Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > QUESTÕES DE ENQUADRAMENTO

As fronteiras que dão o que falar

Por Sheila Sacks em 06/07/2010 na edição 597

Mais uma vez, a Tríplice Fronteira (Argentina, Paraguai e Brasil) ressurge na mídia como rota de fuga e abrigo de procurados da Justiça e de supostos integrantes de movimentos radicais islâmicos. Em 16 de junho, a agência espanhola EFE divulgava a informação de que os EUA haviam requerido a extradição de um libanês naturalizado americano, preso pela Interpol (Internacional Criminal Police Organization) no dia anterior em Ciudad del Este. Escondido no Paraguai, na zona da Tríplice Fronteira, o árabe Moussa Ali Hamdan, de 38 anos, é acusado pelo governo norte-americano de 31 delitos cometidos em 2007 e 2008, entre eles o de falsificar passaportes, roubar carros, traficar armas e arrecadar verbas para as atividades do grupo Hezbollah. O chefe da Interpol no Paraguai, José Chena, teve o apoio do Departamento de Prevenção e Investigação contra o Terrorismo daquele país para identificar o fugitivo, que não portava nenhum documento que o identificasse.

A jornalista Marta Escurra, que acompanhou o caso em Assunção, informou que Hamdan foi indiciado pelas autoridades dos Estados Unidos em 2009 por sua conexão com a célula terrorista, na época em que residia em Nova Jersey. Em reportagem publicada no portal Infosur hoy, ela conta que Hamdan foi a principal figura investigada nos quatro anos da operação encabeçada pela Força Tarefa Antiterrorismo do FBI. Diz ainda que não se sabe como o homem entrou no Paraguai. Segundo uma fonte policial que pediu anonimato, o árabe ‘provavelmente entrou por Ciudad del Este para poder transitar livremente pela Tríplice Fronteira onde se presume haver células do Hezbollah que, por sua vez, têm conexões com células da Venezuela e (Hamdan) seria o líder de ambas as células’.

O responsável pelo atentado

Já em 2007, no documentário Hezbollah: ameaça terrorista na América Latina, exibido pelo canal Telemundo, de língua espanhola, da rede de TV norte-americana NBC, a Tríplice Fronteira era apresentada como o lugar mais importante para o grupo extremista xiita libanês (fundado no Irã em 1979 e depois do Líbano). Na reportagem do correspondente Pablo Gato, o local é descrito como a capital do contrabando, do narcotráfico e da lavagem de dinheiro da América Latina, com um movimento comercial que atinge de 2 a 3 bilhões de dólares anuais, parte dos quais canalizados para o financiamento do Hezbollah.

Mas, para o jornalista e cientista político Segadas Vianna existem outros movimentos radicais atuando na região. No artigo ‘A Luta Armada no Brasil’, publicado no site Vote Brasil, ele afirma que ‘no Sul do país, na chamada Tríplice Fronteira, há fortíssimas evidências da existência de bases ativas da al-Qaida e de grupos palestinos como o Hamas, sendo que a maioria dessas bases destina-se a abrigar militantes `queimados´ em suas áreas de ação e à obtenção de fundos para as suas atividades’. Estudioso das políticas públicas de segurança, Segadas Vianna foi correspondente na Nicarágua e atuou em 1995 como observador e consultor de um grupo especial da Polícia Civil do Rio.

Em maio deste ano, por ocasião da visita do presidente Lula ao Irã, o diretor do Centro judaico Simon Wiesenthal de Buenos Aires, Sergio Widder, lembrou que a pessoa assinalada como líder da conexão local do ataque terrorista ao prédio da associação israelita Amia, em Buenos Aires, está refugiada em Foz de Iguaçu. Para o procurador argentino Alberto Nisman, responsável pelas investigações, o colombiano Samuel Salman el Reda foi o responsável pela coordenação da entrada, estadia e partida do grupo operacional responsável pelo atentado, assim como das operações de logística e demais atividades que o grupo executou na fase final do ataque.

Ataques na gestão Menem

Há seis anos, a revelação de que os dois atentados foram organizados no Brasil, na região de Foz de Iguaçu, partiu de Carlos Alberto Costa, português naturalizado norte-americano (hoje com cidadania brasileira em razão da esposa e filho serem brasileiros) que chefiou a seção do FBI (Federal Bureau of Investigation) no Brasil por quatro anos. Destacado para agir no país em 1999, depois de servir em várias missões mundo afora, ele alcançou a qualificação nº 36 dentre os ‘top 50’ da polícia federal norte-americana.

Na entrevista à revista CartaCapital (edição 283, de 24.03.2004), Costa afirmou que as pessoas que tramaram e executaram os ataques não viviam no Brasil e nem eram brasileiros. Logo após a publicação da entrevista, o então presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado, Eduardo Suplicy (PT-SP) considerou preocupante o conteúdo das declarações, solicitando a presença de ministros em uma reunião para esclarecer o assunto. Também a Superintendência da Polícia Federal, em nota divulgada na imprensa, disse que intimou o ex-adido policial dos Estados Unidos no Brasil a prestar depoimento formal sobre os temas abordados.

Vale lembrar que em 18 de junho de 1994 a explosão de um carro-bomba com 300 quilos de nitrato de amônia conduzido por um suicida (Ibrahim Hussein Berro, de 21 anos) até a entrada do prédio de sete pavimentos da Amia provocou o seu desabamento, resultando em 85 mortes e 300 feridos. Nascido no Líbano e treinado no Irã, Hussein era militante do Hezbollah e ingressou na Argentina através da Tríplice Fronteira. O fato foi confirmado em 2005 por seus irmãos que residem em Detroit e prestaram depoimento ao promotor argentino do caso.

