Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > REPRESSÃO OU DESCRIMINALIZAÇÃO

As drogas e a política

Por Luciano Martins Costa em 04/03/2010 na edição 579

Os jornais deram pouca importância ao estudo feito por médicos da Universidade Maastricht, da Holanda, sobre os efeitos da maconha nos jovens, divulgado nesta semana. O resultado da pesquisa, publicado originalmente no British Medical Journal, publicação científica do Reino Unido, deveria ilustrar os debates sobre a descriminalização da maconha, tema que mobiliza principalmente alguns líderes do Partido Verde e que ganhou nas últimas semanas a ponderável participação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.


O estudo foi feito durante quatro anos, com o acompanhamento de 2.437 jovens com idades entre 14 e 24 anos, e levou em conta fatores sociais e econômicos e a associação da maconha com o uso de álcool e outras drogas.


A conclusão não deixa dúvida quanto à periculosidade da maconha: ‘O uso moderado da maconha aumenta o risco de desenvolver perturbações psicóticas’, diz o relatório científico. A conclusão derruba a tese dos defensores da droga, segundo a qual pessoas com maior predisposição a psicoses são mais atraídas para o uso da maconha.


Informação escondida


Quase simultaneamente à publicação do estudo da universidade holandesa, também foi divulgado o resultado de pesquisas do Instituto Neurológico de Queensland, na Austrália, sobre os efeitos graduais da maconha proporcionalmente ao uso prolongado e à potência da erva fumada.


Com o acompanhamento de mais de 3.800 homens e mulheres nascidos entre 1981 e 1984, após os 21 anos de idade e durante quatro a seis anos, foi possível determinar que os danos aumentam quanto maior for o tempo de uso, e se multiplicam com a escolha de substâncias mais fortes. Quem fuma skunk, forma mais potente da cannabis, apresenta sete vezes mais o risco de desenvolver doenças psicóticas como a esquizofrenia, do que aquelas pessoas que fumam haxixe.


Os jornais deram bastante publicidade, recentemente, a declarações do ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, em favor da liberação do uso da maconha. O ministro também participou, em maio do ano passado, de uma manifestação pela descriminalização da droga, e ganhou amplos espaços na imprensa.


Nesta semana, as informações científicas sobre os efeitos da maconha foram amplamente reproduzidas pela imprensa, mas ficaram escondidas, como meras curiosidades, nas páginas internas dos jornais.


Efeito cumulativo


Não são poucas as personalidades que têm vindo a público, recentemente, para defender a descriminalização de drogas. Destacou-se na imprensa, em fevereiro, a manifestação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na defesa da tese. Ele faz parte da Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia, composta por intelectuais e políticos como os ex-presidentes César Gaviria, da Colômbia, e Ernesto Zedillo, do México. Em comum, os três ex-governantes têm o fato de haverem fracassado em suas políticas de combate ao narcotráfico.


Um dos argumentos apresentados pelo ex-presidente Cardoso na ocasião foi a tese de que o dano causado pela maconha é similar aos do álcool e do tabaco. Os estudos divulgados nesta semana comprovam que a tese está errada. Todas as três substâncias causam danos à saúde, mas a maconha comprovadamente tem um efeito cumulativo como causa de doenças psicóticas não-afetivas. Com o fato agravante de que atinge os jovens em formação, comprometendo por longos períodos sua capacidade de discernimento.


Perfil ideológico


Ao embarcar num movimento que costuma produzir mais barulho do que reflexões, o ex-presidente que construiu grande reputação como sociólogo corre o risco de ver sua biografia alterada.


Como a imprensa não demonstra interesse ou capacidade para discutir as sutilezas da questão das drogas, ele pode acabar sendo mais citado por uma teoria da dependência química do que por sua célebre teoria da dependência econômica.


Já o Partido Verde, que costuma puxar as alegres manifestações em favor das drogas, principalmente na orla do Rio de Janeiro, e que sonha conduzir a ex-ministra Marina Silva à Presidência da República, pode ver reduzido seu perfil ideológico de protetor das florestas para defensor dos pacotes de erva prensada.

Todos os comentários

  1. Comentou em 07/03/2010 Marcelo Silvestre

    Só mais uma pergunta: ‘A comparação com a indústria farmacêutica e com a indústria de bebidas é muito forçada.’ Por quê??? Ambas produzem drogas. Legalizadas, mas drogas. O álcool é uma droga que mata mais que todas as outras juntas. A indústria farmacêutica lida com drogas em um grau de pureza e de potência muito superior a das drogas mais fortes. Cocaína = anfetaminas, Heroína = metadona, lembra? Onde forcei a barra? Você diz : ‘Os estudos sobre o efeito da maconha como causa de psicoses não-afetivas não são palpites.’ Onde eu contestei os resultados dos estudos? Eu confio muito nesses estudos. É claro que as drogas são nocivas. Eu apenas disse que se o cara quer destruir o cérebro dele o problema é dele. Nem meu, nem seu, e muito menos deveria ser da polícia.

