Sábado, 23 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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JORNAL DE DEBATES > DEPOIS DA CAMPANHA

Acertos da imprensa, bordoadas do governo

Por Rolf Kuntz em 07/11/2006 na edição 406

A imprensa entrou com o pé direito no período pós-eleição. O governo começou tropeçando nos próprios pés e dando bordoadas. O primeiro tropeço ocorreu já no domingo (29/10), dia da votação, quando o poeta solitário Tarso Genro, também ministro de Relações Institucionais, anunciou o fim da ‘era Palocci’ e da ‘preocupação neurótica com a inflação’. Foi uma Carta aos Brasileiros com sinal trocado. A notícia apareceu com destaque em todos os meios, competindo com as primeiras declarações do presidente reeleito. No dia seguinte, quando surgiram os previsíves efeitos da bravata, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve de corrigir o estrago, reafirmando compromissos com as políticas fiscal e de metas de inflação. É raro um governante escolhido para um segundo mandato ser forçado, em menos de 24 horas, a um lance defensivo, para dar explicações à opinião pública.


Nessa mesma segunda-feira, novo tropeço, politicamente mais feio que o primeiro. A chegada do presidente Lula a Brasília foi saudada por boçais de carteirinha com hostilidade à imprensa e ameaças a jornalistas. O presidente não se manifestou. Como de costume, não soube de nada. O presidente do PT, Marco Aurélio Garcia, fez um comentário morno sobre a cafajestada: ‘Se houve qualquer manifestação de intolerância, tem nossa condenação’.


Primeiro, o condicional não se aplica. As manifestações foram públicas. Segundo, a imprensa não pede tolerância. Em seguida, o conselheiro presidencial e diretor do partido governista aconselhou aos meios de comunicação uma ‘auto-reflexão’ sobre seu procedimento na campanha.


Depois desses fatos e da conversa do ex-ministro Ciro Gomes sobre ‘democratização’ dos meios de comunicação, os jornalistas têm o direito, e até o dever, de se prevenir contra novos ataques às liberdades de informação e de opinião nos próximos quatro anos. As pressões de um delegado da Polícia Federal conta repórteres de Veja, na mesma semana, completaram o cenário agourento para a imprensa brasileira.


Se fosse um jogo, os meios de comunicação teriam vencido de goleada, tanto por suas jogadas quanto pelos gols contra marcados pelo governo. Enquanto autoridades e dirigentes da Petrobras insistiam em ter feito um bom acordo com o governo boliviano, os jornais foram publicando, dia após dia, informações acachapantes sobre as negociações do contrato do gás. O governo brasileiro havia desmentido o ultimato boliviano, mas correu para assinar o contrato na noite de sábado (28/10) para domingo, no prazo fixado pelo presidente Evo Morales.


Silêncio eloqüente


Brasília aceitou a maior parte das condições, incluída a vinculação de rentabilidade a novos investimentos. Admitiu, entre outros detalhes inconvenientes, sujeitar à Justiça boliviana qualquer conflito referente ao novo contrato. Na edição de terça-feira (31/10), o Estado de S.Paulo destacou esse detalhe. A Folha de S.Paulo chamou a atenção para a tática política de Morales – aproveitar o segundo turno para pressionar Lula.


Naquele dia, em La Paz, Evo Morales informou, numa entrevista coletiva a correspondentes e enviados estrangeiros, haver posto as Forças Armadas de prontidão para tomar instalações da Petrobras, se o contrato não fosse assinado no prazo. O governo brasileiro, segundo o Estadão, havia sido informado da ameaça uma semana antes, por um enviado oficial boliviano. As autoridades brasileiras continuaram comentando o caso como se nada grave houvesse ocorrido e como se qualquer reação mais digna equivalesse a um ato imperialista.


Além de informar sobre a ameaça, o Estadão contou, na quarta-feira (1/11), o objetivo seguinte do governo Evo Morales: entregar à Petrobras um gás empobrecido, retendo frações nobres, como butano, etano e propano, para aproveitamento em plantas petroquímicas. Se isso ocorrer, um projeto brasileiro será impossibilitado. A Petrobras negou conhecimento do assunto. Se o projeto petroquímico boliviano-venezuelano for levado adiante, comentou o especialista Carlos Miranda, ex-ministro de Hidrocarbonetos da Bolívia, será preciso rever o contrato de venda de gás ao Brasil. Até a semana passada, o governo brasileiro e a Petrobras mantinham silêncio sobre todos esses detalhes.


