Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES > MONTEIRO LOBATO E O RACISMO

Avestruzes, opiniões e fatos

Por Ricardo Antônio Lucas Camargo em 15/03/2011 na edição 633

O professor Muniz Sodré, ao treplicar ao jornalista Júlio Ottoboni, abandona a linha anterior de seus debates e vem a dizer:

‘Monteiro Lobato está agora em foco precisamente porque era um militante do movimento eugenista, com coragem para dizer o que pensava e sentia. `A escrita é um processo indireto de fazer eugenia´, repetia ele, como que deixando aberto o convite, para além do que explicitava em suas cartas, a que se pesquisasse o conteúdo subliminar eugenista em seus textos. Era, reiteramos, racista confesso, sem meias falas. Ignorância é o encobrimento desse dado histórico.’

Por que se encobre? Podem ser muitas as respostas, mas simplifiquemos um pouco com a hipótese da existência nas elites brasileiras de um ‘princípio do avestruz’, essa ave que, segundo a mitologia popular, enterra a cabeça na areia para não ver aquilo que teme. Na prática, o struthio camelus é bicho de visão e audição aguçadas, capaz de formidáveis patadas, se ameaçado. Mas o mito lhe atribui esse estranho comportamento, que costuma repercutir na vida real. A mídia, por exemplo, que é intelectual coletivo das classes dirigentes, caixa de ressonância dos fantasmas elitistas, sabe bem a hora de meter a cara no buraco.

Os diálogos entre D. Benta e seus netos

A partir deste momento, pois, vem a converter a obra infantil de Lobato em um instrumento de propaganda racista, fugindo, pois, da percepção inicial. No afã de provar sua tese, chega a caracterizar Lobato como dotado de um pensamento escravista, ao opô-lo aos próceres da abolição:

‘Ora, dirão, os tempos eram outros, até mesmo da pena esclarecida de um Sérgio Buarque de Hollanda partiu em certo momento (1920) um juízo negativo sobre a mestiçagem. Muito antes disso, entretanto, intelectuais brasileiros como Joaquim Nabuco e Rui Barbosa entenderam perfeitamente o papel desempenhado pelos africanos e seus descendentes na formação do povo nacional. Aliás, todos os próceres abolicionistas, claros ou escuros – Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, José do Patrocínio, Luiz Gama e outros – eram atravessados por uma espécie de `espírito´ educacional, que não podia comportar juízos `lobatianos´ sobre a condição negra.’

E, pelas tantas, chega a esta passagem:

‘havia a eugenia, nome da pseudociência surgida em fins do século 19, com o fim de `melhorar´ geneticamente a espécie humana, assim como se pode experimentar com animais. Era um anacronismo que arrefeceu nos EUA por volta dos anos 1930, transferindo-se para a Alemanha nazista, onde fez carreira. Além de anacrônico, era um pensamento violento, porque não disfarçava o desejo de morte do Outro considerado geneticamente inaceitável e, por derivação, culturalmente rebaixado pela consciência investida do pior do universalismo europeu’.

Ouso dizer que o diagnóstico está equivocado. A começar pelo dado de opor Lobato aos abolicionistas. Com transcrições, provei que, nos diálogos entre D. Benta e seus netos, o autor paulista deplorava o fato de termos chegado por último na abolição da escravatura. A necessidade de espaço para as próximas considerações obriga-me à remissão, para que os interessados procedam à leitura e façam o seu cotejo.

‘Tenho medo de não suportar o horror desta guerra’

Há, ainda, uma acusação de proto-nazismo em Lobato, quando se fala a respeito das suas ideias concernentes à eugenia. Neste particular, a partir de uma obra escrita para adultos (O Presidente negro), sete anos antes de Hitler ser eleito, o físico Teócrito Abritta – que, no geral, não tem má vontade para com o escritor – manifesta idêntico ponto de vista [http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=632CID006]. Vejamos o que Lobato pensava do papel da Alemanha na II Guerra Mundial em A chave do tamanho, escrito em 1942, quando o Estado Novo, sob a influência de Góes Monteiro, ainda flertava com o Eixo, livro no qual Emília interrompe o curso do conflito ao destruir do tamanho de todas as pessoas (tomo como parâmetro a edição de 1960):

‘Aqui morava o ditador que levou o mundo inteiro à maior das guerras, e destruía cidades e mais cidades com os seus aviões, e destruía cidades e mais cidades com os seus aviões, e afundava os navios com os seus submarinos, e matava milhares e milhares de homens com os seus canhões e as suas metralhadoras. O homem mais poderoso que já existiu. Tudo isso por quê? Porque tinha oito palmos e meio de altura. Assim que foi reduzido a quatro centímetros, todo o seu poder evaporou-se’ (p. 158).