  2. Comentou em 06/03/2010 Marcelo Silvestre

    Luciano, provavelmente uso a mesma futurologia que vc. Pena que a sua prevê que tudo será terrível. Tudo o que eu disse não é futurologia: é o que eu penso que seria a forma mais natural da legalização acontecer. Mas perceba um detalhe: eu defendo que a gente pelo menos tente e, se não der certo, que a gente volte atrás. Eu não assumo que tudo será perfeito. Considero a hipótese da gente ter que voltar à situação atual, de proibição. Mas acho que a gente deveria ao menos tentar. Acho também muito interessante a certeza de pessoas que, como vc, são contra a legalização, mesmo depois de 70 anos de fracassos (até mesmo dos países mais ricos) no combate ao tráfico.

  3. Comentou em 05/03/2010 Marcelo Silvestre

    Luciano, acho que vc apropriadamente coloca vários argumentos válidos contra a liberação. Mas vamos um por um. Quem vai fiscalizar a qualidade? O mesmo órgão que fiscaliza a indústria farmacêutica. Estaremos livres de subornos? Não, nunca, em nenhuma área pública ou privada, em qualquer país. Faz parte da humanidade. Onde vai sentar o representante da indústria de cigarros de haxixe? Ao lado do representante da Bayer, J&J, Roché, etc. Que contribuição essa nobre casta de homens de negócios vai trazer para o desenvolvimento do Brasil? Drogas com certificação de qualidade, livre de impurezas adicionadas pela manufatura ilegal. Impostos. Empregos. Investimentos em infra-estrutura. Fim do tráfico ilegal e da violência que se origina dele. Legalizados e com o dinheiro lavado, que espécie de candidato iriam apoiar nas eleições, com suporte na lei? O dinheiro não seria lavado, teria origem legal. Apoiariam os mesmos políticos corruptos que a indústria brasileia apoia no momento. Algum dos senhores aí, numa reunião social, teria orgulho de exibir um cartão de gerente de ponto de maconha? As drogas seriam vendidas em farmácias, não pontos de maconha. Qual o problema em ser gerente de farmácias, que hoje já vende drogas legalizadas? Legalizada, a nova indústria teria direito a propaganda na TV? De preferência não, assim como a indústria de cigarros.

  4. Comentou em 05/03/2010 Luciano Martins Costa

    Algumas perguntas que podem nos ajudar a refletir sobre o problema: se as drogas forem legalizadas, quem vai fiscalizar a qualidade? A polícia? A Anvisa? Estaremos livres de subornos? Onde vai sentar, na sede da Fiesp ou da CNI, o representante da indústria de cigarros de haxixe? No comitê do tabaco? Ao lado do Paulo Skaf? Imaginando-se o perfil dos ilibados empreendedores que se disponham a tocar a nova indústria institucionalizada, que contribuição essa nobre casta de homens de negócios vai trazer para o desenvolvimento do Brasil? Legalizados e com o dinheiro lavado, que espécie de candidato iriam apoiar nas eleições, com suporte na lei? Algum dos senhores aí, numa reunião social, teria orgulho de exibir um cartão de gerente de ponto de maconha? Ou como vai se chamar o profissional legalizado? Legalizada, a nova indústria teria direito a propaganda na TV? Baseados no princípio de que ninguém deve ser impedido por lei de atentar contra seus próprios interesses, como limitar o uso, nas escolas, ao pátio de recreio ou ao banheiro? Teria a mesma legislação antifumo? os traficantes atualmente condenados iriam imediatamente para a rua? Quanto vai custar o tratamento dos novos adictos legalizados? …

  5. Comentou em 04/03/2010 Marcelo Silvestre

    A gente também pode citar a hipocrisia da sociedade. Roubo é crime, receptação de mercadoria roubada também. Se as drogas são ilegais, a lei deveria ser igual para todos, certo? Errado. O médico (elite) que ‘distribui’ a torto e a direito receitas de medicamentos tarja preta sequer tem seu diploma ameaçado pelo CRM. O empresário (elite) ou o adolescente de classe média que são pegos com drogas são tratados como doentes, tadinhos. Já o menino pobre com um cigarro de maconha toma tapa na cara do policial. E o ‘de menor’, invariavelmente negro e pobre, que trafica nas favelas para ver se ajuda sua mãe em casa, ah, esse a gente fuzila com o BOPE. Se você pensar bem, vai reparar que o abuso de drogas sempre foi liberado para a elite. Os ‘bandidos’, os ‘culpados’, que devemos punir no rigor da lei (ou fuzilar!), sempre foram os pobres.

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