O público nada saberia sobre esse e outros aspectos do contrato com a Bolívia sem o trabalho da imprensa. Talvez o governo, e não a imprensa, devesse fazer uma auto-reflexão. Mas nada autoriza, por enquanto, esperar do presidente Lula e de seus auxiliares um novo comportamento.


Imprensa compreensiva


A qualidade gerencial do atual governo – e talvez do segundo mandato – foi escancarada, mais uma vez, com a semana de caos na aviação civil. O ministro da Defesa, Waldir Pires, confessou desconhecer as condições de trabalho dos controladores de tráfego aéreo. O presidente Lula, como de costume, nada sabia, mas pelo menos cobrou das autoridades da área uma solução para a crise. O ministro da Defesa aparentemente nem sabia da possibilidade de convocar para o trabalho o pessoal militar da reserva.


Os prejuízos morais e econômicos foram certamente enormes e mais uma vez o mundo real ficou entregue às traças. Mais uma vez o centro do poder mostrou desconhecer as condições mínimas de funcionamento do país e de operação da sua economia. As conseqüências apareceram e os meios de comunicação registraram.


A tal imprensa democratizada, ajudada e abençoada pelo poder, talvez seja mais compreensiva, mais patriótica e mais disposta a cuidar dos verdadeiros interesses do povo – aqueles apontados pelo Palácio do Planalto – se os caminhos apontados pelos amigos do presidente forem seguidos.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 28/10/2010 Miguel Duarte

    Eu queria fazer um comentário sobre um orgão de imprensa maravilhosamente bem feito, pluralista e que pra mim é de leitura diária obrigatória. Chama-se Observátorio da Imprensa.
    Mas de tanto lê-lo me senti na obrigação de criticá-lo. Calma, não tenho menor interesse de de acusá-los de serristas, dilmistas, flamenguistas e etc. Queria apenas que na página inicial aparecessem as datas dos artigos. Isto facilitaria bastante a leitura dos visitantes frequentes, que volta e meia vão parar em um texto que já leram. Um grande abraço a todos e espero que continuem o bom trabalho.

  2. Comentou em 07/11/2006 Célio Mendes

    Fico feliz em ler o artigo postado pelo jornalista Rolf Kuntz, agora o Dines tem um companheiro na defesa do jornalismo livre, isento e desinteressado que é praticado no nosso país, coitado estava muito solitario nesta defesa, a tatica ja foi martelar o mensalão, depois de onde veio o dinheiro do dossiê agora pelo que estou vendo a bola da vez sera a Bolivia e o ‘apagão Aéreo’, eu lembro q

  3. Comentou em 07/11/2006 PAULO MEIRELLES

    IMPRESSIONANTE! Como as pessoas são capazes de enfiar suas cabeças no buraco, para não ver a realidade. Não demora muito as coisas vão mudar, e não por força de ninguem nominalmente, mas pela força popular… ou a imprensa muda ou mudamos de imprensa!

  4. Comentou em 07/11/2006 Wanderley Farage Pedroza Pedroza

    Sr. Kuntz:
    Baseado no seu ‘brilhante’ comentário ao acordo da Petrobrás, baseado nas ‘brilhantes’ informações do Estadão e dos Frias, solicito que: Se fosse o FHC o senhor instalaria a Petrobrás(esta unidade) na Bolívia ou no Brasil? Justifique.
    Hoje, com decisão da Bolívia, se fosse o presidente LULA, que tipo de acordo o senhor faria? Justifique.
    Em tempo: Sou ‘menos instruído’, menos ‘esclarecido’, ‘preto’, ‘pobre’, ‘nordestino’, moro nos ‘grotões’, ‘atrasado’ e votei no LULA.

