Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > ECOS DO LINCHAMENTO

As muitas causas da violência

Por Luciano Martins Costa em 09/05/2014 na edição 797

Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 9/5/2014

A violência, em suas formas variadas, segue ocupando amplos espaços no noticiário de sexta-feira (9/5). O leitor de jornais pode achar que o Brasil mergulhou numa espécie de guerra civil, na qual todos os conflitos passam a ser resolvidos a pauladas.

O Globo ouve dois sociólogos, que repetem o conhecido mantra da omissão do Estado e a tese da falência das instituições republicanas. Interessante observar que cada uma das análises abrigadas pela imprensa traz um pouco da verdade sobre as múltiplas causas que levam à busca da solução de conflitos por meio da violência. Mas o conjunto dos textos não chega perto da complexidade da questão, a começar pela simples constatação de que as estatísticas não mostram um aumento dos casos. O que tem havido é mais notícias sobre violência.

No caso recente de maior repercussão, o linchamento da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, ocorrido na cidade de Guarujá, no litoral paulista, trata-se de mais um em dois milhares de ocorrências do mesmo tipo registradas nos últimos trinta anos. Portanto, não se pode afirmar que há uma conexão direta entre o suposto descrédito das instituições e a ação das hordas que se pretendem autoras de “justiçamentos”.

Os cidadãos brasileiros foram excluídos do poder durante todo o período do regime militar, experimentaram um choque de protagonismo logo após a primeira eleição direta para presidente da República e depois foram envolvidos no banho-maria das políticas de alianças, que sequestraram o poder público em favor de interesses partidários.

O texto do Globo cita uma pesquisa que é realizada desde 1989, ano da eleição de Fernando Collor, na qual se verifica a perda de confiança nas instituições. No entanto, não se pode associar automaticamente esse fenômeno aos atos delinquenciais coletivos que a imprensa registra. Mais lógico seria considerar que, vendo-se desamparado pelo Estado, o cidadão procure cuidar de sua vida da melhor maneira possível, alienando-se do jogo de poder e até mesmo abstendo-se de votar. Observa-se, porém, que há grande participação nas eleições em todos esses anos.

Contradições da sociedade

O linchamento de Fabiane Maria de Jesus no Guarujá, ou o assassinado de uma menina de 13 anos em Foz do Iguaçu, morta a pedradas por duas amigas, não têm necessariamente uma relação com a baixa expectativa de parte da população quanto aos poderes republicanos. O caso do Guarujá, movido por uma história de terror que contaminou a comunidade, e o crime de Foz do Iguaçu, motivado por ciúmes entre adolescentes, não remetem a esse tipo de correlação.

A violência é um traço marcante da vida brasileira que, contraditoriamente, acompanha outra característica exatamente oposta da nossa população, a da confraternização. Ela está presente na forma como produtores rurais assassinam fiscais do Ministério do Trabalho que investigavam o trabalho escravo, no caso do empresário que manda matar um aproveitador que namora sua ex-mulher, nos assassinatos de crianças que de vez em quando chegam ao noticiário, e nos confrontos entre delinquentes fantasiados de torcida de futebol.

Trata-se de um fenômeno complexo como a própria vida. A imprensa não dá conta de abarcar todos os seus aspectos, e, como o jornal tem que circular, procura-se a simplificação referendada por títulos acadêmicos. No entanto, é preciso acrescentar a tudo o que se disse o novo contexto criado pelas tecnologias de comunicação e informação, no qual um meme, ou seja, um elemento cultural isolado, pode rapidamente se espalhar para lugares distantes, influenciando comportamentos.

Há aspectos da violência que nunca são abordados pela mídia, e que no entanto poderiam ajudar a compreender as ocorrências de maior impacto. Por exemplo, um surto de desenvolvimento em determinada região pode provocar o deslocamento de famílias da zona rural para a periferia das cidades, onde o agricultor tradicional tem dificuldade para encontrar trabalho. Eventualmente, a mulher consegue se adaptar melhor e passa a prover a renda, o que provoca um choque nas relações familiares. Essa foi, por exemplo, uma causa observada no aumento da violência doméstica em cidades da Amazônia na década passada.

Em 2007, o Conselho Nacional de Secretarias Estaduais de Saúde produziu um estudo justificando a inclusão do tema violência como um problema de saúde pública. Nesse documento (ver aqui) estão identificadas as várias formas com que a questão se manifesta na sociedade contemporânea.

Acontece que esse tipo de reflexão não vende jornal.

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