Segunda-feira, 17 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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JORNAL DE DEBATES >

Amor e Revolução, memória e polêmica

Por Lilia Diniz em 19/05/2011 na edição 642





Ficção e realidade se misturam na novela Amor e Revolução, do SBT. Ambientada nos anos de chumbo, a trama tem início em 1964, quando eclode o golpe militar que levou o país a uma ditadura, e se estende até a guerrilha do Araguaia, em meados dos anos 1970. Repressão, censura, conspiração e terrorismo são o pano de fundo de uma história de amor entre um militar e uma guerrilheira, exibida em horário nobre. Ao final de cada capítulo da novela, que estreou há seis semanas e terá 180 capítulos, o telespectador é brindado com um depoimento real – e impactante –

sobre tortura e violência no Brasil daquele período. Personalidades famosas, como o ex-ministro José Dirceu, e desconhecidos compõe um painel de testemunhos sobre as práticas usadas pela ditadura militar para sufocar movimentos de resistência.

Um grupo de militares aposentados chegou a elaborar um abaixo-assinado contra a novela, mas a iniciativa não conseguiu impedir a exibição das cenas. Os primeiros capítulos do folhetim levaram ao ar imagens ficcionais fortes, mas seu autor tem declarado que passará a atenuar as cenas mais chocantes e investirá em romance e humor para evitar a rejeição do público. A ditadura continuará como pano de fundo, mas a telenovela ficará mais leve. O controlador do SBT, o apresentador Silvio Santos, chegou a comentar em um de seus programas que a telenovela poderia ter ‘mais amor e menos revolução’. O programa Observatório da Imprensa, exibido ao vivo na terça-feira (17/05) pela TV Brasil, discutiu a contribuição dessa telenovela para o debate sobre a ditadura no Brasil.


Alberto Dines recebeu no estúdio do Rio de Janeiro o autor do folhetim, o dramaturgo Tiago Santiago, e Victória Grabois, vice-presidente do grupo ‘Tortura Nunca Mais’. O novelista ajudou a escrever Vamp e Olho no Olho, na TV Globo, e foi roteirista do programa Linha Direta, entre outros trabalhos na mesma emissora. Na TV Record, foi consultor em teledramaturgia e assinou como autor titular a nova versão de A Escrava Isaura. Victória Grabois, professora e pesquisadora do Núcleo de Políticas Públicas em Direitos Humanos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), perdeu o pai, o irmão e o primeiro marido na guerrilha do Araguaia. Em São Paulo, a convidada foi Eliana Pace, consultora em Comunicação. Pace trabalhou em jornais, emissoras de rádio e agências de publicidade. Em parceria com Mauro Alencar, doutor em Teledramaturgia pela USP e consultor da Rede Globo, assina as biografias das atrizes Nívea Maria e Elizabeth Savala, em fase final de elaboração, e estuda a trajetória da TV Paulista, que deu origem ao braço paulista da Rede Globo.


Revisitar para não repetir


Em editorial, Dines sublinhou que história e memória são conceitos entrelaçados. ‘Uma nação que não cultiva sua memória dificilmente desenvolverá o gosto pela história. A fama de desmemoriada é a pior que uma sociedade pode ostentar. Equivale a ser considerada fútil, complacente, injusta’, disse o jornalista. Para Dines, os dois principais regimes autoritários século 20 sofreram processos de revisão diferentes. ‘A memória dos 15 anos do período Vargas foi sutilmente desbotada por uma série de circunstâncias, ao longo de mais de seis décadas. Sobrevive apenas no âmbito do passado, é história. A memória dos 21 anos do regime militar corre o mesmo risco de descoloração, mas ainda pode ser resgatada, ainda está quente: três décadas é ontem, a verdade está ao nosso alcance, não pode ser desperdiçada’, afirmou.


A reportagem que antecede o debate ao vivo mostrou a opinião do jornalista Flávio Tavares, que integrava o grupo de 15 presos políticos que foram trocados pelo embaixador norte-americano Charles Elbrick, sequestrado em 1969. Para o jornalista, a telenovela Amor e Revolução leva ao país ‘uma realidade que ele sempre quis esquecer’. Tavares, que foi torturado em três ocasiões, acredita que a novela representa um grande avanço porque oferece às ‘massas populares’ elementos para a compreensão do período de exceção, quando a brutalidade, a aspereza e a ilegalidade falavam em nome da democracia e da liberdade. Na avaliação do jornalista, a novela está contribuindo para a discussão em torno da reabertura dos arquivos da época da ditadura militar. ‘Eu, que vi tudo isso, chego a uma conclusão: que os arquivos devem ser abertos. Mas não vão mostrar nada. A ilegalidade, a clandestinidade da tortura mostra que nos arquivos não haverá nada absolutamente mais importante do que estes depoimentos, do que a ficção’, alertou o jornalista.


Para a ministra-chefe da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, Maria do Rosário, os depoimentos reais exibidos no folhetim são relevantes para o resgate da memória. ‘O que está sendo contado na novela sobre tortura, perseguições, infiltrações, todo aquele jogo de poder que existiu naquele período não é apenas uma história fictícia. Aquelas coisas aconteceram, marcaram a vida daquelas pessoas e deixaram muitas marcas na história do Brasil’, sublinhou. Na opinião da ministra, o Brasil não está amortecido diante da tortura e é preciso pensar em outros instrumentos capazes de resgatar a memória da repressão. Nilton Leão, que gravou um depoimento para a novela, contou que ficou receoso em contar a sua história, mas após ser informado mais detalhadamente sobre o projeto acabou concordando com a gravação.


Longo caminho para sair do papel


No debate no estúdio, Dines pediu para o dramaturgo Tiago Santiago relembrar as dificuldades enfrentadas para convencer a direção das emissoras onde trabalhou de produzir uma novela com essa temática. Desde 1990 o autor tenta o apoio de algum canal. A resposta de Silvio Santos aprovando o ‘Romeu e Julieta à brasileira’ demorou duas semanas e surpreendeu o dramaturgo. ‘A novela tem uma repercussão enorme de mídia, de internet, nos sites. É um ‘acontecimento’ que está dando o que falar’, disse o autor. Santiago comentou que a novela procura ser fiel ao período e, por isso, mostrou com realismo os dramas vividos com a instalação do regime militar em 1964. O autor garantiu que a partir de agora outros aspectos, mais lúdicos, entrarão em cena e a trama vai caminhar por várias ‘trilhas’ das décadas de 1960 e 1970, como romance, música e comportamento.


‘O que me preocupa um pouco é ver que mesmo quando a teledramaturgia se propõe a falar da história do Brasil ela encontra uma resistência em gente da crítica, que procura sempre demolir e não ver de uma forma construtiva, de como melhorar. Eu confesso: peguei pesado com as cenas de tortura e a novela vai agora muito mais fortemente para o lado da alegria. Eu costumo dizer que a novela vai desbundar’, disse.


Santiago contou que acreditava que a violência e a tortura não seriam rejeitadas pelo público porque são aspectos comuns tanto em telenovelas quanto em filmes de ação. ‘Mas nessa novela isso incomoda muito mais porque as pessoas sabem que aquilo aconteceu na realidade e aconteceu pior, como os depoimentos comprovam’, explicou. A reclamação que motivou a mudança de tom partiu de ‘colaboradoras’ próximas, como a própria mãe do autor, que, segundo ele, se queixou do exagero das seqüências de violência.


