Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > BIENVENIDO, BIENVENU

Bem-vindo ao Observatório, Monsieur Ramonet

Por Alberto Dines em 20/11/2007 na edição 460

Em entrevista a Cláudia Antunes, editora de Internacional da Folha de S.Paulo, Ignacio Ramonet, diretor do Le Monde Diplomatique, proclamou a necessidade da criação de observatórios da imprensa na América Latina. Seu principal argumento: a mídia é o único poder que não dispõe de um contrapoder.




‘Os observatórios não têm o objetivo de censurar ou corrigir, mas de submeter os meios aos critérios de funcionamento jornalístico que eles próprios definem.’ (Folha, 18/11, pág. A-32)


Soa familiar? Pois é: a idéia de observação da mídia pela sociedade como forma de organizar um contrapoder vem sendo proposta desde 1994 com estas mesmíssimas expressões – primeiro pelo Labjor (Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp) e, a partir de 1996, pelo site Observatório da Imprensa e seus spin-offs, filhotes, o programa semanal de TV e o diário, de rádio.


Pena que Ramonet não pegou o espírito da coisa: o seu contrapoder e os seus observatórios ‘seriam formados por jornalistas, professores de comunicação e leitores’, enquanto que o conceito norteador deste Observatório da Imprensa é menos elitista, mais social, público.


‘Jornal dos Jornais’


O legítimo contrapoder ao poder mídia só pode ser oferecido pela sociedade já que ela é a destinatária dos meios de comunicação, portanto a mais habilitada para julgar os seus desempenhos e procedimentos. Jornalistas, por mais independentes que sejam, são obrigados a pensar em suas carreiras, raramente têm a disposição para discutir questões que desagradam o empresariado. E, aos professores de comunicação, geralmente falta a vivência profissional em redações.


A sociedade precisa ser treinada para adotar um ceticismo em matéria jornalística assim como foi treinada para o ceticismo político, artístico, religioso, esportivo ou econômico. Essa é a função de um observatório da imprensa ou, pelo menos, deste Observatório da Imprensa.


Quando, em 1977, a Folha de S. Paulo conseguiu retomar algumas das atrações que abandonara por exigência do ministro Armando Falcão e da linha-dura militar, a única coluna definitivamente encerrada foi o ‘Jornal dos Jornais’, uma espécie de observatório individual que conseguiu manter-se ao longo de dois anos, em pleno regime da autocensura. Falcão & Cia conheciam os perigos de ensinar o cidadão a ler jornal ‘de outro jeito’ – criticamente.


Mais detalhes


A entrevista de Ramonet é na realidade um compacto da sua aula-magna na Universidade de Sevilha, pronunciada pouco antes, em 26/10. Em nenhuma das duas lembrou-se de alertar para o perigo da partidarização da observação da mídia. O problema é este. Nos EUA, há watchdogs, cães de guarda, de direita e progressistas, cada um em seu galho, ninho, nicho. Falam para os seus respectivos públicos, não surpreendem. E, se não surpreendem, são maus jornalistas.


O verdadeiro contrapoder ao poder da mídia exige observatórios efetivamente não-alinhados, audazes, competentes, inesperados, equipados por um corpo equilibrado de críticos, concentrados na dupla tarefa de defender a democracia e a excelência jornalística.


Quando Ramonet afirma que ‘ele [Chávez] manteve até agora a sua linha de respeito absoluto ao funcionamento da democracia’ fica evidente que os seus futuros observatórios deverão optar por um minimalismo democrático agarrado apenas a eleições e referendos.


De qualquer forma, Monsieur Ramonet, seja bem-vindo ao nosso Observatório da Imprensa. Caso necessite de mais detalhes sobre o assunto, consulte os seguintes textos publicados neste OI:


** Um compromisso, uma história, um saldo – A.D. (2/5/2006, documentos fundadores do OI)


** A crítica da mídia, poder e contrapoder – A.D. (Intervenção no painel ‘Imprensa, Poder e Sociedade’, no encerramento do X Fórum Nacional do Instituto de Altos Estudos – BNDES, Rio, 11/5/1998)


** Quem fica no Quarto Poder? – A.D. (12/8/2000)


** Cartel embrulhado para presente – A.D. (20/9/2000)


** Sistema totêmico e sistema mediático, uma provocação – A.D. (Conferência pronunciada em 1/10/2000 no simpósio ‘Freud: Conflito e Cultura’ – Masp, São Paulo)


** O olhar cidadão – A.D. (16/5/2001)


** A mídia e o Brasil do século 21 – A.D. (Intervenção no painel ‘O papel da mídia na preparação do Brasil para o século 21’, no Centre for Brazilian Studies da Universidade de Oxford, 21-22/5/ 2001)


** Festa com sentido, o sentido de uma festa – A.D. (8/5/2002)


** Ombudsman é avanço, não é a solução – A.D. (15/5/2002)


** Críticos são mais livres – nem sempre – A.D. (15/5/2002)


** Conselho instalado, silêncio ostensivo – A.D. (3/7/2002)


** 85 anos de crítica da mídia – A.D. (20/11/2002)


** Deputados do PT devem desconfiar da mídia – A.D. (22/1/2003)


** O professor que lê jornais do nosso jeito – A.D. (12/2/2003)


** Crítica da mídia como solução de conflitos – A.D. (7/5/2003)


** A sociedade deve exercer algum controle sobre a mídia? – A.D. (4/5/2004)


** Do totalitarismo à democratização dos meios – A.D. (27/7/2004)


** Contra o denuncismo, o peleguismo – A.D. (10/8/2004)


** Despedida do Conselho de Comunicação Social – A.D. (19/10/2004)


** Conceitos de serviço público: media estatais e privados – A.D. (Comunicação apresentada em 11/1/2005 ao 6º Congresso Internacional de Jornalismo de Língua Portuguesa reunido em Lisboa, Portugal)


** Veja escorregou de novo. Agora com Severino – A.D. (6/9/2005)


** A crítica da imprensa é exigência da sociedade – A.D. (2/5/2006)


** Um compromisso, uma história, um saldo – A.D. (2/5/2006)


** O público como elemento ativo. E consciente – A.D. (12/9/2006)


** Como a mídia cobre a mídiaOI na TV, 28/3/2007

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/11/2007 Maurício Bittencourt

    Prezado Dines, parabéns pelo texto e pela empreitada corajosa do Observatório da Imprensa. Apenas lamento o preconceito em relação aos professores de comunicação. Concordo: há muita gente impondo verdades sem jamais ter pisado em redação. Mas conheço também vários profissionais que passaram a dar aula e deixaram as vaidosas redações por simplesmente não terem mais ‘estômago’. Não se trata exatamente do teu caso, pois criticaste os professores sutilmente, com alguma razão. Mas a soberba com que os profissionais ‘de redação’ costumam desdenhar os professores é prejudicial, apenas alimenta a cômica vaidade de quem não sabe nada, apenas repetir discursos vazios e marketeiros de fontes fáceis. No atual contexto de crise, os professores precisamos parar de criticar a imprensa gratuitamente e os ‘de redação’ precisam estudar um pouquinho de Teoria da Comunicação e Deontologia para, juntos, tentarmos salvar o q resta de dignidade na profissão de jornalista. Um abraço do Acre

  2. Comentou em 23/11/2007 Onildo S

    Dines, Ramonet tem razão. Sociedade é muito abstrato. O certo é ser ‘formados por jornalistas, professores de comunicação e leitores’. Aí já está englobada toda a ‘sociedade’ necessária. Afinal, o que os analfabetos e outros que não lêem jornal e não estão interessados em saber têm a acrescentar?
    Imprensa é feita para o leitor! Ele é quem tem de dar a palavra final! E não uma abstrata ‘sociedade’.

  3. Comentou em 23/11/2007 Onildo S

    Dines, Ramonet tem razão. Sociedade é muito abstrato. O certo é ser ‘formados por jornalistas, professores de comunicação e leitores’. Aí já está englobada toda a ‘sociedade’ necessária. Afinal, o que os analfabetos e outros que não lêem jornal e não estão interessados em saber têm a acrescentar?
    Imprensa é feita para o leitor! Ele é quem tem de dar a palavra final! E não uma abstrata ‘sociedade’.

  4. Comentou em 21/11/2007 Ricardo Camargo

    Primeiro, entendo que a tese de eventual partidarização do OI não tem qualquer procedência, principalmente diante da presença de articulistas e comentadores das mais variadas tendências, expressando-se livremente, como já observei (perdão pelo trocadilho) em artigo que publiquei sobre o OI, o pluralismo e o macartismo. Neste particular, portanto, permito-me divergir da Sra. Bela Prin. Segundo, como o sr. Marcelo Ramos, entendo que os debates sobre os textos, aqui, têm sido os mais livres possíveis, embora, às vezes, por conta da educação ou do fanatismo, venham a ser (não é a regra) contaminados pelo baixo nível do debate político tal como se trava no País afora. Quanto ao Prof. Francisco Hugo Vieira de Freitas, creio que houve um excesso no seu comentário, até porque parece partir do pressuposto de que observar a mídia seja uma atividade exclusiva de profissionais de comunicação social, e não de todos que são por ela afetados, de alguma maneira. Neste particular, o comentário do jornalista sr. Fábio Carvalho a meu artigo anteriormente citado foi muito feliz. E é exatamente por conta disto que penso que eventuais inferências desairosas acerca de quem quer que escreva nese espaço devem vir acompanhadas de provas robustas, até porque, conforme salientado pelo sábio de Koenigsberg, todo e qualquer indivíduo tem um atributo que faz dele um fim em si mesmo: a dignidade.

  5. Comentou em 20/11/2007 Jedeão Carneiro

    Assim como toda pessoa, física e jurídica, a mídia precisa é de lei. Para a imprensa, a lei tem que ser dura e aplicada com rigor para qualquer um, menos para ela e seus protegidos. Vejam a gritaria por causa da simples classificação indicativa ou qualquer tentativa de atualizar a legislação! Vejam a confusão criada em cima do projeto do Conselho de Jornalismo!

  6. Comentou em 20/11/2007 calypso escobar

    Podem crer que Dines vai observar as observaçóes dos observadores observados…’quelque choise’. Amo o Observatório da Imprensa,pois os jornalistas como Dines,Weiss e demais não adestram suas idéias às proféticas do GOV. Inclusive deixam os comentaristas racionalizarem como tolos e velhacos,pois sou uma delas suscitada no ‘calla la boca’ e nos deixam à deriva consagrando o desejo mórbido de estar contra ou a favor,isto alimenta-os e nos eleva o ego.Parabens e fóra os bloqueiros que temem postar nossas opiniões,talvez a deles sejam as verdadeiras e capazes.Continue Dines a provocar a situação terapeutica de seus comentaristas,nos faz bem e agradar gregos e troianos fica na inutilidade,bom? Grata

  7. Comentou em 20/11/2007 Francisco Hugo Vieira de Freitas

    Tribunal de Contas: ministros egressos da política indicados por políticos para fiscalizar os desmandos dos políticos. Tradução: raposas indicadas por raposas para tomar conta do galinheiro.
    Observatório de Imprensa (o do Dines): bla-bla-blá, bla-bla-blá, bla-bla-blá.
    Só hoje fiquei sabendo que os “jornalistas, professores de comunicação” que freqüentam o OI do Dines não o são. Surpreendente!!!
    E mais: Dines se recomendando ao Ramonet.
    Mais lá embaixo, um leitor declarou não saber como ainda lê Dines. Eu sei por que leio: ligo o babômetro e meço o nível de ódio dessa elite que não aceita que pobre dê certo, a não ser (e em segunda categoria) aqueles que aceitam a cooptação.
    E o babômetro está indicando que essa turma está doida por um golpe “democrático”, tal como o de 64.

  8. Comentou em 20/11/2007 Carlos andrade

    Precisaria existir um corpo disciplinador que policiasse a censura que os blogueiros exercem sobre os comentários relativos aos temas apresentados nos blogs. O objetivo daqueles comentários, parecem ingênuos mas NÃO O SÃO. Ocorre que quase todos eles estão servindo como INDUTORES E FORMADORES de opinião. Os blogueiros com Paulo Henrique Amorim e outros, instituem seus ‘Livrinhos Vermelhos’ , explícitos ou não, como o tal ‘Não Coma Gato Por Lebre’ e todos que não tecerem comentários de acordo com os dogmas do ‘Livrinho’, são glosados já na entrada e em pouco tempo, seus e-mails barrados já de antemão. Dessa maneira somam-se centenas de opiniòes dos que, inclusive por modismo, acolhem aqueles dogmas e pronto: voce criou um corpo, uma entidade viva, que recita os mesmos slogans. como: Imprensa Golpista, Farol de Alexandria, Serra-Presidente Eleito, PIG e outros termos, que funcionam como símbolos de união daquela massa de manobra. E porque nasce esse monstro parcial? Ora, porque não há quem vigie a ética do blogueiro. Dessa maneira este exerce, a seu bel prazer, censura aos que tem idéia diversa do seu ‘Livrinho’ doutrinário. E isso é antidemocrático e ANTI ÉTICO, fato que AINDA não está sendo observado PELO OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA. Mas estamos em tempo. Esperamos um dia termos verdadeiros debates nos comentários nos blogs e não apenas ovelhas se expressando.

  9. Comentou em 20/11/2007 Silvia Ambrósio Nogueira de Sá

    Admiro o trabalho deste Observatório, um espaço aberto para se discutir a mídia. Onde é possivel encontrar textos com diversos pontos de vistas. Dines observa a imprensa com olhos críticos, sem se deixar vislumbrar com o ‘poder’ e arrogancia dos meios de comunicação que se acham dententores da ‘verdade’, ao contrário, instiga o seu leitor a duvidar sempre das ditas informações imparciais.

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