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Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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JORNAL DE DEBATES > TERRY EAGLETON

Ateístas de ocasião

Por Deonisio da Silva em 17/08/2010 na edição 603

O britânico Terry Eagleton, de 67 anos, é filósofo e crítico literário. Não navega na internet, não tem e-mail, não anda com celular e usa computador apenas para escrever. Ele faz falta na internet. Seus adversários intelectuais teriam muito a perder e sofreriam muito com suas tiradas irônicas. ‘Católico desde o berço e marxista desde a escola’, como o definiu Laura Greenhalgh, que o entrevistou para o Estadão (14/8, caderno ‘Sabático’, p. 4), disse que a onda de ateísmo atual começou no dia 11 de setembro de 2001. É que irrompeu ali um ‘absolutismo metafísico que colocou o Ocidente em xeque’. Em nome do Islã, pessoas doavam a vida, certas de que morreriam em troca de um bem maior.

Aos ateístas, ele dá um conselho que não pediram. Nas palavras da entrevistadora: ‘Em vez de desacreditar Deus e fomentar a islamofobia, é tempo de recuperar o melhor das tradições socialistas e judaico-cristãs, gerando pensamento ético.’

De sua autoria, a editora Civilização Brasileira está lançando O problema dos desconhecidos, e a Jorge Zahar, Jesus Cristo – os evangelhos. Ao criticar com veemência o biólogo Richard Dawkins, autor de Deus – um delírio (Companhia das Letras), ele diz: ‘Dawkins é um liberal respeitável, inclusive se manifestou contra a intervenção no Iraque’, mas ‘está no fundo contribuindo com a ideologia da guerra, ao investir de forma tão alucinada contra Deus.’ Acha também que os autores ateístas surgidos recentemente formulam falsas questões: ‘Quando o mundo começa efetivamente é uma pergunta para os cientistas, não para os teólogos. Até São Tomás de Aquino sabia disso.’

A política não se interessa pelas pessoas

É uma crítica nada sutil. Os autores que lideram o combate ao que entendem por Deus, nem sequer se dão ao trabalho de aferir se são maioria os cristãos que não aceitam a teoria da evolução e acreditam que Deus criou o mundo, lendo a Bíblia como se fosse um livro de ciências. Isso é coisa do século 19.

Eagleton teve um livro sobre teoria literária muito lido. A intelligentsia vivia outra época. Eram os anos 1960 e 70. ‘Havia uma atmosfera intelectual ambiciosa.’ E hoje? ‘Ficamos menos ambiciosos.’ E pergunta à entrevistadora: ‘Já percebeu como as pessoas não estão interessadas em formular questões fundamentais?’ E ela indaga: ‘Seria preguiça intelectual?’ Ao que ele responde: ‘Não é bem isso. As pessoas formulam grandes questões quando sentem que há chance de mudança lá na frente. Hoje as visões ficaram estreitas e de curto prazo, justamente quando o mundo mais se globaliza. A inteligência se retraiu, consequentemente a teoria literária também.’

Como se trata de um autor que é também professor, acrescenta: ‘Perdemos o nervo que nos fazia ousar. Meus alunos hoje só se interessam por cultura popular. Ou pela cultura da política, não pela política.’ E, criticando especialmente as alunas, diz que elas não querem saber do potencial transformador que o movimento de liberação da mulher teve nos anos 1960.

Conclui dizendo que as pessoas não se interessam pela política porque a política não se interessa por elas.

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Escritor, professor da Universidade Estácio de Sá e doutor em Letras pela USP; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e De onde vêm as palavras

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/08/2010 Alexandre Carlos Aguiar

    O grande problema, Jaime, é que quando o sujeito começa a se conhecer, entender suas mazelas, suas angustias, suas limitações, e não estiver preparado para isso, ele entra em choque. E a grande e imensa maioria procura as religiões. Quando se pergunta ‘qual o sentido da vida?’, é aí que a porca torce o rabo. Por isso que padres, pastores, gurus, mulás e todos os demais têm poder e são importantes em determinado segmento.

  2. Comentou em 19/08/2010 sergio ribeiro

    O filósofo está correto quando diz ‘(Dawkins) está no fundo contribuindo com a ideologia da guerra, ao investir de forma tão alucinada contra Deus.’ O exagero pode provocar uma reação ainda mais irracional nas pessoas. Porém eu, que não conheço Dawkins tão bem assim, sei que suas colocações não se reduzem a críticas contra criacionistas. Já o vi comentando sobre o absurdo de certas religiões cristãs que dizem curar doenças com águas dita milagrosas, prática antiquada e obscurantista.

