Sexta-feira, 19 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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JORNAL DE DEBATES >

As cinco perguntas-chaves

Por Larissa Grau em 18/05/2007 na edição 433

A imprensa noticia. No ato de informar, raramente conta histórias. E a notícia é, na grande maioria das vezes, sucinta. A completa e absoluta objetividade da informação, já se sabe que é impossível alcançar. Mas, percebe-se, é um formato ainda estimulado a ser buscado. Para o jornalista que reporta os fatos, é falta grave esquecer alguma das perguntas básicas que dão a cabeça da notícia. ‘O quê, como, onde, quem e quando aconteceu’ são questões que devem ser respondidas direta, rápida e objetivamente, no processo de transformar um acontecimento em fato noticioso.

Sendo assim, ao folhear as páginas dos principais jornais do país, sabemos que no dia 11 de maio, na cidade do Rio de Janeiro, o aposentado Wilson Félix Ferreira, de 65 anos, morreu vítima de uma bala perdida durante os confrontos entre traficantes e policiais no morro do Alemão, zona norte do Rio. Desde o início dos enfrentamentos, 12 pessoas já foram mortas e 40 ficaram feridas.

Somos também informados que, no dia 6 do mesmo mês, sete jovens, entre 18 e 26 anos, foram assassinados no bairro Jaraguá, na Baixada Santista. No distante Afeganistão, uma operação militar norte-americana, na noite do dia 8, resultou na morte de 21 civis, entre eles, seis crianças. Na mesma noite, no bairro Cidade de Deus, zona oeste do Rio de Janeiro, um garoto de nove anos foi atingido supostamente por uma bala perdida. Ainda no Rio de Janeiro no dia anterior, na favela Cruzeiro, zona norte da cidade, seis pessoas morreram, vítimas dos confrontos entre criminosos e policiais.

A morte era pública

No dia 6, oito soldados norte-americanos foram mortos no Iraque. Seis deles na explosão de uma bomba em uma estrada próxima a Bagdá, que também causou a morte de um jornalista europeu. Na África, um avião da Kenya Airways caiu em Camarões no dia 5, matando as 114 pessoas que estavam a bordo. Na Colômbia, e no mesmo dia, uma fossa com 105 cadáveres, vítimas dos grupos paramilitares, foi encontrada perto da fronteira com o Equador. E, também no dia 5, um tornado atingiu o sudoeste do Estado do Kansas, nos Estados Unidos, matando, ao menos, nove pessoas.

A morte é um elemento essencial das notícias na mídia. É um objeto de leitura que confere valor ao fato. As respostas àquelas cinco perguntas básicas (os five W da imprensa norte-americana) mudam. Nomes, locais, horas e dias alteram o tempo todo, mas a morte é sempre uma constante. Não se fixa no ‘quem’, mas no ‘o quê’, e se repete rotineira e cotidianamente.

Para Anthony Giddens, sociólogo britânico, uma das características mais gerais da modernidade é a ascensão da organização. Organizaram-se todas as instituições – concretas e abstratas. Organizou-se o tempo e os calendários; o espaço, e com ele, os mapas. Os sistemas se especializaram. A educação foi para a responsabilidade das instituições de ensino; a moeda adquiriu uma cotação universal que é estipulada diariamente pelas bolsas de valores de todo o mundo; as doenças saíram do ambiente privado e doméstico e foram para as instituições de saúde, pressupostas de darem conta de todas as mazelas do frágil físico humano. E a morte, na modernidade, foi afastada de todos nós. Pois houve um tempo distante em que ela aterrorizava, causava medo. Impressionava. Ceifava a vida de todos e de qualquer um que encontrasse em seu caminho com o seu espectro e foice malditos. Em toda casa havia pelo menos um cômodo onde já havia morrido alguém. A morte era pública. Fazia parte do cotidiano. Trazia a dor que era compartilhada.

Um efeito colateral terrível

Este tempo foi também aquele das grandes narrativas que vinham de longe. As histórias tinham que percorrer muitas léguas e levar muito tempo para chegar a todos os lugares. E quando chegavam, eram contadas pelas bocas dos narradores anônimos que falavam das experiências em terras distantes, de outros povos, de outros modos de vida, de coisas que tinham visto – e que só mesmo vendo, para poder acreditar. Contar histórias era, então, um ato coletivo, que dizia respeito a todos.

Além de filósofo e crítico de arte, Walter Benjamin foi um grande contador de histórias, embora nem todos saibam. Pois, segundo ele, com a consolidação do modo de vida burguês – do qual a imprensa, no alto capitalismo, é um dos instrumentos mais importantes – uma outra forma de comunicação ocupou o lugar das antigas narrativas. E essa nova forma de comunicação é a informação. Benjamin, na defesa que faz da narrativa, cita Villemessant, fundador do jornal Le Figaro, que dizia que um incêndio em um sótão qualquer no Quartier Latin era mais importante, e atraía mais leitores, do que uma grande revolução em Madri. Com a imprensa moderna, a narrativa vinda de lugares distantes perdeu, em parte, a sua essência e relevância. O saber que vinha de longe, e que dispunha de uma autoridade moral, já não significava tanto na aspiração do imediatismo da notícia. Se, a cada manhã, recebemos as notícias de todo o mundo, já nada nos parece surpreendente. Pois todos os casos narrados já dispõem de todas as informações que se institucionalizaram como necessárias para a apreensão de um fato. Todo o extraordinário é contado com uma impecável objetividade e precisão. A notícia tem que ser reposta; é da seara do ‘agora’ e do ‘hoje’, enquanto a narrativa é do eterno, do tempo prolongado e da peculiaridade. A ‘idéia de eternidade sempre teve na morte sua fonte mais rica’, ensina o intelectual alemão. Afastando a morte de nossas vidas, relegando-as às instituições higiênicas e sociais, para o autor um efeito colateral terrível adveio junto com o que era seu objetivo principal: evitar o seu espetáculo. A morte, que era exemplar e cujo leito era objeto de imagens na Idade Média, foi expulsa deste universo dos vivos e banalizada.

Semente de uma única história

Pois é justamente no preciso momento da morte que a sabedoria de qualquer indivíduo comum assume sua forma mais transmissível. No interior de suas imagens, no âmago de suas tragédias pessoais, aflora o inesquecível e a antiga autoridade da narrativa que qualquer um, ‘qualquer pobre diabo’, possui ao morrer. A morte deveria fazer parte de um tipo de história que poderia nos ensinar. Mas ela já não nos diz mais nada na precisão de todos os dados que devem constar no lead de uma história que foi noticiada. E então, centenas delas se sucedem sem que lhes seja conferida singularidade alguma, qualquer autoridade que possa nos ensinar. A morte é do tempo da narrativa que, por sua própria natureza, é inesquecível. Uma história ouvida fará, para sempre, parte do repertório das experiências do indivíduo, enquanto a notícia é descartável e, pela sua lógica de produção, facilmente substituível.

Quem sabe, para sua própria sobrevivência em um cenário multi-informacional, o jornalismo impresso possa recuperar aquele tempo perdido das longas e belas narrativas que tanto podem impressionar como despertar mil leituras e infinitas compreensões. Talvez na fria estatística dos números, mesmo que na casa dos milhares, sobreviva a semente de uma única história, de uma só narrativa que, se bem contada, possa resumir toda a dor, toda a tragédia que se esconde nas respostas daquelas cinco perguntas que não explicam muita coisa e escondem de todos nós a verdadeira face do espectro maldito que carrega sua foice impiedosa.

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Estudante de jornalismo da Universidade Fumec, Belo Horizonte, MG

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