Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

JORNAL DE DEBATES > PESQUISAS ELEITORAIS

As ondas não captadas pelos institutos

Por Luís Nassif em 05/10/2010 na edição 610

Nesta eleição, pela primeira vez foram escancaradas a metodologia dos institutos de pesquisa e a principal diferença entre eles: a pesquisa na casa dos eleitores (adotada por Vox, Sensus e parcialmente pelo Ibope) e a pesquisa em pontos de fluxo (pelo Datafolha). Outra diferença foi o ‘esquentamento’ antes das perguntas sobre os candidatos – antecipando informações que eles receberiam no decorrer da campanha –, adotado por Vox e Sensus em contraposição ao «não esquentamento», adotado pelo Ibope e Datafolha.

Na primeira etapa da campanha, quando ainda era amplo o desconhecimento do eleitorado sobre os candidatos, a metodologia do Vox e do Sensus se mostrou mais eficaz.

No final da campanha houve uma onda verde-religiosa que acabou pegando de surpresa todos os institutos – praticamente todas as pesquisas finais erraram na margem de erro -, mais os que faziam a pesquisa domiciliar, menos os que faziam o ponto de fluxo.

Sinais no ar

Na primeira etapa, o Datafolha foi o que menos errou no resultado final. Previu o início da nova onda antes dos outros, mas sua pesquisa final deu empate técnico entre Dilma e a soma dos demais candidatos. Na pesquisa boca-de-urna, o Ibope deu 51% para Dilma – informações internas da Globo, quando o Ibope demorou a divulgar os resultados, falavam até em 55%.

Vitoriosos na primeira etapa, aparentemente Vox e Sensus cometeram o mesmo erro inicial do Datafolha: a aposta cega nos resultados levantados, sem atentar para a dimensão do movimento da onda que se avolumava. O movimento não foi captado em suas pesquisas que davam como certo a consolidação dos votos dos eleitores. O próprio Montenegro, do Ibope, previu vitória de Dilma por 55% dos votos válidos.

Endossei aqui essas avaliações. E dançamos.

As lições a se tirar das pesquisas:

Fica claro que as pesquisas domiciliares são mais eficientes para captar ondas mais longas de opinião pública – como foi o caso do crescimento de Dilma, à medida que aumentava o conhecimento de que ela era candidata de Lula.Por outro lado, as pesquisas de fluxo captam mais rapidamente parte dos movimentos de ondas curtos – aquelas inflexões repentinas que mudam resultados de eleição nos últimos dias.

Mesmo assim, nenhuma delas consegue captar ondas que se avolumam nos dias finais de campanha. E aí é um problema a ser estudado pelos especialistas brasileiros em geral.

Nessas viradas, surgem sinais de todos os pontos sobre reversão de tendências, mas que acabam não captados pelas pesquisas.

Lembro-me de dois episódios exemplares. O primeiro, a eleição de Jânio para prefeito de São Paulo, em 1985, vencendo Fernando Henrique Cardoso. O Datafolha (ainda um departamento da Folha) bancou a vitória de FHC inclusive na boca de urna.

Naquele ano, a grande vitoriosa foi a Jovem Pan, com pesquisas de rua, sem nenhuma metodologia, mas que mostravam amplo apoio a Jânio. Captou sinais no ar que as pesquisas, feitas com metodologia, não captaram.

O segundo fenômeno foi na eleição de Luiza Erundina para a prefeitura de São Paulo. Minha filha Luizinha, então com uns 8 anos, me disse que na sua escola estava falando em Erundina. As pesquisas nem sonhavam em apontá-la como favorita. Deu Erundina. Agora, me dizia que todas suas amigas estavam falando em votar em Marina.

Apesar dos avanços

Nessas eleições, a confiança nos institutos fez com que ignorássemos aqui inúmeros sinais similares aos trazidos por Luizinha. Havia comentários de muitos de vocês, de várias partes do país, indicando efeitos do episódio aborto, potencializados por boatos de que Dilma fecharia todas as igrejas. O denuncismo exacerbado da velha mídia provavelmente também teve efeito sim, apesar das pesquisas não indicarem.

Como apontou Marcus Figueiredo em entrevista no domingo (3/10), os jornalões têm pouco efeito direto sobre os eleitores. Mas suas manchetes ainda reverberam em rádios e jornais pelo interior, especialmente quando exploram temas de vasto alcance popular, como denúncias de corrupção.

A conclusão a se tirar é que, pelo histórico das três eleições – FHC-Jânio, Erundina e agora – aparentemente essas bolhas vão se formando, há sinais de sua difusão, mas a decisão da maioria dos eleitores que vão na onda só se materializa no momento do voto. E as pesquisas não conseguem captar essa explosão final.

Daí que, na véspera da eleição, o Vox dava 55% dos votos úteis para Dilma, embora Marcos Coimbra se recusasse a garantir primeiro turno para a campanha do PT, admitindo não conseguir avaliar até onde chegaria a nova onda (apesar de endossar o primeiro turno em seu artigo); o Datafolha dava empate, em relação à possibilidade de segundo turno; e o Ibope deu 51% pró-Dilma no boca de urna. Ou seja, todos os institutos erraram ao não captar a onda em sua plenitude.

E havia sinais nítidos no ar.

Por isso, apesar dos avanços das pesquisas de opinião no país, há muito a avançar para entender melhor a alma do eleitor, especialmente em momentos de grande inflexão da opinião pública. 

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