Anteriormente, em 17 de março de 1992, outro ataque com carro-bomba já havia destruído a embaixada de Israel em Buenos Aires, causando a morte de 29 pessoas e ferindo 242. Em 2006, as investigações das autoridades argentinas apontaram a culpabilidade de integrantes do Hezbollah e do governo do Irã em ambos os atentados, e em 2009 o ex-presidente Carlos Menem, em cujas gestões foram cometidos os ataques, foi acusado de obstruir as investigações que envolviam um amigo empresário de origem síria. De família árabe muçulmana, Menem se converteu ao cristianismo para assumir a presidência da Argentina.

Filmes sobre a Tríplice Fronteira

No Brasil, uma reportagem de Bruno Rodhe, publicada no jornal Extra, do Rio de Janeiro, em 23 de setembro de 2009, dava conta de que um libanês suspeito de participar da explosão no prédio da Amia cumpre pena de onze anos em regime fechado no presídio federal de segurança máxima de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Preso em 2006 pela Polícia Federal por tráfico de drogas, Farouk Abdul Hay Omairi, de 63 anos, é acusado de financiar o Hezbollah e aliciar pessoas para o transporte de drogas de Foz do Iguaçu, onde morava, para a Europa, Amã e a Jordânia.

De acordo com a matéria, ele usou durante sete anos a agência de viagens de sua propriedade para facilitar a remessa de entorpecentes para o exterior. Atuando na zona da Tríplice Fronteira, Farouk ajudava a financiar o grupo extremista com os lucros provenientes do tráfico de drogas e também auxiliava na obtenção ilegal da cidadania brasileira ou paraguaia. Seu filho, Kaled Omairi, de 33 anos, também foi condenado por tráfico de drogas e cumpre pena no mesmo presídio.

As autoridades dos três países, porém, são veementes em suas negativas quanto ao fato da Tríplice Fronteira abrigar terroristas. Recentemente, os ânimos ficaram acirrados diante do fato da cineasta Kathryn Bigelow (premiada com o Oscar 2010 pelo filme Guerra ao Terror) estar desenvolvendo um projeto cinematográfico que tem como foco a região, o contrabando, o narcotráfico e o financiamento do terrorismo islâmico. O filme Triple Frontier, do mesmo roteirista de Guerra ao Terror, Mark Boal, está previsto para ser rodado nas Cataratas do Iguaçu, uma área considerada Patrimônio da Humanidade, na divisa do Brasil com a Argentina. Os governos do Paraguai e da Argentina já se posicionaram contrários à produção, argumentando que ‘a trama da película retrata de forma negativa os países da América do Sul, criminaliza a região e amedronta os turistas estrangeiros’.

O financiamento às redes terroristas na Tríplice Fronteira também é tema de um outro filme norte-americano, em fase de produção, desta vez sob a direção do brasileiro José Padilha (Tropa de Elite). No filme A Willing Patriot, um agente federal dos EUA chega clandestinamente à Tríplice Fronteira para desarticular uma organização que arrecada fundos para atos terroristas.

‘Áreas de difícil fiscalização e controle’

A esse respeito, em 2007 uma reportagem da revista Época (‘Os terroristas estão aqui?’) informava:

‘Sabe-se que, em 1995, Khalid Shaikh Mohammed, um dos mentores dos ataques de 11 de setembro, passou cerca de 20 dias no Brasil para visitar integrantes da comunidade muçulmana de Foz do Iguaçu. Lá, teria ajudado a fundar uma entidade beneficente que seria financiadora da al-Qaida. Capturado no Paquistão (2003) ele está preso na base americana de Guantánamo, vizinha a Cuba (deve ser julgado em 2010). Em 1996, a polícia brasileira descobriu que o libanês Marwan Al Safadi, perito em explosivos acusado de participar em 1993 do primeiro atentado ao World Trade Center, em Nova York, vivia em Foz do Iguaçu. De lá, Safadi fugiu para o Paraguai, onde foi preso e depois extraditado para os EUA.’

Para o diretor do Centro de Coordenação das Atividades de Prevenção e Combate ao Terrorismo do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, Márcio Paulo Buzanelli, existem indícios da presença de conhecidas organizações criminosas transnacionais no Brasil. Na publicação de 2004 que reuniu os trabalhos sobre terrorismo apresentados no 2º Encontro de Estudos promovido pelo Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, Buzanelli admite que ‘por abrigar uma comunidade de origem árabe e de confissão islâmica numericamente significativa em áreas de fronteira de difícil fiscalização e controle, talvez já estejam sendo aqui estabelecidas as condições propícias para o trânsito e homizio de suspeitos de colaborarem com o terrorismo internacional’.

Oficial da Inteligência, ex-chefe das Divisões de Contraterrorismo e de Crime Organizado do Serviço de Inteligência Federal, Buzanelli foi diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), de 2005 a 2007, e está à frente do centro brasileiro de antiterrorismo desde a sua implantação, em junho de 2009.

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Jornalista, Rio de Janeiro, RJ

Todos os comentários

  1. Comentou em 10/07/2010 Roberto Ribeiro

    O serviço secreto americano coloca menininhas na lista de pessoas proibidas de voar, enquanto não consegue prender o Bin Laden. São um bando de incompetentes e as suas fantasias me impressionam tanto quanto as histórias do lobo mal.

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