Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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JORNAL DE DEBATES >

Argumentos ao ‘por que não?’

Por Gláucia Rita Civa em 11/01/2005 na edição 311

O jornalista é, antes de tudo, um profissional atrelado à sociedade: é nela, dela e para ela que trabalha, extraindo-lhe e repassando-lhe informações. A cada matéria, um recorte, um retrato da realidade acompanhada em determinado momento. Trata-se, portanto, de um campo de trabalho delicado, muito passível de interferências e erros, no qual há que imperar sempre a ética e o bom senso. Entretanto, ética e bom senso são determinações bastante pessoais, o que impede a definição precisa de ‘certo’ ou ‘errado’, de ‘honesto’ ou ‘desonesto’. Assim sendo, é justa e saudável a implantação de um código que estabeleça um horizonte-base para estes preceitos da profissão, que os possa tratar de maneira geral e garantir-lhes fidelidade – fidelidade, não restrição. Se com este intuito, confio na criação do Conselho Federal de Jornalismo.

O atual texto do CFJ ainda deixa margem a muitas dúvidas, como seu atrelamento ao governo. De maneira nenhuma pode-se admitir que, depois de anos de luta pela liberdade de imprensa, de informação, venha-se novamente a submetê-las ao crivo estatal. Contudo, um conselho criado e regido por jornalistas – bons jornalistas – poderia, sim, ser uma grande mão na roda para evitar abusos e máculas no exercício da profissão. Ético, transparente e regulamentador, não limitante, seria o CFJ uma ferramenta a mais na busca pelo jornalismo limpo, uma garantia a mais de segurança aos profissionais corretos desta classe.

Um conjunto de regras, leis vigentes a favor da ética jornalística, logo, do respeito à informação coerente da sociedade e da prática honesta da profissão. Se assim definido o CFJ, não vejo motivos contrários a sua implantação. Se também coerente e honesto, o órgão seria um aliado da classe, representando-a e garantindo-lhe a credibilidade das ações juridicamente fundamentadas, como faz com os advogados a OAB, com os profissionais da engenharia e da arquitetura o Crea, com os publicitários o Conar, por exemplo. O que não pode – e é com este temor que muitos profissionais se levantam contra o CFJ – é a imposição de um código que barre a liberdade de imprensa, que nada mais é do que a liberdade de informação completa, sem escolha de lado, da sociedade.

Soma e discussão

Há ainda a discussão em torno da divisão, no que tange à criação de conselhos regulamentadores, entre jornalista e assessor de imprensa. Neste ponto, sou pela unificação – um conselho só para ambos. Afinal, o órgão prestar-se-ia à defesa dos interesses dos profissionais e da sociedade em geral em relação ao jornalismo, campo ao qual pertencem as duas categorias acima citadas. Os procedimentos podem ser diferentes, quando do exercício da assessoria ou do jornalismo de redação; entretanto, a ética a ser seguida não diverge: a ética do jornalista, ocupe ele o cargo que ocupar, é a ética do cidadão.

Além do mais, o jornalismo é um campo que possibilita grande mobilidade profissional, o que dificultaria a regularização de registros em caso de conselhos separados, imagine-se: atuante na redação, no rádio, na TV, daqui a pouco o jornalista vai para a assessoria de imprensa de alguma companhia e vê-se obrigado a registrar-se de novo, em novo conselho… O objetivo do CFJ, além de tudo que aqui já foi dito, deverá ser facilitar, e não embaralhar, a vida do profissional da comunicação.

Pontos favoráveis, pontos contrários, nesta soma segue a discussão acerca da criação do Conselho Federal de Jornalismo, que parece distante de chegar a um resultado. Isto, por exemplo, é só mais uma explanação sobre o tema, sem pretensão conclusiva ou persuasiva. O intuito, aqui, é gerar reflexão, para que se possa tirar um dia este ponto de discussão do horizonte e lançá-lo, finalmente, ao exercício ou ao ostracismo. Para ajudar, então, um lembrete: o jornalista é humano, pressuposto para que erre, e assim sendo, soa como justa e democrática a permissão de um olhar crítico e regulamentador, honesto e jamais onipotente, sobre seu trabalho. Abster-se de julgamento é autojulgar-se Deus, o que, nem de longe, cabe a um profissional das ciências humanas.

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Jornalista, Porto Alegre

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