Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

JORNAL DE DEBATES > A política na era pós globalização

As “torres de marfim” e seus párias

Por Lenke Peres em 15/11/2016 na edição 926

Após anos lendo as reportagens das eleições no Brasil e no exterior, desde bem antes da primeira eleição de Lula até o recente Brexit, a eleição de Doria em primeiro turno para a prefeitura de São Paulo e agora a eleição de Trump para a presidência dos Estados Unidos, e as reportagens pós-vitória de Trump sobre o “erro” das pesquisas pré-eleitorais e as tendências políticas de “direitização” na Europa, sem contar as reportagens sobre as atividades dos grupos terroristas, o que me ocorre é que está havendo uma dissintonia entre os líderes dos segmentos da sociedade do mundo moderno e uma falta de visão generalizada.

A academia só fala de si para si; os políticos só estão interessados em seus próprios interesses; a imprensa, em geral intelectualizada, só olha para o lado de sua tendência, de “esquerda” ou de “direita”, e também só se comunica entre si e com os simpatizantes de um dos dois ditos lados. Os empresários, ora, os empresários. Empresário é empresário e empresário – banqueiros incluídos – quer é ganhar dinheiro. Enfim, cada segmento recluso em sua torre de marfim. E as modernamente tão faladas redes sociais atuando como mero reflexo barulhento das torres.

E onde fica a grande massa do povo? Tirando a sempre pequena porcentagem de radicais dos dois lados que conseguem cooptar alguns desavisados ou patológicos, a massa do povo, principalmente no pós-globalização, tem ficado cada vez mais ausente da perspectiva do alto das torres de marfim, cada uma delas indo muito bem, obrigado, convivendo com o próprio umbigo e se refestelando em seu grande ou pequeno poder e em suas brigazinhas mesquinhas ou infantis.

Pergunte-se a um cidadão comum de qualquer país – um cidadão trabalhador e não membro de qualquer partido político – o que é “direita”, o que é “esquerda”, o que exatamente é “fascismo”, o que é “comunismo”, o que é “capitalismo”, o que é “populismo”, até mesmo o que é “islamismo”, ou o que é um monte de outros “ismos” pomposos inventados pelos intelectuais? Qualquer pessoa minimamente informada e realista terá de admitir que esse cidadão não saberá responder. Mas uma coisa ele saberá responder, talvez não claramente nem com palavras chiques, mas o que ele quer é trabalhar, pôr a comida na mesa, pagar as contas e ser tratado dignamente pelo seu país.

As pesquisas e o cidadão comum

Com o policiamento ideológico de qualquer dos dois simplistas lados e, nos países ocidentais, com o policiamento do politicamente correto, a vasta maioria numérica dos cidadãos comuns virou a minoria negligenciada. Com a diagnosticada concentração cada vez maior da renda no século 21 – e, com ela, o poder, inclusive da nova casta dos “donos” da tecnologia – no mundo, com a “democracia” concentrando cada vez mais poder nas mãos dos políticos, com o grosso do dinheiro, inclusive gerado pela massa, sobrando cada vez menos para a massa, o mundo está virando uma panela de pressão com os sistemas de escape entupidos.

Dois exemplos simplórios: nos idos de 2002, um frentista de posto que eu conhecia havia muito tempo me disse que ia votar no Lula porque queria ter mais comida na mesa (foi então, pasmem!, que me caiu a ficha de que o povo mesmo não está nem aí para ideologia política); e recentemente ouvi no rádio que há pessoas que já recebem, ou estão brigando na Justiça para receber, gratuitamente do governo medicamentos ou tratamentos que custam, cada um, mais de 1 milhão de reais por mês, ou seja, é uma infimíssima minoria das minorias que recebe imensamente mais do que a imensíssima maioria que fica desassistida nas filas ou nos corredores dos hospitais públicos.

Sim, as pesquisas erraram – no caso do Brexit, de Trump ou de Doria, entre outros. Não foram as “pesquisas” que erraram, foi a falta de visão dos habitantes das torres de marfim para a crescente dificuldade da vida do cidadão comum: do cidadão não refugiado, não membro de “minorias”, não intelectualizado, não ideologicamente cooptado; do cidadão que só deseja trabalhar para o próprio sustento e da família e ter uma vida digna, e não se sentir negligenciado ou esquecido por seu próprio país.

É clara a escassez de líderes dignos e verdadeiros no mundo – a visão curta e o interesse próprio imperam. Mas se os habitantes das torres de marfim não enxergarem o quadro maior e se não tiverem a grandeza e a humildade de saírem de suas torres e adotarem uma visão mais elevada, realista e humana da grande maioria dos cidadãos comuns, a panela de pressão vai explodir – e que Deus nos ajude para que essa grande explosão não seja aproveitada por oportunistas da pior categoria.

E quanto ao “erro” das pesquisas, encerrando de uma forma nada elegante: é a maioria dos cidadãos comuns, estúpido!

***

Lenke Peres é poeta, tradutora especializada em economia e negócios e autora do Dicionário de termos de negócios

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