Quinta-feira, 25 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
Menu

JORNAL DE DEBATES >

Até no focinho somos iguais

Por Paulo Bento Bandarra em 31/03/2009 na edição 531

Algumas vezes fico perdido com o Observatório da Imprensa com temas
como o tratado por Deonísio da Silva, em 24/3/2009, ‘Cara
de um, focinho de outro
‘. Afinal, o que tinha a abordagem a ver com a
imprensa?


Assim, tomo a mesma liberdade em meter a minha colher no assunto com um foco
um pouco mais amplo e mais humano. (Ou quem sabe, mais divino?)


Como descrente, vejo que os animais também fazem parte da criação e
compartilham conosco a mesma matéria, a mesma divindade e o mesmo destino. Seja
na fome, na impotência contra as forças da natureza, ou nas doenças com as quais
Deus nos abençoou a todos, racionais e irracionais, só mitigadas por aqueles que
cultivam a ilusão de uma salvação fantasiosa, ou por nós outros, quem usamos a
nossa faculdade intelectual, mas desenvolvida pela evolução, a desvendar os
segredos da natureza que não são jamais ‘reveladas’ nos livros sagrados! Afinal,
escritos por ignorantes, só podiam guardar falsos segredos, pois conhecimentos
mesmo não tinham nenhuma a mais do que os outros. Apenas vontade de serem
prosélitos nas suas idéias irracionais e pregarem a matança pela pureza da
doutrina. Fossem adoradores do Sol, do Touro, do Bezerro de Ouro, de
Quetzalcóatl ou de Cristo. Nada de prático e útil estes poderosos no revelaram
fora a ilusão de serem melhor do que os outros aqueles que o seguissem, e
portanto legítimos matadores. Apenas para ganhar felicidade na terra ou uma vida
imaginária no céu.


O cão mais feio do mundo


Voltando ao cão, já diz o popular que quem ganha um amigo ganha a felicidade.
E é indiscutível que este animal representa e representou sempre esta figura de
um fiel companheiro na literatura.




Na luz do seu olhar tão lânguido, tão doce,


Havia o que quer que fosse


D’um íntimo desgosto:


Era um cão ordinário, um pobre cão vadio


Que não tinha coleira e não pagava imposto.


Acostumado ao vento e acostumado ao frio,


Percorria de noite os bairros da miséria


À busca dum jantar.


(Guerra
Junqueiro
)


‘Eu tive um cão. Chamava-se Veludo,


Magro, asqueroso, revoltante, imundo,


Para dizer numa palavra tudo,


Foi o mais feio cão que houve no mundo.


Recebi-o das mãos d´um camarada,


Na hora da partida. O cão gemendo,


Não me queria acompanhar por nada,


Enfim – mau grado seu – o vim trazendo.’


(Luiz Guimarães)


Responsabilidade pelos erros


Compartilhamos com estes amigos a mesma estrutura biológica baseada no DNA e
na anatomia comparada. Duas orelhas, dois olhos, uma boca e duas ventas.
Possuímos os caninos, e eles cinco dedos em quatro membros. Talvez apenas
percamos em fidelidade com o mesmo. Somos capazes de rejeitá-los, coisa que eles
não fazem facilmente. Mesmo assim, há quem não goste dos mesmos, ou os prenda a
uma corrente ao relento como se fosse uma máquina de segurança ou alarme.
Respondem à fidelidade com a indiferença e a frieza.


Mas esta é uma figura cultural ocidental. No oriente podem virar apenas
comida de gente, como na Coréia, como nós fazemos com a vaca, sagrada na Índia,
e feito bife nos outros locais.


Toda aquela fidelidade, todo aquele amor, transformada em um monte disforme
de comida para ser apreciada uma vez. E tem pessoas que vêem em nós uma origem
divina à parte da criação.


Uma questão a ser criticada por pessoas que se contrariam por este amor por
parte das pessoas, e alegam que deveriam pegar crianças abandonadas para isto.
Encerra em primeiro lugar uma questão errada de transferir para outros a
responsabilidade de sustentar o que não foi gerado por elas. Cada qual deve
assumir a sua responsabilidade pelos erros que gerou e não passar comodamente
para outros este hipotético dever. Mesmo que possa se alegar uma
responsabilidade coletiva, isto não cai nos ombros de pessoas que se apegam aos
animais de estimação de diversos tipos, muito menos pelos cães.


Jamais serão filhos


Para a pessoa que se apega, adota, compra um cachorro está suprindo uma
necessidade afetiva específica que não será preenchida por filhos ou por
crianças adotadas por obrigação duvidosas. Não são formas excludentes de
afeição. Uma criança não pode ser tratada como se tratam os cães. Não se pode
dar de comer comida de cachorro e nem se vestir crianças apenas com as roupas
dos mesmos. Não pode morar numa casinha no pátio ou deitar no chão em uma
almofada. Crianças necessitam de um compromisso muito maior, mais envolvente,
mais duradouro do que o curto período de vida de um cão. Não se podem levar as
mesmas para serem treinadas em um ou dois meses com um treinador e sua educação
ter terminada. Não se podem deixar as mesmas em um hotel de cães para viajar de
férias sozinhas. O custo financeiro e emocional é completamente diverso e
incompatível. Não se podem tratar crianças como cães e gatos. Nem crianças
tratam seus pais como simples donos retribuindo incondicionalmente o esforço
afetivo. Criam-se conflitos para o resto da vida nesta relação, ainda mais em
crianças adotadas. Assim como crianças não suprem este vínculo afetivo sadio que
pessoas têm com outros seres vivos, em especial por cães e gatos.


Portanto, quem possui animais de estimação, por melhor que os trate e estime,
jamais serão filhos ou equivalentes.

******

Médico, Porto Alegre, RS

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem