Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

CIêNCIA > COMUNICAÇÃO E LUSOFONIA

As diferenças e os pontos em comum

Por Sergio Denicoli, de Braga (Portugal) em 31/10/2005 na edição 273

A notícia do diário português Correio da Manhã, às vésperas da classificação da seleção de Angola para a Copa do Mundo, anunciava: ‘Três vezes Portugal no Mundial da Alemanha’. Referia-se à possibilidade de haver, pela primeira vez na história do mundial de futebol, três países de língua portuguesa na competição.

Os angolanos conseguiram a vaga, junto com o Brasil e Portugal. Já a imprensa portuguesa deu mostras de como é construída nos jornais do país a imagem da lusofonia – o universo de nações que têm a língua portuguesa como idioma oficial.

Para debater as diferenças e pontos em comum do espaço lusófono, a Universidade do Minho realizou em 7 de outubro, em Braga, o I Congresso Internacional sobre Comunicação e Lusofonia. O evento foi organizado pelo ‘Projeto Lusocom: estudo das políticas de comunicação e discursos no espaço lusófono’, coordenado pela jornalista e professora Helena Sousa.

Os trabalhos foram abertos pela polêmica apresentação da pesquisadora portuguesa Maria Manuela Batista. Para ela, uma notícia como a do Correio da Manhã seria fruto de uma visão estereotipada por parte da mídia de Portugal que, segundo afirmou, posiciona o país como o centro da lusofonia e como potencial influenciador de suas ex-colônias, retratando os demais países lusófonos como um ‘jardim colonial’ – uma extensão emocional de um passado de conquistas. Seria herança de um pensamento muito estimulado na era do ditador Antonio de Oliveira Salazar (1889-1970).

Moisés Martins, diretor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, destacou em sua apresentação que a lusofonia não se prende a estereótipos e pode ajudar na formação de uma comunidade transnacional, com propósitos político-culturais.

União nacional

É certo afirmar que ainda há um sentimento forte em Portugal em relação ao seu passado histórico, mas é exagero dizer que há uma mídia com visão ainda imperialista. Os portugueses se orgulham das conquistas que tiveram no mundo e do fato de terem levado a língua de sua pátria a vários continentes. Isso tem uma certa influência nos jornais, mas são simbologias mais voltadas para o sentimento de nação de passado glorioso do que uma tentativa de subordinar as ex-colônias. Mesmo porque Portugal é muito aberto às inovações linguísticas por que tem passado a língua portuguesa no mundo.

As telenovelas brasileiras são um exemplo da aceitação da influência vinda de um país que já pertenceu aos portugueses. Desde a década de 1970 elas são exibidas em terras lusitanas sem dublagem ou legendas, e agregam novos vocábulos ao cotidiano de Portugal.

É o contrário do que acontece no Brasil, segundo disseram representantes brasileiros no Congresso. Para eles, a imprensa no país não está atenta à existência de um mundo lusófono, tendo desenvolvido uma linguagem com características próprias e independentes.

Já nos países africanos onde a língua portuguesa é oficial – Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe – o português ainda enfrenta obstáculos para se firmar como língua de união nacional. Nesses locais predominam as línguas nativas que coexistem e reforçam valores tribais. O mesmo ocorre no asiático Timor Leste.

Papel primordial

Em Angola, por exemplo, existem 49 dialetos e 19 línguas. As rádios, que compõem a maior força midiática do país, fazem as transmissões em línguas nativas. Em Moçambique, o português é a língua materna de apenas 10% da população – ou outros 90% dos habitantes têm um dos 23 idiomas nativos como língua principal. Em Timor, a escolha pelo português como língua oficial foi uma decisão política, pois era um idioma trazido por estrangeiros e não causaria conflitos como os que ocorreriam se a língua de alguma região local fosse adotada em detrimento de outras. O idioma mais falado pelos timorenses é o tétum.

Estimativas revelam que em todo mundo 200 milhões de pessoas falam português, a maioria brasileiros. Portanto o Brasil tem um papel primordial na construção de um espaço lusófono. Mas o que se percebe é um distanciamento do país do debate sobre a questão, que é praticamente ausente da mídia.

Em tempo: a Academia Brasileira de Letras editou um Vocabulário Ortográfico com novas palavras, que inclui adaptações de vários termos em inglês. É o novo português do backup, byte e do delete.

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Jornalista e pesquisador de mídias da Universidade do Minho, em Portugal

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