Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

JORNAL DE DEBATES > TAM, VÔO 3054

As revistas nada acrescentam à cobertura

Por Luciano Martins Costa em 24/07/2007 na edição 443

Concebidas para consolidar o conhecimento produzido pelas informações dos jornais e outros meios diários, as revistas semanais têm o nobre propósito de fazer a síntese dos acontecimentos e auxiliar os cidadãos no desenvolvimento de sua visão de mundo. Para isso, contam geralmente com equipes de checagem dos fatos e números e ainda mantêm aqueles profissionais que tratam de manter a linguagem alinhada, uniformizada, que dá à publicação certa personalidade. De uma revista semanal se espera que dure mais, muito mais, do que um diário. Apanhada distraidamente na sala de espera do dentista, deve conduzir o leitor, ainda meses depois de ter sido publicada, a uma viagem confiável pela realidade.

As revistas semanais brasileiras, neste último fim de semana, fizeram o contrário do que delas se espera. Tiveram quase toda a semana para investigar a tragédia do Airbus da TAM no aeroporto de Congonhas, São Paulo, contaram com a plenitude de seus recursos para oferecer aos cidadãos uma percepção mais madura do pior acidente aéreo já ocorrido no país. E falharam. A leitura conjunta das três mais destacadas publicações de informações semanais traz ainda mais confusão ao noticiário.

Cada uma delas, conduzida por um viés específico, enveredou por um caminho de interpretação, por uma aposta definitiva, e nenhuma delas oferece ao leitor elementos para entender o que aconteceu a bordo do avião que fazia o fatídico vôo JJ-3054. Todas elas optaram por uma linguagem que viaja do tecnicamente empolado – caso da Veja – ao opiniário apressado – caso da CartaCapital.

Cedo para conclusões

Época saiu com o título que induz à ocorrência de uma culpabilidade institucional: ‘Quantos mais precisam morrer?’, diz o título que antecede o corpo principal de textos –, pressupondo que há um sistema identificável por trás do desastre. A reportagem começa com uma emocionada coleção de perfis de vítimas, revelando o propósito de marcar o relato pelo tom emocional.

O conteúdo interno da revista não permite a consideração imposta pelo título. Se ficar comprovado que a tragédia derivou de uma cadeia de erros e deficiências sem relação direta uns com os outros, a edição deveria ser cremada, para prevenir equívocos de futuros pesquisadores. Época afirma que ‘quando tocou o solo, no ponto previsto da pista, o avião estava a cerca de 140 quilômetros por hora, velocidade normal de pouso’.

Veja assegura que, quando pousou, o Airbus ‘voava a 250 quilômetros por hora, velocidade padrão para um avião desse porte que se prepara para descer’. No infográfico que ocupa suas páginas centrais, a revista reafirma essa informação. O relato dos acontecimentos que culminaram na tragédia, desenrolado passo a passo, induz o leitor a considerar que ainda é cedo para uma afirmação definitiva sobre as causas da tragédia. Mas o último texto sobre o tema, seguindo-se ao título ‘As autoridades são outra catástrofe’, deposita no colo do governo uma responsabilização que toda a reportagem antecedente aponta como prematura.

Leviandade editorial

Todas as revistas, com exceção de CartaCapital, apostaram nas imagens fortes para impactar o leitor antes das informações técnicas e políticas sobres o acidente. CartaCapital e IstoÉ, provavelmente desfalcadas de profissionais em número suficiente para uma cobertura diferenciada, fazem a ‘cozinha’ dos jornais e sites, recheando o material com muita opinião.

Nenhuma das semanais oferece uma contribuição relevante, além do que já haviam apresentado os jornais. Mas cabe a Veja a escolha mais desastrosa da semana: um destaque no rodapé das páginas 70 e 71 lança suspeitas sobre o piloto Henrique Stephanini Di Sacco, ao enfatizar a versão, não confirmada pela Gol e desmentida pela família, de que ele havia sido demitido da empresa apenas três meses depois de haver sido contratado, em setembro de 2001, por ter sido reprovado em teste no simulador de vôo.

A informação é irrelevante, por se referir a um fato suposto, que teria ocorrido seis anos antes, tempo suficiente para um aeronauta evoluir de piloto de bimotor a comandante de jatos de grande porte. Mas inscreve prematuramente um epitáfio desabonador e definitivo na lápide do piloto, que poderia estar no comando do Airbus durante o pouso em Congonhas.

No momento em que o governo e a TAM tentam se desvencilhar das responsabilidades pelo acidente em Congonhas, depositar na opinião pública o germe da suspeita contra o profissional que já não pode se defender diz muito sobre a leviandade com que são feitas certas escolhas editoriais.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 17/09/2010 luciene salvadori salvadori

    Gostaria de saber sobre a credibilidade dos cursos que o site está oferecendo principalmente o de jornalismo on line.
    Me interesso pelo curso mas gostaria saber maiores detalhes.

    Obrigada

    luciene

  2. Comentou em 30/07/2007 Roberto Ribeiro

    ‘Checagem’ é um estrangeirismo horrendo, perfeitamente substituível pela palavra ‘verificação’. É um termo de uso imperdoável.

  3. Comentou em 25/07/2007 Luiz Rozin

    Faz tempo….Faz muito tempo que esses tablóides semanais disfarçados de revistas não acrescentam nada à sociedade brasileira.

  4. Comentou em 24/07/2007 jair ribeiro ribeiro

    Esse quarto poder que o Sr. quer moralisar, na era da informaçao, vai ser dificil, pois como todo poder, sera corrompido, veja o caso de venda de reportagem. Por que tem sempre que ter novidade, por que tem=se que ser sempre criativos, por que tem-se que matar um leao todo dia.
    Nao quero desanima-lo, mas a outra revista, mais famosa, em uma de suas auto-promoçoes mostra justamente o Jr., Constantino, com a exame na mao cuja capa é nada menos que Bill Gates, onde vemos a ostentaçao tipo R. Justos versus a simplicidade do genio. Dois exempls de sucesso, porem, faltou o cheque 2.2mi (o que sabemos),isto para o Roriz, imagine para o resto de Brasilia e Brasil. Eles precisam viver, nao é mesmo, senao o Sr. vai critica-los. Tenho acompanhado o Mino, e acho ele muito serio, talvez me surpreenda, mas por enquanto. Nao é seu papel, mas precisamos lutar por professores melhores, com ambiçao de ensinar e de sobreviver e nao de enricar.A escola nem tanto, pois, tem umas em Brasilia que sao as piores em infra e as melhores em ensino.

  5. Comentou em 24/07/2007 Alice Pagotto

    Quando será que os jornalistas éticos se unirão contra essa manipulação dos donos das empresas midiáticas? Não é possível que só hajam restado três ou quatro. Do jeito que estamos não há possibilidade de a maioria escolher entre uma ou outra versão dos fatos já que, claramente, há, em cada fato narrado, uma opinião que se mostra como a verdadeira a respeito deste ou daquele assunto. Esta é a hora e a vez dos jornalistas de caráter escreverem que neste momento histórico, não venderam e não venderão suas almas.

  6. Comentou em 24/07/2007 Alice Pagotto

    Quando será que os jornalistas éticos se unirão contra essa manipulação dos donos das empresas midiáticas? Não é possível que só hajam restado três ou quatro. Do jeito que estamos não há possibilidade de a maioria escolher entre uma ou outra versão dos fatos já que, claramente, há, em cada fato narrado, uma opinião que se mostra como a verdadeira a respeito deste ou daquele assunto. Esta é a hora e a vez dos jornalistas de caráter escreverem que neste momento histórico, não venderam e não venderão suas almas.

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