Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > CASO JOÃO HÉLIO

Anjos e monstros

Por Marcelo Salles em 20/02/2007 na edição 421

Ainda mais brutal que o assassinato do menino João Hélio Fernandes Vieites foi a cobertura dispensada pela mídia grande ao tema. Sensacionalista, superficial e tendenciosa – no sentido de pressionar por leis mais duras e pela redução da maioridade penal.


É preciso reconhecer que toda a cobertura esteve permeada por um nítido corte de classe. Se não, como explicar que a morte do menino Renan Ribeiro não tenha recebido tratamento semelhante? Renan, que tinha 3 anos e morava na Favela da Maré, levou um tiro de fuzil na barriga no dia 1º de outubro do ano passado. Para quem não sabe, o estrago causado por um tiro de fuzil no corpo humano é de 50 vezes o diâmetro do projétil.


No dia seguinte, os jornalões aceitaram a versão policial e jogaram a conta nessa entidade chamada ‘bala perdida’, embora houvesse pelo menos uma centena de testemunhas garantindo que o tiro viera de um policial [ver aqui matéria sobre o caso]. Nenhum jornalista visitou o quarto de Renan ou procurou ouvir seus parentes e amigos; ninguém descreveu seu dia-a-dia ou detalhou se gostava de brincar de bola ou de carrinho, como fizeram com João Hélio.


Outra comparação pode ser feita a partir do caso Pimenta Neves. O jornalista, ex-diretor de Redação do Estado de S.Paulo, foi preso por matar a namorada pelas costas. É réu confesso. E nem por isso ele foi agredido fisicamente pelos profissionais da mídia grande que atacaram, na terça-feira (13/2), os acusados de terem matado João Hélio. É a linha editorial que criminaliza a pobreza ganhando vida da maneira mais bizarra possível.


Razões, motivações, objetivos


Não se trata, aqui, de defender bandido. Quem comete um crime deve ser julgado e, se condenado, pagar por ele. Mas ao mesmo tempo é preciso ter clara a noção de que ficar preso três anos não é pouco, como dizem alguns, sobretudo nas condições desumanas observadas na maioria dos presídios e centros de reeducação para menores infratores do Brasil.


A propósito, incitar o debate sobre a redução da maioridade penal num caso como esse é, no mínimo, oportunismo. Ora, o crime foi supostamente cometido por cinco rapazes, sendo que apenas um deles é menor de idade. Quem garante que os outros quatro não conseguiriam executar o assalto?


Cabe ainda ressaltar a lógica binária usada pela mídia, que ficou bastante clara na construção de monstros (os acusados) em oposição aos anjos (João Hélio e demais vítimas de classes média e alta).


Os monstros sem coração, sem alma, são expostos à execração pública e mesmo à eliminação física – daí divulgarem com naturalidade, ou não divulgarem, que os acusados foram torturados na delegacia. Por outro lado, os anjos revivem nas missas, nas orações de seus familiares e conquistam corações e mentes de leitores, telespectadores e ouvintes. Ao mesmo tempo em que são anjos de aparência frágil, são também anjos vingadores, já que são usados para pedir mais repressão contra os tais monstros.


Raramente entra na pauta dessa mídia procurar entender como nasce um criminoso – seja o bandido pobre ou o corrupto rico –, suas razões, motivações, objetivos. Talvez porque esta seja uma investigação capaz de expor os pontos nevrálgicos da sociedade injusta em que vivemos, desde o ridículo salário mínimo até a composição das grandes fortunas. Ou seja, um lugar onde a mídia grande prefere deixar como está.

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Jornalista, editor do FazendoMedia e correspondente da revista Caros Amigos no Rio de Janeiro

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/03/2007 Wallace Randolph

    Eu creio que a cobertura do fato do menino assassinado com um tiro de fuzil não teve grande cobertura da mídia porque chamar a atenção para um fato envolvento pessoas pobres poderia não surtir efeito (a população está cansada de saber que na favela há crimes). Esse efeito foi tentado ao se chamar a atenão para um outro fato escabroso ocorrido com alguém de classe média.
    Não deveria ocorrer um debate sobre redução de maioridade penal. Isso está errado. O que deveria ocorrer era um debate sobre a adoção da pena de morte, que é mais do que urgente no sentido de controlar o crime organizado. E eu não falo disso só por causa desse assassinato. Há muito tempo a pena de morte deveria ter sido adotada. Mas o falso país que é o Brasil, com um povo letárgico que não força os políticos, quase todos ladrões, a mudarem essa velhas leis que beneficiam criminosos, não vai pensar nem adotar a pena de morte. Portanto, daqui a ums meses todo mundo vai esquecer, tudo voltará à normalidade (?) e o Brasil perderá mais uma chance de se tornar o que nunca foi: um país. Pobres de nós.

  2. Comentou em 25/02/2007 Paulo Sousa Sousa

    Lógica binária???!!! Então quer dizer que não podemos chamar de monstros estes ordinários que estraçalharam o menino João Hélio??!! Ah, sim, claro, era um menino de classe média – esse aglomerado de pessoas malvadas responsáveis pela bandidagem ‘neffepaiff’! Decerto, pelo que deduzo do discurso esquerdóide do autor, deveríamos igualar a todos, vítimas e bandidos, o que é bem típico dos idiotas politicamente corretos. Alguém precisa dizer pra esses idiotas que pobre não é sinônimo de bandido, e que, por isso, basta deste discurso condescendente com bandido, seja ele pobre ou rico. Pimenta deveria estar mofando na cadeia, a propósito. Enquanto tivermos esse tipo de comportamento conivente com os bandidos, nunca teremos um Estado de Direito, citado pelo Dines.

  3. Comentou em 23/02/2007 Carlos Sete

    Sabe-se que a mídia é o produto da realidade social brasileira. Sem demais responsabilidades sobre o cotidiano, ela ainda apresenta os fatos quando estes são cinematográficos e, portanto, comoventes. Ou seja, morrer arrastado por um carro é pior do que milhares morrerem de fome todos os dias. E nada disto é noticiado com relevância. Além do mais, a mídia retira da sociedade, ou melhor, de cada cidadão, a responsabilidade de suas ações para a melhora do seu meio social e familiar. Apontar culpados é fácil, sempre sobra para o governo e às autoridades policiais. Mas eu, você e toda a sociedade devemos responder por tudo aquilo que acontece ao nosso redor. Tomar consciência e participar ativamente é o único remédio para a cura dessa mau que assola nosso país. A mídia deveria incutir nas pessoas que a sociedade é o reflexo de suas obras, desde a base familiar, passando pela educação e terminando com a responsabilidade profissional e política.

  4. Comentou em 23/02/2007 Carlos Sete

    Sabe-se que a mídia é o produto da realidade social brasileira. Sem demais responsabilidades sobre o cotidiano, ela ainda apresenta os fatos quando estes são cinematográficos e, portanto, comoventes. Ou seja, morrer arrastado por um carro é pior do que milhares morrerem de fome todos os dias. E nada disto é noticiado com relevância. Além do mais, a mídia retira da sociedade, ou melhor, de cada cidadão, a responsabilidade de suas ações para a melhora do seu meio social e familiar. Apontar culpados é fácil, sempre sobra para o governo e às autoridades policiais. Mas eu, você e toda a sociedade devemos responder por tudo aquilo que acontece ao nosso redor. Tomar consciência e participar ativamente é o único remédio para a cura dessa mau que assola nosso país. A mídia deveria incutir nas pessoas que a sociedade é o reflexo de suas obras, desde a base familiar, passando pela educação e terminando com a responsabilidade profissional e política.

  5. Comentou em 22/02/2007 jonas carvalho

    Eu adiciono às palavras do texto ( brilhante ) a péssima influencia do RELATIVISMO. Já há muito tempo nós, seres humanos, vimos aprendendo a olhar tudo dentro das possibilidades, das circunstancias, das razões de cada um. A verdadeira igualdade ficou lá longe. É apenas retórica. Relativizam-se os fatos e pronto. Adeus igualdade. Todos somo iguais, mas uns são mais iguais que os outros.
    Abraços

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