‘O Tamanho morreu. E quem acabou com o Tamanho eu sei quem foi, e sei também que essa pessoa é a única que pode restituir aos homens o antigo e querido Tamanho – aquele tamanho malvado, porque se não fosse ele, os homens não teriam sido maus como foram, fazedores de guerras, incendiadores de cidades, afundadores de navios, judiadores de judeus’ (p. 161).

Veja-se, no mesmo livro, a fala que põe nos lábios de D. Benta:

‘A humanidade forma um corpo só. Cada país é um membro desse corpo, como cada dedo, cada unha, cada mão, cada braço ou cada perna faz parte do nosso corpo. Uma bomba que cai numa casa de Londres e mata uma vovó de lá, como eu, e fere uma netinha, como você, ou deixa aleijado um Pedrinho de lá, me dói tanto como se caísse aqui. É uma perversidade tão monstruosa, isso de bombardear inocentes, que tenho medo de não suportar por muito tempo o horror desta guerra’ (p. 6-7).

Os expoentes do pensamento alinhado ao fascismo

Claro que se poderá objetar que, como Lobato estava se referindo a Londres, somente consideraria os brancos como integrantes da humanidade. Mas, não fosse o dado de que a Tia Nastácia e tantos outros personagens negros tivessem sido atingidos pela perda do tamanho, restrita à Humanidade, a quem achar que isto não seria uma mensagem suficientemente clara, transcrevo, do próprio livro:

‘No mesmo instante, em todos os continentes, em todas as cidades, em todas as casas e ruas, em todos os navios e trens, os seres humanos derreteram-se como sorvete, dentro das roupas, mas de modo instantâneo, e as roupas ficaram no lugar, em `montinhos largados´, quase sempre com um chapéu em cima. E em substituição de cada criatura apareceu dentro de cada montinho de roupa um inseto bípede de várias cores – uns cor de rosa, outros amarelos, outros cor de cobre, outros pretos como carvão’ (p. 156).

Esta acusação, pois, é também improcedente.

Outrossim, o texto de Ottoboni, em momento algum negou as convicções raciais de Lobato. O que ele disse, objetivamente, foi que em vida não foi o caráter de ideólogo racista – que não está em sua obra infantil, repita-se – que se destacou: ‘Analisar o preconceito e os arroubos inflamados de Lobato fora do contexto de sua época é, no mínimo, um erro absurdo. Facilmente cometido, sem a menor cerimônia, num país hipócrita que se esconde sob rótulos. Colocá-lo como `bom escritor´ é então ignorar sua genialidade e os transtornos que essa condição lhe envolveu. Um `língua solta´, desmedido no que dizia, postura essa que o fez ser marginalizado por diversas vezes em sua própria época. Como ser impedido de ingressar na Academia Brasileira de Letras por duas ocasiões e ser preso por Getúlio Vargas. E isto não foi por seu preconceito racial, mas pela acidez de seus comentários e observações.’

Quais comentários e observações? Os referentes ao petróleo, às artes, à literatura. E é interessante verificar que um dos dados de que alguns se servem para tentar vislumbrar em Lobato um ícone da direita brasileira não serviria a este desiderato, pois muitos dos companheiros da vanguarda futurista representada por Anita Malfatti, cuja obra pictórica foi atacada por ele no artigo Paranóia ou mistificação?, como Menotti del Picchia, Cassiano Ricardo e Plínio Salgado, vieram a se tornar expoentes do pensamento mais alinhado com o fascismo (com o qual se alinhou prontamente o líder italiano do futurismo, Marinetti), notadamente o último, que chegou a fundar a Ação Integralista Brasileira.

