Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

JORNAL DE DEBATES > TRAGÉDIA EM CONGONHAS

As bruxas e as janelas indiscretas

Por Alberto Dines em 22/07/2007 na edição 442

As bruxas estão soltas: matam 200 inocentes, enlutam quase duas centenas de famílias, acabrunham a gente honrada, assustam aqueles que confiam no Estado como defensor do cidadão e avacalham uma República cujos dirigentes se avexam, incapazes de oferecer consolo ao povo sofrido.


Astutas e perversas, essas bruxas aviltam pelo mundo afora a imagem do país do presente, comprometem os sonhos do país do futuro e, insaciáveis, flagram num gabinete contíguo ao do presidente um dos seus cardeais exultando com a notícia de que o governo não era o culpado pela maior catástrofe aérea da sua história.


Quando os calendários eram disciplinados e obedeciam às superstições, as bruxas baixavam em agosto; no ano passado aterrissaram no final de setembro e, neste ano, nos surpreendem em plenas férias de julho. Interrompem a euforia consumista do dólar baixo, tiram do pódio noticioso os atletas com suas medalhas de ouro, desprezam a baixa dos juros decretada pelo Copom e, quando a mídia eletrônica estava sendo desmascarada por prejudicar o interesse público nas cruzadas contra a classificação indicativa da programação de TV e contra as restrições à propaganda de bebidas alcoólicas, as manhosas bruxas colocam a imprensa como a única instituição vigilante num Estado omisso, arruinado pela corrupção e pela inépcia.


Falha no sistema


Ao contrário do filme de Alfred Hitchcock (no qual um fotógrafo preso à poltrona com o pé engessado desvenda o misterioso crime), assistimos diante de uma janela panorâmica à reprise da capciosa chanchada conspiratória armada no final do ano passado.


Na nota em que pede desculpas pelo debochado top-top (a expressão para designar o gesto foi criada pelo falecido cartunista Henfil, no Pasquim), o assessor especial da Presidência da República e emérito professor universitário Marco Aurélio Garcia investe novamente contra o seu alvo preferencial, a imprensa, com duas acusações no mínimo levianas.


Na tragédia com o Boeing da Gol, em 29 de setembro passado, a imprensa não culpou o governo. Ao contrário: quem prejulgou irresponsavelmente e antecipou-se às investigações foi o ministro da Defesa, Waldir Pires, interessado apenas em tirar o governo do foco das atenções já que o segundo turno das presidenciais ocorreria nas semanas seguintes. Grande parte da mídia, sobretudo a eletrônica, deu ao ministro Pires ampla cobertura e passou ao largo das primeiras manifestações dos controladores de vôo, discretas naquele momento.


Nesta catástrofe com o Airbus da TAM, diante do incompreensível mutismo de todas as autoridades correram – como é natural – diferentes suspeitas: algumas sobre o estado da pista liberada prematuramente, outras recaíram sobre o piloto que teria aterrado com excesso de velocidade e, as últimas, aparentemente confirmadas, sobre a falha no sistema de reversão de uma das turbinas do jato. Recebidas com indignação (segundo Garcia) ou com júbilo (como transparece pelas imagens do cinegrafista que o filmou de longe), essas reações só servem para confirmar o grau de desnorteamento dos altos escalões do governo que se informam através dos telejornais ao invés de serem eles os informadores da opinião pública.


Governo agachado


O poderoso Estado brasileiro não pode continuar apresentando-se como vítima da mídia. Esta manobra é tacanha e ridícula. Trata-se do mesmo despiste capcioso que no ano passado produziu perigosa crise institucional e que, neste exato momento, poucos dias depois de um banho de sangue que comoveu e revoltou grande parte da sociedade, pode gerar desdobramentos imprevisíveis.


A crise aérea é resultado direto e inequívoco da submissão do governo aos interesses do mercado. A entrega dos despojos da Varig aos seus competidores, a tibieza da Infraero diante das pressões da Gol e da TAM para entregar a pista de Congonhas antes de completados todos os reparos, e a inapetência da ANAC para exercer com rigor a sua função disciplinadora no supersaturado aeroporto paulista escancaram o trágico equívoco de um governo de esquerda agachado diante de insaciáveis interesses empresariais.


Esta, a malícia final das bruxas.


Leia também


Sem governo, mas com notícias – A.D.


Laudo do IPT muda visão da tragédia – Luiz Weis

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/07/2007 Adriano Soares de Assis

    Sr. Dines, o Sr é do Observatório da Imprensa ou é lider do PSDB/DEM? Suas opiniões se transformaram na pior escrita que se tem notícias nos últimos tempos.

  2. Comentou em 23/07/2007 Luiz Carlos Bernardo

    Dines, excelente matéria. Também entendo que o governo federal está de joelhos. É, no mínimo, leviano culpar a mídia pela sua incompetência. Tal insistência é rísivel. Governantes têm que saber dos fatos antes da imprensa. E não depois, como se infere do professor, top-top, Marco Aurélio Garcia, que vibrou, freneticamente, após ouvir e ver o William Bonner no JN comentar sobre o reversor do Airbus da TAM. Governo não precisa agradar ‘gregos e troianos’, mas tem que governar. Tem que tomar e propor medidas capazes de tirar o país da crise, qualquer que seja ela. Cadê aquele PT enérgico e eloquente quando estava na oposição de Sarney, Collor, Itamar e FHC. Aquele PT que propunha mudanças politicas e sociais. De repente, a sua elite e os simpatizantes passaram a pensar ‘pequeno’. Continuam criticando, agora a mídia e o PSDB. No entanto, não aceitam críticas. E não aceitar críticas é ditadura civil, e não democracia que pregavam tanto, com inteira razão, diga-se.

  3. Comentou em 23/07/2007 Ivan Moraes

    ‘Olhem o que diz o correspondente do Financial Times’: Nao, muito obrigado. O dia que o FT dizer que uma ‘tragedia esperando acontecer’ aconteceu num governo de direita ate que eu vou dar uma olhada. O BRASIL eh uma tragedia esperando acontecer. Nao tem a ver com Lula, como o FT esta ajudando a media brasileira a espalhar no mundo. E o FT esta loooonge de ser isento. Apesar da entrada de dolares bater records mundiais, ninguem esta vendo esse dinheiro no Brasil. A proposito, o Brasil exporta tudo na agricultura, porque eh que a agricultura brasileira deve 131 bilioes? Quanto mais exporta mais devem is agricultores brasileiros… Foi Lula tambem? Nao, eh porque a agiotagem bancaria eh legalizada nas colonias. O FT bem podia calar a boca mais frequentemente. Ele esta cuidando de assuntos financeiros dos quais ninguem no Brasil tem usufruido por seculos, ta bom. Mas na hora que coloca o presidente -que por sinal, de fato, so deu burrada ultimamente- na reta das insinuacoes de culpa, quebrando um protocolo a favor do ‘mercado’, eu tambem posso dizer com a cara mais lambida que umbigo de vedete que os patrocinadores do FT sao de fato os responsaveis pela miseria brasileira e ver o que vai acontecer.

  4. Comentou em 23/07/2007 Ivan Moraes

    1–‘A crise aérea é resultado direto e inequívoco da submissão do governo aos interesses do mercado’: e nao acabou ainda porque a especialidade brasileira eh a exportacao de dinheiro: comicamente, um jornal ontem disse que o governo esta ‘perdendo’ bilioes porque suas propriedades ‘dominiais’ nao foram privatizadas ainda!!!! Sempre os mesmos erros coloniais! O Brasil nunca muda! 2–‘(a expressão para designar o gesto foi criada pelo falecido cartunista Henfil, no Pasquim)’: de interesse historico: quem ‘inventou’ o top top nao foram os Mutantes? E quem o usa hoje nao eh so velho?

