Sábado, 24 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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JORNAL DE DEBATES >

Aos pizzaiolos de Brasília

Por Deonisio da Silva em 21/07/2009 na edição 547

Outras comidas de origem italiana já foram aportuguesadas:lasagna virou lasanha; spaghetti, espaguete; e tagliarini, talharim. Mas pizza não virou ‘pítiça’.


Também pizzaiolo ainda não foi abrasileirado para ‘pizaiolo’, como é pronunciado, diferentemente de ‘pítiça’, que mantém o som de tê, característico das palavras italianas com dois zês seguidos, e como o presidente Lula acabou pronunciando ao dizer, num momento de vacilação, que ‘os senadores são bons pizaiolos.


O ministro da Justiça Tarso Genro tentou dar outra versão para a frase infeliz, recuperando o significado original da expressão, nascida entre torcedores do Palmeiras com o significado de paz e consenso depois de brigas havidas nos campos de futebol, depois transformadas em confraternização nas pizzarias de São Paulo. Mas já era tarde. O jornalista Milton Peruzzi, já falecido, foi o primeiro a registrá-la como senha de armistício, mas a expressão mudou de sentido.


Como escrevi no Jornal do Brasil (8/07/05), em matéria transcrita neste Observatório no dia seguinte, a expressão adquiriu em política um sentido pejorativo, que não tinha antes, e os acordos passaram a ser celebrados em outros recintos, onde a pizza, ausente, permaneceu como símbolo.


Cheiro de orégano


No futebol como na política, os dirigentes podem ser corruptos; os torcedores e os eleitores, não. Para corromper é preciso ter poder.


O povo, que sabe das coisas a seu modo, sente cheiro de orégano no ar a cada crise política.


De todo modo, o berço dapizza é a Itália, onde um dos primeiros pizzaiolos homenageou a rainha Margherita com apizza de mesmo nome, com as cores da bandeira italiana.


Pode acabar em pizza, mas começou com bizzo, ração devorada com pressa e com muita fome, entre uma batalha e outra, travadas pelos povos que, vindos da Lange Börde, região da Escandinávia, invadiram a Itália e se estabeleceram às margens do rio Pó, no século VI.


Lombardos insaciáveis


Os invasores tinham longas barbas e vieram a ser conhecidos como longobarbati. Sua arma principal era a helmbarte, um porrete comprido em cuja ponta estava uma peça de ferro pontiaguda, com lâmina em forma de meia-lua. Helmbarte era pronunciada alabarda. A região passou a ser conhecida como Longobardia, depois Lombardia, e os longobarbati tornaram-se longobardos e a seguir lombardos. A língua que falavam tornou-se um dos riquíssimos dialetos italianos, o lombardo.


Não apenas eles evoluíram, mas também as palavras e o que comiam, até que em Nápoles foi para o forno o pão antes assado no borralho, recebendo muçarela, azeite e tomate. Nascia a pizza, tal como a conhecemos nas mais diversas modalidades, pois foram acrescentados muitos ingredientes: queijo, presunto, ovo, rúcula, azeitona, palmito, linguiça, banana, ovo etc. Surgiu também o profissional especializado em fazer pizza, o pizzaoiolo.


Ninguém faz guerra sem comer! E a pizza serviu de alimento em muitos campos de batalha.  Soldados americanos comeram pizza também na Segunda Guerra Mundial, pois desde os começos do século XIX havia pizzarias em Nova Iorque e o alimento estava no cardápio das forças armadas daquele país.


O povo brasileiro adora as pizzas servidas em pizzarias, mas considera de difícil digestão as pizzas que os políticos volta e meia lhe enfiam goela abaixo.

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