmico comercial de cerveja. O
Observatório da Imprensa exibido ao vivo na terça-feira [13/7] pela TV
Brasil analisou a cobertura dos meios de comunicação na Copa do Mundo.


Para fazer este balanço, Dines recebeu três convidados no estúdio do Rio de
Janeiro. Antonio Nascimento é editor de Esportes de O Globo. Foi
responsável pela cobertura de quatro Copas do Mundo e quatro Jogos Olímpicos.
Marcos de Castro foi redator e editor de Esportes do Jornal do Brasil nos
anos 1960, onde ocupou também outros cargos, como editorialista. Paulo César
Caju, atleta profissional e colunista do Jornal da Tarde, foi campeão
mundial pela seleção brasileira em 1970. Ponta-esquerda e meia, disputou 80
jogos e marcou 17 gols pela seleção. Também participou da Copa de 1974, na
Alemanha. Revelado pelo Botafogo no final dos anos 1960, jogou no Flamengo, no
Olympique de Marselha e no Vasco da Gama, entre outros times.


Antes do debate no estúdio, Alberto Dines comentou, na coluna ‘A Mídia na
Semana’, dois assuntos de destaque. A escolha de Hipólito da Costa – autor do
primeiro periódico livre de censura a circular no Brasil e em Portugal, o
Correio Braziliense (1808-1822) – como Herói Nacional em 5/7 foi
elogiada. Em seguida, Dines falou sobre o anúncio do fim da edição impressa do
Jornal do Brasil, fundado em 1891 por Rodolfo Dantas. ‘Quem liquidou o JB
não foi a internet. O jornal foi vítima dele mesmo. Nos anos 70 seguiu o
conselho do então ministro da Fazenda, Delfim Netto, e endividou-se pesadamente
em dólar para construir sua nova sede. Este elefante branco matou-o’,
avaliou.


Imprensa repetitiva


Em editorial, Dines ponderou que é importante promover um balanço da
cobertura da Copa quando os fatos ainda estão quentes e não ‘borrados pelo
tempo’. O agente da discussão sobre o desempenho da mídia, na visão de Dines,
deve ser a própria imprensa. ‘Falou-se muito nas inovações tecnológicas e no
incômodo que elas causaram aos árbitros incompetentes, mas não se fez uma
pergunta capital: qual foi a novidade aportada pela imprensa, em que se
distinguiu a cobertura de 2010 da cobertura de 2006 ou 2002? A bola mudou,
trocou de nome, tornou-se Jabulani, ficou mais leve e imponderável, mas a
cobertura continuou quadrada e marcada pela mesmice’, criticou.


A reportagem exibida pelo Observatório mostrou a opinião de
jornalistas. Álvaro de Oliveira Filho, enviado pela CBN à África do Sul,
classificou como ‘animosidade desnecessária’ a relação entre a comissão técnica
da seleção e a imprensa. ‘Dunga demorou a perceber que jornalista não faz parte
da comissão técnica. Jornalista não acompanha a seleção brasileira para torcer
pela seleção. Jornalista está ali para dar informações, para fazer a sua
crítica’, disse. De acordo com Álvaro, quando as críticas feitas por jornalistas
desagradavam a comissão, o autor da reportagem passava a ser visto como ‘inimigo
da seleção’, alguém que ‘torcia contra’ o time. A cada entrevista coletiva,
Dunga agia como se estivesse em um confronto com o inimigo.


Tecnologia a serviço de todos


Mais de trinta câmeras de televisão mostraram cada detalhe das partidas na
África do Sul. Imagens em alta definição, câmera lenta e muitos recursos
tecnológicos encantaram os torcedores e deixaram visíveis erros graves da
arbitragem. Paulo Roberto Falcão, comentarista de futebol da TV Globo, avalia
que as imagens auxiliam seu trabalho. ‘Eu tenho recursos de estar falando em
cima de uma imagem que eu estou vendo e que você em casa está vendo. Isso me
aproxima um pouco mais do telespectador’, avaliou Falcão.


A tecnologia deixa as falhas da arbitragem e dos jogadores mais visíveis, mas
também revela detalhes que podem atenuar erros. ‘Às vezes eu preciso de uma
câmera para mostrar que o jogador errou o gol que o torcedor acha que até nós
faríamos – o torcedor tem muito isso, ‘até eu…’. E de repente o que acontece?
Ele escorregou o pé na hora. Se você tem o recurso de muitas câmeras, você
mostra que errou porque o pé dele escorregou. Ou mostra que errou porque foi
incompetente’, disse.