Para Eliana Pace, a temática da ditadura militar não deve se tornar constante nos folhetins brasileiros. ‘A telenovela também é entretenimento. E o que nós estamos vendo, na verdade, é que a ditadura sai do contexto histórico e passa a ser personagem, protagonista da novela. Confesso: não me dá prazer ver a novela. É o termo [prazer] que menos existe’, criticou. Pace contou que viveu aquela época e hoje, ao assistir aos capítulos, não consegue compreender a quem o produto é dirigido. A telenovela não contemplaria as pessoas que viveram o período – pois estas ‘deram a volta por cima’ e hoje ocupam cargos importantes no governo, como a presidente Dilma Rousseff – nem as novas gerações.


Tortura perpetuada


‘O que eu vejo são cenas extremamente pesadas, nenhum cotidiano mais leve’, reclamou Eliana Pace. A jornalista afirmou que a tortura era limitada e a maioria da população vivia uma rotina normal. A novela, na sua avaliação, passa a impressão de revanchismo. Ela contou que tem dúvidas se os telespectadores continuarão assistindo à novela até a mudança na trama anunciada por Tiago Santiago. ‘Eu não sei se as pessoas da minha geração querem reviver o terror, ver isso em uma obra de ficção, [com] cenas de tortura. O que está se vendo ali está fazendo mal para as pessoas. As pessoas preferem ir para a fantasia porque já viveram aquilo’, disse a jornalista. Para ela, por isso, talvez não seja este o momento certo para levar o tema à ficção.


Victória Grabois contou que luta há mais de três décadas pelo resgate da memória e pela busca dos desaparecidos políticos da ditadura, e por isso não se classifica como ‘vítima’ e sim ‘sobrevivente’ daquele período da história do Brasil. Para ela, a novela Amor e Revolução é uma forma ficcional de entretenimento, mas é importante para resgatar a atuação das pessoas que perderam a vida no combate ao regime de exceção. Victória destacou que levar o assunto para a televisão é importante porque os mais jovens não conhecem bem esse período da história, que só é tema de aula no final do terceiro ano do ensino médio. E disse que mesmo sentindo algum desconforto ao assistir às cenas de tortura, é a favor da exibição: ‘Para mim, é duro assistir àquilo, mas a população precisa saber o que fizeram nos porões da ditadura militar’.


Dines comentou que o povo alemão ‘reviveu’ o período do nazismo e hoje está ‘reconciliado consigo mesmo’, e perguntou como Victória Grabois vê a esta questão aplicada ao panorama brasileiro. A ex-militante destacou que é preciso discutir o assunto com profundidade no Brasil. ‘A juventude dourada do Rio de Janeiro estava na praia tomando sol, enquanto nós, que lutávamos por democracia, contra a ditadura militar, vivíamos momentos muito difíceis. É claro que somos seres humanos, também rimos, brincamos, namoramos, casamos. Nós somos pessoas normais’, disse Victória, que viveu na clandestinidade durante 16 anos. Para ela, a ditadura não foi perversa apenas com os que estavam na linha de frente do combate, mas prejudicou toda uma geração e causou enorme retrocesso em setores essenciais, como educação e cultura. ‘Nós temos que contar essa história. E tem gente gostando [da novela]’, garantiu.


Jornalismo e ficção


Os depoimentos reais, na visão de Eliana Pace, são ricos e contribuem para uma discussão em torno da memória do período porque fazem parte do campo do jornalismo. ‘Vamos fazer um trabalho mais jornalístico. Em vez de ver o sangue da novela, vamos acompanhar os relatos reais, que são muito fortes. Aqueles depoimentos são muito ricos’, disse a jornalista. Dines ponderou que jornalismo ‘puro’ não ‘toca’ o telespectador e Victória Grabois ressaltou que apenas a elite tem acesso a jornais no Brasil. ‘Alguns segmentos da classe média sabem o que aconteceu. Mas o povo, as classes populares, não sabe o que aconteceu. E o Brasil tem a cultura da novela. Todo brasileiro assiste à novela. A novela está atingindo um outro público’, disse Victória.


Para o autor Tiago Santiago, a ditadura aparece frequentemente no noticiário, mas o tema se populariza com a telenovela.

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