Quarta-feira, 17 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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JORNAL DE DEBATES >

Após o massacre

Por Raymundo Lima em 10/05/2011 na edição 641

Em artigo, alertei sobre a possibilidade de massacres amoks em espaço público no território brasileiro, como ocorreu na escola de Realengo. Insisto, não é exagero que os gestores do nosso sistema de ensino elaborem manuais e até treinos de sobrevivência para professores, alunos e funcionários, como já acontece em alguns países. E apoio psicológico para professores, alunos e funcionários, principalmente para os licenciados e readaptados por fobia escolar ou pânico, que muitas vezes é confundido com depressão ou ‘falta de comprometimento’ ou ‘interesse’.

No Brasil, é sempre assim: passada a comoção nacional de um acontecimento trágico (massacre, enchente, acidente), vem o esquecimento e a falta de medidas preventivas. Os professores, funcionários, alunos e os sobreviventes das catástrofes da natureza, quando são dotados de resiliência, conseguem retornar à sua reconstrução existencial e tocar a vida no dia a dia. Outros passam a conviver com angústia, medo, paranoia, incertezas, principalmente no ambiente gerador do trauma.

Em conversas com duas professoras amigas que vivem no Rio de Janeiro, constatei outra reação: a minimização do massacre na escola de Realengo. Para uma delas foi apenas um ‘caso isolado’, ‘coisa de esquizofrênico’. A outra, funcionária da Secretaria de Educação, diz estar acostumada com a violência na cidade e nas escolas. Ou seja, a falta de consciência preventiva para este novo tipo de crime amok me intrigou. Por que ainda não ‘caiu a ficha’ delas, para debater e pesquisar sobre este assunto? Se pessoas esclarecidas, por que insistem em ignorar? Seriam professoras que perderam a ternura e a crença na escola transformadora da realidade? Por que elas denegam o ocorrido em Realengo? Por que não discutem?

Falta de humildade

Embora criticada pelo estilo sensacionalista e análises rasas, ainda bem que a imprensa noticia, convoca especialistas para analisar, promove debates, faz o seu papel. Uma reportagem diz que um diretor de escola contratou guardas particulares desarmados, outras implantam ou modernizam os sistemas de segurança existentes. Cresce o número de escolas e universidades instalando vigilância eletrônica. Afinal, é preciso coibir todas as formas de violência, evitar que ladrões roubem aparelhos caros dos estabelecimentos, prevenir estupros e sequestros-relâmpagos. São medidas paliativas? E daí? Os teóricos resmungões têm sugestão melhor?

Cabe aos mais conscientes denunciar, mobilizar discussões e cobrar dos gestores atitudes preventivas. Para além de achar que todos os males das escolas vêm do bullying, entendo que a escola deve ter um programa contínuo de prevenção deste tipo de violência, sim. Os professores precisam rever os pontos cegos da sua escola e recrutar coragem para abrir a caixa-preta de nossas salas de aula sobre a relação entre alunos-alunos e professores-alunos.

Ainda sobre o comportamento da imprensa frente ao massacre amok, distingo três tendências: a) emotiva, apelativa, tagarelista. Faz confusão nas pseudoanálises entre massacre amok e serial killer, depredação, bullying, psicopatia, psicose etc. Apresenta duas soluções: desarmamento geral ou transformar a escola num bunker, seguindo a tendência dos condomínios fechados, carros de vidro fumê etc.; b) tendência sociologizante ‘bombril’. Apresenta como causa ‘única’ da violência nas escolas o sistema político-econômico e seus sintomas: neoliberalismo e vida pós-moderna. Tende a não criminalizar os atos violentos, compreendidos como uma reação legítima à violência do sistema; c) tendência ‘psi’. A causa da violência nas escolas seria ‘reação’ à humilhação acumulada (bullying) em estruturas patológicas em um meio estressor. Nas três tendências, está faltando humildade epistêmica e bom senso.

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Psicólogo, doutor em Educação e professor da UEM-PR

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