Enquanto grandes conglomerados de mídia enviaram equipes extensas para a
África do Sul, os veículos de menor porte contaram com equipes enxutas para
realizar o trabalho. Marcelo Machado, editor de Esportes do jornal A
Tarde
, da Bahia, explicou que o grupo empresarial enviou apenas dois
profissionais, um jornalista e um fotógrafo. Bruno Formiga, repórter do diário
O Povo, do Ceará, avaliou que o jornal em papel esbarrou em um problema
antigo: tentar competir com a cobertura dos canais de televisão, com a internet
e com as rádios. Para vencer esta ‘competição desleal’, os jornais precisam ser
criativos e não se limitar ao factual.


No debate no estúdio, Dines disse que esta foi ‘a Copa da televisão’ e pediu
para Antônio Nascimento analisar o ‘papel inigualável’ dos jornais impressos.
Nascimento relembrou que, até a Copa de 2006, os meios de comunicação mantinham
as redações do impresso e do online separadas, mas atualmente as plataformas são
integradas. ‘Hoje eu não sou o editor de papel do jornal O Globo. Eu sou
o editor de internet, Twitter, Facebook, o que você quiser. Eu não brigo comigo
mesmo. A minha cobertura de internet não briga com a minha cobertura em papel’,
ponderou.


O destaque dado ao polvo que acertou o resultado de parte dos jogos da
competição, na visão de Nascimento, é uma mostra dos novos tempos. ‘O polvo é um
fenômeno que nasce no Twitter, chega à internet e vai para o papel. É uma
necessidade nova e a gente tem de estar ligado em tudo isso’,
exemplificou.


Patriotismo fora de mão


Nascimento discorda de que a cobertura tenha caído na ‘mesmice’. Para o
jornalista, o trabalho da imprensa ‘foi muito melhor’ do que o desempenho da
seleção brasileira. ‘Eu acho que a imprensa saiu-se bem, sim, nesta Copa. Tudo
bem, a televisão é televisão, mas apostou-se em reportagem como nunca se tinha
apostado em uma Copa’, avaliou. Os jornais impressos tentaram ser complementares
à televisão e mostraram uma cobertura mais profunda. Na visão do editor, a
‘briga’ da imprensa com Dunga foi causada pelo discurso ‘patriotista e sem
graça’ do técnico e de seu auxiliar, Jorginho, que criaram uma ‘animosidade
monstruosa’ em relação à mídia.


Para Paulo César Caju, Dunga montou um grupo de jogadores ‘bonzinhos’,
disciplinados, ao estilo ‘tudo o que seu mestre mandar, faremos todos’. Criou-se
a ‘família Dunga’ e foi ‘introduzido um pastor’ dentro da delegação brasileira.
O atleta lembrou que, durante as eliminatórias para a Copa do Mundo, o treinador
‘esteve praticamente para cair’ por conta do fraco desempenho da seleção contra
times considerados pequenos na América Latina, como Bolívia e Colômbia. Foi
‘salvo’ pelos jogos contra a Argentina e o Chile, ambos vencidos por 3×0.


‘O Brasil chegou em primeiro. Criou-se uma expectativa enorme com esse time
com vários jogadores que jogam um futebol que eu particularmente não gosto, que
é um futebol de pegada, de marcação, que é um futebol que se joga na região sul
do país’. Na Copa das Confederações, a situação se repetiu e o time chegou à
Copa sem talento. Nos primeiros jogos, a atuação dos times adversários facilitou
a campanha brasileira. ‘Ganhamos da Coréia do Norte com um gol espírita do
Maicon’, brincou. Na partida contra Portugal, houve o primeiro teste para a
seleção. ‘Empatamos de 0x0 em um jogo horrível’, avaliou Caju. Faltou qualidade
e criatividade em campo e ‘coragem ao ‘seu’ Dunga de não desmanchar a família de
jogadores que era totalmente obediente a ele’.


História


Para Marcos de Castro, a cobertura da televisão não pode fugir do dia a dia.
‘Com o Dunga foi difícil. É um sujeito mal-humorado, atende os repórteres de uma
maneira até grosseira’. Já a imprensa escrita fez um trabalho razoável mas
faltou ‘algo mais’, o ‘outro lado’. A mídia impressa, que tem maior espaço e
mais tempo para se dedicar às reportagens, desperdiçou uma oportunidade de
retratar como a história do continente africano é entrelaçada com a do Brasil e
de Portugal.


‘Nós estávamos na África do Sul, onde a imprensa escrita tinha muito a dizer
sobre o Cabo da Boa Esperança, que foi um nome dado por portugueses, lá passou
Vasco da Gama em sua viagem que rendeu Os Lusíadas, lá passou Bartholomeu
Dias. E tem uma outra cidade chamada Durban, onde viveu Fernando Pessoa, que é
cada vez mais um poeta estudado na França, na Inglaterra, na Itália. E nós
realmente não demos a menor importância a este fato’, criticou. Os
telespectadores e leitores saíram perdendo nesta Copa, na opinião do jornalista.