O primeiro passo da terapêutica é o diagnóstico

A questão não é – ao contrário do que sustentou uma das comentadoras do texto de Júlio Ottoboni – varrer para debaixo do tapete o racismo de Caçadas de Pedrinho, mas sim, a incidência em uma verdadeira falácia de ênfase, ao se reduzir a obra lobatiana a uma simples questão racial, esquecendo que ela se volta, muito mais, a questões como a do combate a pseudo-técnicos que insistiam em dizer que não existia petróleo no Brasil (Lobato foi preso pelo Estado Novo por ter escrito, dentre outros, precisamente O poço do Visconde, no qual contrariava os interesses dos trustes do petróleo), a da valorização da criança como um potencial em si mesmo, e não como um simples papel em branco à espera de que Deus ou o Diabo nela escrevesse à vontade, a da possibilidade de uma relação entre adultos e crianças que não se fundamentasse no binômio terror/culpa, a da falibilidade do julgamento humano e a tendência natural dos maus juízes a propenderem para o mais forte, como se o mais fraco o fosse por uma verdadeira maldição divina. Por sinal, num texto de Heloísa Pires Lima que parte do pressuposto do racismo de Lobato, encontro esta passagem, que reforça o que digo:

‘não há como negligenciar que, para a história da presença de personagens negros no universo da literatura infantil, os textos que ele produziu foram inovadores, assim como o valor positivo para gênero, ou o protagonismo do idoso e outros aspectos que o exame atento pode, infinitamente, revelar’ (ver aqui).

Reduzir Lobato ao debate racial – infortúnio em que é acompanhado por seu contemporâneo vinte e cinco anos mais velho Joseph Conrad – é ignorar solenemente a postura elogiosa que ele teve em relação à política dos Irmãos Graco numa época em que estes eram considerados o acabado exemplo da destruição dos valores sagrados da propriedade, o papel que teve no despertar para o dado de que a questão social não era meramente um caso de polícia – o famoso discurso de Ruy Barbosa proferido no Teatro Lírico em 1919 principia com a referência ao Jeca Tatu –, na edição das obras de Lima Barreto quando este não era um autor disputado pelos demais editores e, ainda por cima, sofria o desprezo e a discriminação por ser mulato, seu papel no enfrentamento aos trustes do petróleo, que insistiam na tese da inexistência de petróleo no subsolo brasileiro.

O primeiro passo para qualquer terapêutica é o diagnóstico. Somente a sorte poderá responder pela adequação da terapêutica quando se identifica (1) doença em corpo sadio, (2) saúde em corpo doente ou (3) doença diversa daquela que realmente acomete o corpo.

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Advogado, Porto Alegre, RS

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  1. Comentou em 16/03/2011 Ricardo Camargo

    Sr. Teócrito Abritta,agradeço o comentário.Sem ingressar nas contingências pessoais de indivíduos que ocupem cargos na burocracia seja na Administração Pública,seja nas estruturas de tal ou qual partido,refiro as passagens atribuídas a D.Benta, dado que Lobato,quando assume a voz do narrador,nunca faz ressalvas ao dito pela boa velhinha.O traço de fraqueza desta, o senão desta,sem dúvida,é somente o ser medrosa diante do perigo – o que é prefeitametne natural em pessoas fisicamente fragilizadas pelo passar dos anos.Por isto que me pareceu que tais passagens viriam a traduzir não só o pensamento da personagem,mas o do próprio autor.Concordo que a falta do hábito de leitura,hoje-tanto que há algum tempo atrás escrevi um texto sobre o nascimento,em virtude da redução de toda a produção cultural a um vasto’fast food’internético,do ciberapedeuta,pretensioso com conhecimento superficial de todas as coisas e que opina sobre aspectos delas que realmente desconhece,rechaçando dogmaticamente qualquer refutação a suas preestabelecidas certezas como se fossem manifestações de titanismo,apostasia e heresia-,tem como um dos seus principais e deletérios efeitos a incapacidade de distinguir entre uma narrativa de ficção,uma narrativa histórica,uma descrição,uma dissertação e um simples’slogan’.

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