Sexta-feira, 06 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1066
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As políticas comunicacionais do movimento

Por Joel Felipe Guindani em 13/04/2010 na edição 585

Como o MST está lidando com os desafios originados pela crescente midiatização social? Como se dá a relação entre o projeto político-comunicacional idealizado pelas suas lideranças e a prática comunicativa desenvolvida por seus militantes da base, cada vez afetados pelas lógicas da midiatização? Essas inquietações movimentam o fazer mídia pelo MST, como também a pesquisa acadêmica sobre comunicação e movimentos sociais na atualidade.

Toda tecnologia de comunicação e informação deve ser observada como potencializadora de transformações no tecido das relações sociais, na constituição dos movimentos e da conduta dos indivíduos. Por essa via, um dos problemas que preocupam os movimentos sociais – até porque tem influência direta na continuidade de suas lutas e na sua própria garantia enquanto organização – é o crescente processo de midiatização social.

Especialmente no caso do MST, devemos observar as afetações da midiatização a partir de dois movimentos diferentes, mas que se complementam. O primeiro diz respeito às afetações da mídia externa, como os ataques constantes que o MST sofre dos grandes grupos de comunicação, como a Bandeirantes e Rede Globo. Nesta perspectiva, as afetações midiáticas não dão muita folga para o MST. Ele precisa agir rapidamente, quase sempre na defensiva e sua ação midiática é mais reativa do que programática. O segundo modo de compreender as afetações da midiatização no MST é observando o desenvolvimento de seu próprio campo midiático. Então, a midiatização é mais relacional e não tanto transversal, como diz o pesquisador Antonio Fausto Neto. Nesta perspectiva, há uma folga para o MST empreender seu agir midiático, tanto no desenvolvimento de seu próprio arsenal comunicativo como nas ações mais programadas, como, por exemplo, a divulgação das marchas e outros eventos.

Os grandes desafios

Uma pergunta recorrente é se o MST se configura como um movimento midiatizado ou em processo de midiatização. Sem dúvida achar que tudo está midiatizado é reduzir a complexidade e a riqueza dos processos sociais, especialmente a dimensão criativa, bem como a incompletude da vida humana. Por outro lado, seria outro erro desconsiderar as afetações midiáticas sobre os rumos desse movimento. A criação, gestão e funcionamento das experiências comunicacionais do MST também são expressões da criatividade de sujeitos que almejam, em alguma proporção, à construção da cidadania, e não, exclusivamente, resquícios da cultura midiática. A midiatização está imbricada nisso, mas não é a medida de tudo. Na mesma direção, a natureza das ações comunicacionais do MST, na maioria das vezes, não tem a intenção de ser midiatizada e, pela impossibilidade de acesso à técnica, como, por exemplo, as manifestações comunicacionais, como as marchas e ocupações realizadas secretamente na escuridão da noite. Se definirmos qualquer manifestação comunicacional como midiatizada, corremos o risco de simplificar a existência deste movimento social somente a partir da cultura tecnológica. O MST, muitas vezes, age midiaticamente, mas não somente sob esta perspectiva. Se o MST fosse um movimento apenas midiático, os pés de laranja da Cutrale não seriam derrubados, como também as demais ações seriam melhor programadas, tendo em vista a boa imagem midiática.

Obviamente que os grandes grupos de comunicação influenciam a construção do processo comunicacional do MST, mas da mesma forma, esta mídia tradicional também é afetada pelo MST. Neste caso, há graus de afetação que variam de acordo com o veículo ou situação de comunicação. Por exemplo, muitos veículos do MST, especificamente os de massa, como o site e, cada vez mais, os vídeos produzidos para o YouTube, foram criados ou ativados a partir da necessidade de dar respostas aos ataques da grande mídia. Por outro lado, a afetação da mídia é relativa, especialmente quando tratamos de veículos desenvolvidos para ações mais pontuais. Como salienta um dos fundadores da Rádio Terra Livre FM, emissora localizada em um assentamento do MST: ‘Depois que conseguimos a terra, a gente não estava muito aí com o que a mídia falava de nós. Esta rádio nasceu para entreter o povo e também para ajudar a nossa cooperativa aqui nos assentamentos’, relata. Há poucos dias, revisei um dos jornais do MST que irá circular pelo estado de Santa Catarina. De todo o conteúdo, apenas algumas linhas fazem crítica aos conteúdos da grande mídia. As demais matérias objetivam a publicização das conquistas do MST no estado, como também dicas sobre culinária e beleza.

Na sociedade em processos de midiatização, como pensar uma política de comunicação que contemple as inúmeras e complexas ações desenvolvidas por diversos sujeitos em praticamente todos os assentamentos do MST? Para alguns militantes do MST, ações normativas, como proposições político-documentais, podem, muitas vezes, reduzir, e não potencializar, ações comunicacionais, especialmente as protagonizadas pelo rico imaginário popular ou pelas pequenas necessidades do cotidiano. Nesta direção, identifiquei que o MST depara com a diversidade e a deslocalização de costumes e valores erigidos e operados pelos novos fluxos e fontes de informação.

Sem dúvida, essa diversificação informacional e a difusão da cultura e de mediações para além das cercas deste movimento social são os grandes desafios que o universo da midiatização impõe à construção de sua política comunicacional. Lanço a hipótese de que a própria elaboração político-documental do MST sobre a comunicação será conduzida, cada vez mais, pelo campo da experiência comunicacional, do retorno a questões do cotidiano de sua base, esta cada vez mais afetado pelas lógicas e demandas da sociedade em midiatização.

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Radialista pela Universidade do Oeste de Santa Catarina, doutorando em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos

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