Acesso


Dines relembrou que, na Copa de 1970, apesar de o Brasil viver sob a ditadura
militar, a informação conseguia circular na imprensa esportiva. ‘Apesar da
rigidez, os repórteres funcionavam. Estavam lá, circulavam, tinham notícias e
informações’, sublinhou. Antônio Nascimento credita a nova conjuntura, em parte,
às assessorias de comunicação. ‘Qualquer jogador, o lateral reserva do Olaria, é
possível que ele tenha um assessor de imprensa’. O editor relatou que o acesso
às fontes de informação é restrito. ‘É muito difícil trabalhar assim. É uma
proteção, uma insegurança, um medo, e a seleção do Dunga foi o melhor exemplo
disso’, disse.


O convívio entre a delegação brasileira e a imprensa na Copa de 1970, na
opinião do campeão mundial Paulo César Caju, era ‘maravilhoso’. O atleta
recordou que cerca de 150 profissionais de imprensa acompanhavam o time e, como
não havia assessores de imprensa, o contato era aberto. ‘A qualidade da imprensa
na época favorecia [o clima]. Eram 60 dias presos. Eu me lembro de João
Saldanha, Oldemário Touginhó, Sandro Moreira, Luis Mendes’.


***


Balanço da Copa


Alberto Dines # editorial do Observatório da Imprensa na TV nº 554, no
ar em 13/7/2010


Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.


Em 2008, nossa imprensa fez algo inédito. Quando comemorou os 200 anos da
chegada da corte portuguesa ao Brasil, resolveu omitir qualquer menção ao nome
do nosso primeiro jornalista, Hipólito da Costa, e ao seu jornal, o Correio
Braziliense
, que editou sozinho no exílio durante 14 anos. Ficamos sem
começo e sem história. Quem reparou esta auto-censura e restabeleceu a verdade
foi o governo ao inscrever o nome de Hipólito da Costa como o primeiro herói
nacional. A segunda escolha do governo recaiu no nome do jesuíta José de
Anchieta. Com isso fez um agrado à igreja católica que se sentia ofendida com
qualquer homenagem que se prestasse a Hipólito da Costa, maçom e ardoroso
adversário da santa inquisição. Voltaremos ao assunto.


Um século de glórias e duas décadas de agonia. Esta é, em resumo, a história
do Jornal do Brasil, que acaba de confirmar o fim da sua edição impressa.
Continuará virtual, o que não chega a ser um consolo. Quem liquidou o JB
não foi a internet. O jornal foi vítima dele mesmo. Nos anos 70 seguiu o
conselho do então ministro da Fazenda, Delfim Netto, e endividou-se pesadamente
em dólar para construir sua nova sede. Este elefante branco matou-o. Porta-voz
da cultura carioca, símbolo dos anos dourados, mesmo na decadência o JB
representava o pluralismo jornalístico. Sem esta pluralidade a imprensa perde
seu principal atributo. Também voltaremos a este assunto.


Mesmice e renovação


A Copa de 2010 terminou no domingo [11/7] e, na segunda-feira, ontem, a mídia
já estava mergulhada na pauta de 2014. Faz sentido: está tudo atrasado, da
escolha do técnico à definição dos estádios. Mas não é recomendável deixar de
lado o balanço dos últimos 30 dias.


Sobrou muita coisa, a sucessão de jogos impediu que algumas discussões fossem
conclusivas e transferiu outras para a posteridade. Mas se a imprensa não
assumir plenamente sua função revisora, quem o fará? Quando e quem vai discutir
o desempenho da imprensa senão ela mesma?


É o que pretendemos fazer nesta edição com os fatos ainda quentes, ainda não
borrados pelo tempo. E quem nos empurra para esta revisão é o presidente Lula,
um fanático por futebol que, dois dias depois da desmoralização perante a
Holanda, fingindo que não queria botar o dedo na ferida, colocou a mão inteira
ao lembrar que a renovação deve começar por cima, pela direção da CBF.


Falou-se muito nas inovações tecnológicas e no incômodo que elas causaram aos
árbitros incompetentes, mas não se fez uma pergunta capital: qual foi a novidade
aportada pela imprensa, em que se distinguiu a cobertura de 2010 da cobertura de
2006 ou 2002?


A bola mudou, trocou de nome, tornou-se Jabulani, ficou mais leve e
imponderável, mas a cobertura continuou quadrada e marcada pela mesmice.

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