  3. Comentou em 18/08/2010 Aquilino Paiva

    Oxente, depois de milequinhentos anos de guerras santas são os ateus que fomentam a islamofobia??? Quem queimou a biblioteca de Alexandria, cometeu genocídios, cruzadas, inquisições, holocaustos foram cristãos, judeus e mulçumanos brigando feio. Isso é má-fé. Essa foi de doer no meu coração ateu.

    Mas os comentaristas mataram a charada. Os ateus, que sempre ficaram escondidos no canto, começam agora se mostrar e falar o que pensam. Deus não existe, mas o apedrejamento vai rolar mesmo assim. Coloquem seus capacetes.

  4. Comentou em 18/08/2010 Alexandre Carlos Aguiar

    Pois é, Roberto Ferreira, meus filhos corroboram essa sua máxima: são, com certeza, ateus desde o nascimento. Eu me tornei, eles continuam. E não faz falta alguma em nossas vidas essa ‘res’ religiosa. Por isso, já que estamos aqui no nosso cantinho, quero saber que raios fizemos para nos incomodarem. Não estamos nem aí pra religiões e queremos que não nos encham a jabulani. E estamos conversados. Se o Seo Datena quer platéia, se esse sonso Terry Eagleton quer aparecer, que o façam pra sua turma, batam nos seus, encham a paciência daqueles que querem ser enchidos. Mas não incomodem quem está quieto. A propósito, ninguém deu endereço ainda desse tal de deus. Onde está?

  5. Comentou em 18/08/2010 Carlos N Mendes

    Pronto, começou… Deus contra ateus. É assim que nascem as guerras santas, e outras nem tanto.

  6. Comentou em 17/08/2010 Cléber Z. Martins

    É interessante ver ateus, questionadores por excelência, sentirem-se incomodados por serem questionados.

  7. Comentou em 17/08/2010 Marcelo Idiarte

    Eis que ligo a televisão há meia-hora atrás e, ao passar pela Band, tenho a infelicidade de ver José Luiz Datena novamente atacando os ateus! Ele ficou furioso porque uma das associações de ateus do Brasil está exigindo direito de resposta no programa dele, e voltou a ironizar e ofender os ateus. O mais incrível é que Datena diz coisas tipo ‘quem não acredita em Deus é gente do mal’ e em seguida diz ‘não estou dizendo que todos os ateus são gente do mal’… Vai entender? Isso é bem próprio de gente dissimulada, que diz algo e depois diz que não o fez, que foi ‘mal interpretado’. Se Datena não fosse tão lambe-botas dos Saad, já tinham limado ele da Band. Só que tem gente que efetivamente gosta de puxa-sacos. Agora Terry Eagleton vem dizer que os ateístas nasceram na queda do World Trade Center (!) – e Deonísio da Silva considera que ‘faz falta’ na internet um sujeito com tal elucidação intelectual. Tem dias que a gente acorda e acha que ainda está sonhando. Vou voltar para a cama.

  8. Comentou em 17/08/2010 Cristiana Castro

    Não entendi nada. O que tem a ver 11/09 com ateísmo? Qual a idéia? É um Deus Ocidental combatendo um Oriental? Alguma coisa do tipo, o islã vem com Deus para matar e a gente vai sem Deus? Tá confuso isso. E, o que é que tá acontecendo que, de repente, descobriram os ateus? ‘ tamos’ na moda?

  9. Comentou em 17/08/2010 Herman Cardom

    Sr Eagleton, parte da premissa de que os ateus estão em uma cruzada, à palavra cruzada neste ponto é propositalmente ambígua, que não lhes é de direito. Mas na verdade, todo o imbróglio em que estamos agora foi por atendermos demais as falácias da pré-suposta moral religiosa, seja ela judaico-Cristã ou Islâmica.
    Este senhor insinua que só existe ‘ética’ nas religiões e na crença em um deus pai e na punição do fogo eterno ou na esperança de um paraíso.
    Falácia,falácia, falácia…

  10. Comentou em 17/08/2010 Herman Cardom

    Sr Eagleton, parte da premissa de que os ateus estão em uma cruzada, à palavra cruzada neste ponto é propositalmente ambígua, que não lhes é de direito. Mas na verdade, todo o imbróglio em que estamos agora foi por atendermos demais as falácias da pré-suposta moral religiosa, seja ela judaico-Cristã ou Islâmica.
    Este senhor insinua que só existe ‘ética’ nas religiões e na crença em um deus pai e na punição do fogo eterno ou na esperança de um paraíso.
    Falácia,falácia, falácia…

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