Sábado, 25 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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ENTRE ASPAS >

As TICs e a dinâmica do capitalismo

Por Valério Cruz Brittos e Aléxon Gabriel João em 17/05/2011 na edição 642

É inegável que as tecnologias de informação e comunicação (TICs) provocam profundas mudanças na sociedade, transformações estas ainda em processamento e sem previsão de finalização, interferindo em todas as dimensões da vida e colaborando significativamente para modificar a realidade. A inovação – seja televisão, computador, trem ou avião – expressa a própria sociedade e, como tal, tem contribuído extraordinariamente para a expansão do capitalismo, no qual se inserem o fortalecimento do modelo urbano, a expansão do consumo, a diminuição das distâncias e o crescimento das redes de relacionamento.

No entanto, é sabido que não são as tecnologias, diretamente, que trazem mudanças sociais, mas a maneira como são utilizadas, mesmo que contra-hegemonicamente, no âmbito da formação histórica capitalista, que visa ao lucro, à expansão e à internacionalização de tudo o que possa ter valor econômico. Nesse sentido, tanto as tecnologias comunicacionais em si como os serviços que proporcionam com os programas de utilização expandem-se e estruturam-se pela organização empresarial, numa economia de escala. Isto é, quanto maior for a sua presença no mercado mundial, mais baratas se tornam e, com isso, mais acessíveis.

Esta dinâmica leva a viver uma espécie de novo encantamento com o mundo, em todas as dimensões da sociedade, do econômico ao político, do educacional ao familiar, do público ao privado. Os valores modificam-se de forma ainda mais acelerada, ao mesmo tempo em que o rendimento financeiro supera a rentabilidade da atividade produtiva, estando ambas as formas de inversão imbricadas. Na área política, os partidos políticos tornam-se pouco representativos, o que se traduz num distanciamento enorme entre a população e as instâncias de representatividade formal, num quadro de individualismo exacerbado.

A síntese dos (des)valores

Por outro lado, os movimentos sociais renovam-se e, em meio à moldura de decadência partidária, tornam-se um novo aporte de representação para a sociedade. Não obstante, a tendência principal do movimento social é justamente de proposições pontuais, sem uma articulação maior entre eles, de forma a efetivamente atacar os problemas estruturais do capitalismo. Tendo em vista o destacado individualismo, é esse tipo de luta que acaba repercutindo socialmente e permite alguma adesão a qualquer proposta que não seja projetos pessoais, o que, na essência, assegura a expansão do sistema.

No âmbito das classes sociais, as pessoas estão fragmentadas em gostos e estilos, em alta segmentação. Buscar caminhos e criar políticas que venham favorecer uma melhor distribuição do conjunto de recursos, inclusive os tecnológicos, e provocar uma maior participação da sociedade nos processos decisórios, é uma saída eficaz para que o encantamento da técnica não aumente as práticas de exclusão. Logicamente, não é tarefa fácil, já que os sintomas do mundo de hoje, onde o individualismo é a síntese dos (des)valores, não é decorrência direta da tecnologia, mas da própria sociedade que a viabiliza.

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Respectivamente, professor titular no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos; e mestre pelo mesmo programa

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