  5. Comentou em 07/11/2006 Afonso Celso castro de Oliveira

    Sr. Rolf
    É surpreendente sua determinação em prosseguir com as distorções já contumazes da imprensa. Seria a conhecida e poderosa má vontade com a reeleição do sr. Lula – e aí vai, óbviamente, seu(s) temor(es) numa democratização, sim!, dos meios de comunicação e da conseqüente nova postura a ser adotada – menos irresponsável, sem dúvida! Será que o sr. não observou como a grande mídia trata, e há anos isso se repete, das candidaturas de seu não interesse? Será que o sr., tão cioso nas defesas dela, esqueceu do efeito Globo em prol do sr. Collor? Esqueceu-se da parcimonia dela, imprensa, com os vários absurdos cometidos na gestão FH? Não entendo o porquê do medo com a abertura dessa ‘caixa-preta’ chamada imprensa! Será que vcs, jornalistas, se acham acima do bem e do mal e acima tb. das demais profissões? Quem lhes fiscaliza? Suas consciências e pseudo ética? É pouco, muito pouco! Há de concordar que as inverdades e falta de escrúpulos grassam em seu meio. Mais humildade, senhor!!

  6. Comentou em 07/11/2006 Tiago de Jesus

    Caro Rolf Kunz, acredito que o Sr., e este observatório em geral, está caindo no mesmo erro em que grandes veículos da mídia incorreram nos últimos anos: assumir uma postura de antagonismo irrestrito e indiferente da situação do governo federal, uma visão de ‘nós contra eles’. Veja que o Sr. diz que a imprensa entrou com o pé direito e ganhou uma luta com o governo. Mídia e governo têm as suas atribuições, suas afinidades e seus antagonismos. Pautar a relação em um confronto direto dá razão a quem diz que a eleição foi uma vitória contra a mídia, e é justamente o cerne da desconfiança original, deste questionamento público que se alastrou pela internet.

  7. Comentou em 07/11/2006 João Bahia

    O único comentário possível é que a peça produzida pelo Sr. Kuntz não merece comentário.

  8. Comentou em 07/11/2006 Nonato Barboza

    Essa questão da imprensa, a sua não aceitação das críticas e restrições feitas pelos internautas, me leva a considerar algumas palavras do escritor e editor norte-americano Gay Talese, no seu livro ‘O Reino e o Poder, uma história do New York Times’, onde ele denuncia os usos e abusos do poder de publicar da imprensa: ‘Em sua maioria, os jornalistas são incansáveis voyeurs que vêem os defeitos do mundo, as imperfeições das pessoas e dos lugares…os atraem os tumultos e invasões, países em ruínas e navios à pique…a tristeza é o seu jogo, o espetáculo, sua paixão, a normalidade, a sua nêmese’… . Fazem tudo isso e ‘ao mesmo tempo em que se empenham em intrigas particulares e muita cumplicidade corporativa’. Agora são minhas as palavras a seguir: os nossos jornalistas são normais e, com certeza, iguais aos do New York Times. Nada demais. Lamenta-se q agora eles passam a querer ser o centro e o foco das notícias. Devem se vergar aos fatos de q os eleitores do Lula, pensam diferente.

  9. Comentou em 07/11/2006 Nádia Chacra

    Sr. Rolf. os jornalistas terão que aprender a conviver conosco. Isso é democracia. Não existe mais informação em uma única mão. Os leitores ganharam voz. Aproveite, veja o lado bom desse feito inédito na história do mundo. Demorará um pouco até que se reestabeleça a confiança na mídia. E, se ela não se adaptar…bem, acho que ela irá desaparecer se persistir no atual formato. De uma coisa tenho certeza, nós é que não vamos desaparecer!

  10. Comentou em 07/11/2006 Lica Cintra

    Por que tanto pavor em discutir democratização dos meios de comunicação? É uma discussão legítima e necessária. Esse conceito de ‘imprensa democratizada, ajudada e abençoada pelo poder…’ é absurdo, a democratização é justamente para a sociedade não ficar sob o poder das empresas de mídia. Minha opinião: tem muito jornalista sem o mínimo jogo de cintura para lidar com as críticas de seus leitores, é bom ajustarem-se a esses tempos de interatividade.

  11. Comentou em 07/11/2006 Washington Ferreira

    O que comentar a respeito de um escriba que utiliza reportagens do ‘conceituado’ e ‘isento’ Estadão, e informações prestadas pelos ‘profissionalíssimos’ e ‘isentos’ repórteres da não menos ‘isenta’revista Veja para embasar suas opiniões? Alguns articulistas deste Observatório precisam descer, urgentemente, do mundo da Lua…

  12. Comentou em 07/11/2006 Marcos Amaral

    Voces estao colhendo o que plantaram!! Semearam parcialidade…agora colham…

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