Segunda-feira, 18 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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JORNAL DE DEBATES > GOVERNO E IBGE

Ameaça de censura

Por Deonisio da Silva em 08/02/2005 na edição 315

Com muita benevolência poderíamos supor que o governo, ao requisitar com antecedência os dados do IBGE, fez mais uma besteira, para utilizar a semântica com que a imprensa comentou a providência, inclusive o Estadão, habitualmente contido na linguagem escorreita que lhe é própria.

Na sexta-feira passada, em Notas & Informações, em texto muito bem escrito, intitulado ‘Vendaval de besteiras’, o editorialista aludiu às freqüentes gafes do presidente e ao seu hábito de se dirigir ao público como quem fala com o vizinho, em busca de um ‘acordo tácito’.

Ressaltou, porém, o redator, uma crítica à própria imprensa, que se delicia com as gafes, mas evita analisar tropeços mais sérios, como o outro hábito presidencial: apresentar dados que falseiam a realidade, como fez no Fórum Social Mundial.

Alguns dados são incontestáveis, calcados em números. O presidente tem declarado que ao tomar posse encontrou um déficit em transações correntes de US$ 32 bilhões. Não precisava ter aumentado, já eram alarmantes os reconhecidos e medidos US$ 7,6 bilhões. Disse que o risco-país estava em 2.400 pontos; estava em 1.446. Se exagerou nas críticas, praticou hipérboles ainda maiores quando, seguindo um novo costume, também já usual em seus pronunciamentos, alardeou ter criado 500 mil empregos a mais do que realmente foram criados nessa metade de gestão.

Temor ao diagnóstico

O presidente Lula anda escorregando muito. Precisa tomar cuidado. Ou alguém invocar a si tal diligência com o fim de proteger o distinto público de reedições, revistas e ampliadas, do conhecido Festival de Besteiras que Assola o País (Febeapá), criação de Sérgio Porto num tempo em que os jornalistas eram mais criativos na descrição e relato das mazelas nacionais. Quarta-feira passada, em Guarulhos, o presidente escorregou feio outra vez: ‘Nunca antes um governo fez qualquer coisa pelo social’. Precisaríamos averiguar os critérios presidenciais. Pois, se são rigorosos, nem a gestão de Sua Excelência fez coisa nenhuma! E todos fizeram alguma coisa, de todo modo insuficientes, pois a miséria campeia, aumenta, invade regiões antes protegidas. Enfim, o Brasil, sobretudo o Brasil urbano, vai ficando insalubre, inóspito, prejudicial aos brasileiros.

Para que as análises não fiquem ao sabor de lutas políticas e ideológicas, temos o IBGE, onde trabalham profissionais qualificados, empenhados em oferecer diagnósticos extremamente importantes a quem governa. E o que faz quem governa?

A resposta é desconcertante, vinda de onde veio. Mas talvez não surpreenda muito. No PT e no governo – no partido, o grupo parece hegemônico – sempre há quem ache boa providência quebrar espelhos, perseguir críticos, anular indivíduos a partir de providências aterrorizantes, praticadas no varejo e no atacado (no varejo, delas saberemos muitos anos depois, como sói acontecer). Mas também no partido e no governo há quem esteja ética e sinceramente empenhado em exercer o poder com sabedoria e independência, sem submissões a antigos desleixos, já consolidados no Brasil.

Por que, então, a tal exigência descabida feita ao IBGE? É lícito supor que se o IBGE guardasse os dados para si, a providência do governo não viria. Nas universidades, por exemplo, montanhas de teses fazem diagnósticos muito mais alarmantes. E delas o governo não se ocupa. São lidas pela banca examinadora – no máximo, cinco pessoas – e depois vão para conhecidos sepulcros universitários. Quando algumas delas vêm a lume, as edições em geral são pequenas, não chegam ao público, nem sequer ao público-leitor, conhecida expressão com que designamos a minoria que lê livros no Brasil, muito menor do que a outra minoria, a que lê jornais e revistas!

Com o barão

O que o governo procurou evitar foi a divulgação. E este foi seu erro essencial. Incorreu em conhecida prática de ditadores empenhados em ocultar dos cidadãos certas verdades incômodas. Praticou censura. Quem escreve deve dar às coisas os nomes que elas têm, pelas quais são sobejamente conhecidas.

E censurar é isso mesmo que o governo tentou fazer: proibir é um dos recursos. Sabemos que o arsenal de censuras inclui muitos outros, entre os quais aquela antiga formulação feita pelo ex-ministro Rubens Ricúpero, captada por antena parabólica em lance sem controle: ‘o que é bom a gente divulga’. E o que não é bom? O que fazer com o retrato que mostra feio o feio, mostra como ele é?

A semana que precedeu o Carnaval trouxe esse triste presente: um governo que se propõe diferente dos que o antecederam, inovador em tantos aspectos, entorta a boca com o peso do velho cachimbo da censura. E justamente em cima de quem? Do IBGE! Do retrato! A intenção oculta foi ainda pior: se não houvesse denúncia e resistência, qual seria o próximo passo?

Teremos sempre que concordar com o Barão de Itararé: ‘De onde menos se espera, dali mesmo é que não sai nada’.

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