Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > DESABAMENTO NO METRÔ

Barganha e literatura na cobertura

Por Cássio Caetano Gusson Schiavi em 23/01/2007 na edição 417

A literatura é um espelho da sociedade e dos indivíduos que a compõem. Friedrich Engels, em carta a Karl Marx, afirma ter aprendido sobre a sociedade francesa muito mais em Balzac do que em todos os livros dos historiadores, economistas e estatísticos da época. Em outra instância, basta ler as páginas do célebre Decameron de Giovanni Boccaccio (1313-1375) para, dentre outros, analisar como pouco mudaram os princípios das atitudes e ações dos seres humanos. Esta analogia do escritor italiano pode ser aplicada ao jornalismo. Em especial na cobertura da tragédia ocorrida na Linha 4 do metrô de São Paulo.

Ao fazer uma cobertura que invadiu a área do sensacionalismo barato, todos os veículos de comunicação de massa que zelam pela credibilidade de sua informação repetiram os mesmos erros de sempre na cobertura de uma tragédia, transformando o fato num espetáculo que em nada contribuiu para a averiguação concreta e a apuração dos responsáveis.

A ‘desaceleração’ típica que ocorre nas últimas semanas do ano e primeiras semanas de janeiro no que tange a pautas e notícias impulsionou a ‘corrida’ pelos culpados já no primeiro dia do acidente. Funcionários foram entrevistados em locais obscuros; rachaduras em residências próximas transformaram-se em ‘manifestos de denúncia’ (cabe notar que as mesmas rachaduras sugiram antes do acidente, mas só agora viraram notícia); acidentes antigos ganharam novamente espaço para discussão; enfim, quem pudesse falar mal das obras da Linha 4 tinha razão e deveria ser ouvido. A procura das vítimas tornou-se uma saga nos moldes medíocres de uma novela mexicana e a exploração da dor chegou ao sadomasoquismo.

Numa tragédia que envolva vítimas sempre haverá pessoas desesperadas a procura de seus familiares ou amigos, e estes sempre terão histórias de alegrias e tristezas. A exploração dessa dor e dessas histórias como se elas fossem únicas em meio a humanidade é sensacionalismo barato e maniqueísmo infantil, além de um desrespeito com os próprios envolvidos no acidente, que têm sua vida exposta à população e sua individualidade distribuída com vistas ao aumento nas vendas ou da audiência.

Arma da dor

No jornal O Estado de S.Paulo passou a circular quase um caderno especial sobre o que convencionou-se chamar de ‘cratera’. Este caderno (‘Metrópole’) explorou ao máximo o episódio, fazendo da vida de cada cidadão uma odisséia na qual, diferente do livro de Homero, o Metrô é o único responsável pelo martírio. A Folha de S.Paulo, embora tenha condenado em editorial (15/1) o sensacionalismo na cobertura jornalística da tragédia, pouco se distanciou dele e ainda não decidiu se o veículo envolvido no acidente é uma van ou um microônibus.

A Folha tem o crédito de ter publicado em sua seção ‘Tendências e Debates’ dois artigos que dissertaram muito bem sobre o ocorrido. De autoria de Plínio de Arruda Sampaio (‘O contrato errado, na hora errada’) e de Alberto Sayão (‘Os acidentes na engenharia brasileira’), os textos são contextualizados e esclarecedores. O mesmo tom e apuração expostos nos artigos deveriam ter sido adotado pelo jornal, que também explorou as lágrimas e abusou da obscuridade quanto as causas do acidente.

Os jornais online foram ainda mais sensacionalistas divulgando em suas manchetes, toda hora, notícias que não traziam fatos novos e nem descobertas importantes. Um ‘posfácio’ dessa tragédia era transmitido pelos jornais das emissoras de televisão, que também, em momento algum, deixaram de usar a dor como arma de sustentação de audiência.

É fato que o consórcio contratado para realizar a obra é responsável pela tragédia, seja por negligência, seja por falta de zelo no trato da construção, seja por falta de fiscalização, seja por não ter evacuado a área etc. Culpa esta da qual não se eximiu (‘Comunicado à população’, sexta-feira, 19/1, publicado no Estadão e na Folha). Mas, como apontou o editorial ‘Plano de emergência’, da Folha, o maior erro foi o desrespeito para com os familiares e amigos das vitimas que não tiveram o tratamento adequado e foram pouco respeitados.

Seriedade e clareza

Não se pode também eximir da culpa – o que deveria ter tido uma atenção especial dos jornais – o governo do estado de São Paulo e a prefeitura da cidade, que são co-responsáveis pela obra e, de acordo com a Constituição estadual, supra-responsáveis pela segurança e bem-estar da população.

Num balanço geral de todo o contexto, é curioso constatar que o acidente ocorrido na barragem de rejeitos em Minas Gerais, tragédia de proporções muito maiores do que a da Linha Amarela do Metrô, foi tratado de forma extremamente sucinta, devido às suas proporções, pelos mesmos veículos de comunicação; e, muitas vezes, ficou em segundo plano em vista dos desabamentos e estragos feitos pela chuva na cidade de São Paulo.

Nenhum dos jornais enviou jornalistas ao local para averiguar as causas do acidente ou mesmo se preocupou em elaborar matérias especializadas e informativas sobre o tema. Será que o acidente no Metrô de São Paulo é mais trágico porque demanda menos custos em termos de cobertura jornalística e porque é mais ‘quente’ e ‘impactante’ do ponto de vista comercial da informação?

É notável que o limite entre sensacionalismo, informação investigativa e venda de exemplares/audiência é muito pequeno e, por vezes, conflitante. Mas a população espera sempre que este limite seja respeitado a fim de ser informada sobre os acontecimentos sem ter de ser submetida a estratégias de vendas e confusão de informações.

A literatura reflete o seu entorno e se torna uma janela aberta para o desconhecido. O jornalismo que se espera dos grandes veículos de comunicação do país deve, obrigatoriamente, tratar o desconhecido com seriedade e clareza, trazendo à população informações relevantes e concretas para que tenha subsídios para julgar como queira os responsáveis por esta ou aquela ação – e não para que seja inclinada a tomar partido contra os ‘malfeitores’ do Estado.

Pede-se que deixem as tragédias por conta da literatura. E que a informação não seja objeto de barganha.

******

Coordenador de Comunicação, Jundiaí, SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/01/2007 Kleber Carvalho

    O crédito não é da ‘Folha’, pois em seus quadros nenhum jornalista pode dizer tamanha heresia , eles tem que seguir a cartilha do OFF.

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