Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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JORNAL DE DEBATES >

As drogas e a política

Por Luciano Martins Costa em 04/03/2010 na edição 579

Os jornais deram pouca importância ao estudo feito por médicos da Universidade Maastricht, da Holanda, sobre os efeitos da maconha nos jovens, divulgado nesta semana. O resultado da pesquisa, publicado originalmente no British Medical Journal, publicação científica do Reino Unido, deveria ilustrar os debates sobre a descriminalização da maconha, tema que mobiliza principalmente alguns líderes do Partido Verde e que ganhou nas últimas semanas a ponderável participação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.


O estudo foi feito durante quatro anos, com o acompanhamento de 2.437 jovens com idades entre 14 e 24 anos, e levou em conta fatores sociais e econômicos e a associação da maconha com o uso de álcool e outras drogas.


A conclusão não deixa dúvida quanto à periculosidade da maconha: ‘O uso moderado da maconha aumenta o risco de desenvolver perturbações psicóticas’, diz o relatório científico. A conclusão derruba a tese dos defensores da droga, segundo a qual pessoas com maior predisposição a psicoses são mais atraídas para o uso da maconha.


Informação escondida


Quase simultaneamente à publicação do estudo da universidade holandesa, também foi divulgado o resultado de pesquisas do Instituto Neurológico de Queensland, na Austrália, sobre os efeitos graduais da maconha proporcionalmente ao uso prolongado e à potência da erva fumada.


Com o acompanhamento de mais de 3.800 homens e mulheres nascidos entre 1981 e 1984, após os 21 anos de idade e durante quatro a seis anos, foi possível determinar que os danos aumentam quanto maior for o tempo de uso, e se multiplicam com a escolha de substâncias mais fortes. Quem fuma skunk, forma mais potente da cannabis, apresenta sete vezes mais o risco de desenvolver doenças psicóticas como a esquizofrenia, do que aquelas pessoas que fumam haxixe.


Os jornais deram bastante publicidade, recentemente, a declarações do ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, em favor da liberação do uso da maconha. O ministro também participou, em maio do ano passado, de uma manifestação pela descriminalização da droga, e ganhou amplos espaços na imprensa.


Nesta semana, as informações científicas sobre os efeitos da maconha foram amplamente reproduzidas pela imprensa, mas ficaram escondidas, como meras curiosidades, nas páginas internas dos jornais.


Efeito cumulativo


Não são poucas as personalidades que têm vindo a público, recentemente, para defender a descriminalização de drogas. Destacou-se na imprensa, em fevereiro, a manifestação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na defesa da tese. Ele faz parte da Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia, composta por intelectuais e políticos como os ex-presidentes César Gaviria, da Colômbia, e Ernesto Zedillo, do México. Em comum, os três ex-governantes têm o fato de haverem fracassado em suas políticas de combate ao narcotráfico.


Um dos argumentos apresentados pelo ex-presidente Cardoso na ocasião foi a tese de que o dano causado pela maconha é similar aos do álcool e do tabaco. Os estudos divulgados nesta semana comprovam que a tese está errada. Todas as três substâncias causam danos à saúde, mas a maconha comprovadamente tem um efeito cumulativo como causa de doenças psicóticas não-afetivas. Com o fato agravante de que atinge os jovens em formação, comprometendo por longos períodos sua capacidade de discernimento.


Perfil ideológico


Ao embarcar num movimento que costuma produzir mais barulho do que reflexões, o ex-presidente que construiu grande reputação como sociólogo corre o risco de ver sua biografia alterada.


Como a imprensa não demonstra interesse ou capacidade para discutir as sutilezas da questão das drogas, ele pode acabar sendo mais citado por uma teoria da dependência química do que por sua célebre teoria da dependência econômica.


Já o Partido Verde, que costuma puxar as alegres manifestações em favor das drogas, principalmente na orla do Rio de Janeiro, e que sonha conduzir a ex-ministra Marina Silva à Presidência da República, pode ver reduzido seu perfil ideológico de protetor das florestas para defensor dos pacotes de erva prensada.

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