  5. Comentou em 22/07/2007 C arlos Ready Fochesatto

    Ainda bem que existe a internet, ainda bem que jornais vendem menos, e que a audiência de TV esteja mais pulverizada, ainda bem que existe caixas-pretas, ainda bem que existe jornalistas honestos e serenos. Mas infelizmente a memória dos brasileiros é muito curta e essa imprensa ajuda a ser mais curta ainda. A imprensa ajudou na derrubada de um governo democrático em 1964, e esse novo governo no seu final em 1985, deixou o país com diferenças sociais oceânicas, sem contar é claro, as dívidas internas e externas e tudo o mais. Hoje, quando os números sociais e econômicos estão melhorando, a grande imprensa sorrateiramente quer mostrar que o país está sem governo. Em um trecho da carta testamento de Getúlio Vargas ele diz que ‘não querem que o povo seja livre’. É, mais uma vez ele tinha razão, a grande imprensa não quer isso pois, melhorando o acesso a educação e cultura, esses monopólios de informações perderiam sua importância. A pobreza interessa a quem? Ora, a quem se beneficia com ela. No primeiro momento governo foi culpado pela tragédia do avião da Gol no ano passado, agora sabe-se que foram os pilotos americanos no desligamento de rádios. Nessa tragédia da Tam, muito antes dos laudos técnicos, o governo já era responsável, e quando forem divulgados, a pouca memória dos brasileiros dará pouca importância, como também a imprensa dará.

  6. Comentou em 22/07/2007 C arlos Ready Fochesatto

    Ainda bem que existe a internet, ainda bem que jornais vendem menos, e que a audiência de TV esteja mais pulverizada, ainda bem que existe caixas-pretas, ainda bem que existe jornalistas honestos e serenos. Mas infelizmente a memória dos brasileiros é muito curta e essa imprensa ajuda a ser mais curta ainda. A imprensa ajudou na derrubada de um governo democrático em 1964, e esse novo governo no seu final em 1985, deixou o país com diferenças sociais oceânicas, sem contar é claro, as dívidas internas e externas e tudo o mais. Hoje, quando os números sociais e econômicos estão melhorando, a grande imprensa sorrateiramente quer mostrar que o país está sem governo. Em um trecho da carta testamento de Getúlio Vargas ele diz que ‘não querem que o povo seja livre’. É, mais uma vez ele tinha razão, a grande imprensa não quer isso pois, melhorando o acesso a educação e cultura, esses monopólios de informações perderiam sua importância. A pobreza interessa a quem? Ora, a quem se beneficia com ela. No primeiro momento governo foi culpado pela tragédia do avião da Gol no ano passado, agora sabe-se que foram os pilotos americanos no desligamento de rádios. Nessa tragédia da Tam, muito antes dos laudos técnicos, o governo já era responsável, e quando forem divulgados, a pouca memória dos brasileiros dará pouca importância, como também a imprensa dará.

  7. Comentou em 22/07/2007 José de Souza Castro

    Dá até pena de certos comentaristas que tentam, incansáveis, mudar o modo como Dines vê a imprensa e a política, num esforço de arregimentação. Não tem jeito. Dines não teme a polêmica e respeita a diversidade. Foi assim que na década de 60 e em boa parte da década seguinte ele fez do Jornal do Brasil o mais vibrante diário brasileiro, em plena ditadura. E os que acham que o velho jornalista está gagá faz como Eliseu Resende em 1982, quando pensou o mesmo de Tancredo Neves e sofreu uma inesquecível derrota na disputa pelo governo de Minas. Leio aqui críticas até à janela indiscreta, como se fotografar um ministro do lado de fora de um palácio – um espaço público, embora seus ocupantes teimem, algumas vezes, em fazer negócios privados -fosse uma invasão de privacidade. Se o inconformismo com Dines vem de petistas, eles devem se lembrar que seu candidato é hoje o presidente da República. Como tal, governo. Como tal, está no foco crítico da imprensa. Não tem jeito: ou a imprensa faz isso, ou deixa de ser imprensa. Aliás, como lamentavelmente se vê com a imprensa regional, em muitos estados e municípios.

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem