Segunda-feira, 22 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
Menu

JORNAL DE DEBATES >

Biografia de biografias

Por Mario Sergio Conti em 16/06/2015 na edição 855

“Todo grande homem tem hoje discípulos, e é sempre Judas que escreve a sua biografia”, escreveu Oscar Wilde em “O crítico como artista”. O escritor parecia que falava dessa quizumba que foi parar no Supremo: “Antes canonizávamos os nossos heróis. O método moderno é vulgarizá-los. Edições baratas de grandes livros podem ser encantadoras, mas edições baratas de grandes homens são absolutamente detestáveis”.

Wilde era isento para falar de biografias. De um ângulo, era algoz. Escritor profissional, vivia de transformar pessoas reais e maçantes em personagens profundos, ainda que muitas vezes ridículos. Hilário e cruel, deu forma literária à impostura dos santarrões, à burrice dos abastados e à faina bufa dos parvenus. Magnetizava os salões com extravagâncias de dândi e verve de víbora. Como era um socialista que expunha com engenho e humor o ranço da crème de la crème, os remediados o queriam bem. Ainda em vida foi admirado pelos críticos porque suas peças, poemas e ensaios eram simultaneamente complexos e de rolar de rir.

Noutro prisma, além de algoz era vítima. Aristocrata, jovem, bonito, arguto, escandaloso, rico, ferino e inteligente, Wilde foi uma celebridade. Mais que isso: seu biógrafo mais reputado, Richard Ellmann, arrisca dizer que o escritor irlandês foi a primeira das celebridades, tais como as conhecemos hoje. Conta que as suas turnês pelos Estados Unidos abarrotavam teatros com multidões de fãs, que pagavam ingresso para desfrutar dos bons mots, da chispa, da iskra, do wit — da agudeza do escritor, a sua afiada arte escrita tornada desempenho, performance.

Na condição de celebridade, o autor de “O retrato de Dorian Gray” foi objeto da curiosidade de tietes, da inveja de ressentidos e da cobiça de bisbilhoteiros profissionais, os jornalistas. Numa Inglaterra vitoriana, pudica e hipócrita, Wilde era um alvo preferencial: sua mulher era adorável, tinha um casal de filhos mimosos e adorava transar com rapazes. E a homossexualidade era crime passível de prisão. Acresce que Wilde bebia demais, falava demais, provocava demais, fez inimigos demais. Ainda que sem sair do armário, fazia barulho demais lá dentro.

No auge da esbórnia, desfrutava do presente à larga. Mas temia o futuro, que ele entreviu no gênero literário que bombava, a biografia. Tanto que escreveu: “A biografia confere à morte um novo terror”. O resto é história. O caso com Lord Alfred Douglas fez com que enfrentasse um processo, passasse por um julgamento vexaminoso, que foi a festa da imprensa, fosse condenado a dois anos de trabalhos forçados, se exilasse e morresse pobre e sozinho. O resto é biografia: há nove livros que contam a vida de Wilde.

Proposição impossível

Há quem veja dignos precursores do surto biográfico em “Vidas dos imperadores”, escrita por Plutarco no século I, ou no Vasari de “Vidas dos artistas”, no XVI. É forçação de barra porque ambos dizem respeito menos a figuras e mais a processos — guerras e governos de Roma; o Renascimento em Florença.

Mesmo a primeira biografia moderna, “Vida de Johnson”, de James Boswell, do final do século XVIII, rompe uma norma fundamental do gênero: a do biografado ser maior que o biógrafo. Boswell foi um estilista de recursos, um artista inovador, que achou o seu tema num lexicógrafo obscuro, Samuel Johnson, que só é lembrado hoje pela frase “o patriotismo é o último refúgio de um canalha”.

A biografia é fruto tardio do romantismo, da tendência a ver no indivíduo a flor da vida. A mística dos grandes homens, que enfrentam o desconhecido e são laureados pela Fortuna, serve de alicerce invisível para a edificação de relatos de vida. Mesmo as biografias mais sóbrias têm algo de edificante. Quando elas mergulham com gosto no lodo do vivido, o edificado é o leitor: até que enfim lhe é revelado que o biografado é feito da mesma lama que ele.

Freud rendeu uma biografia a Ernest Jones que escondeu fatos desagradáveis para a psicanálise. Já a de Peter Gay contou tudo, mas suavizou as arestas de Freud com explicações. A biografia de Proust de George Steiner é envolvente e está cheia de erros, enquanto a de Jean-Yves Tadié, exaustiva e tediosa, parece um relatório. A trilogia de Isaac Deutscher sobre Trotsky insurgiu-se contra as falsificações stalinistas. Já a de Pierre Broué foi militante em demasia, e desandou às vezes para a hagiografia trotskista.

Biografias variam de qualidade. Mas elas são sempre complemento, apêndice à obra. É melhor ler “A origem das espécies” e “O capital” a qualquer biografia de Darwin e Marx. A proposição impossível é fazer a biografia de uma celebridade oca, frívola e obscurantista, que há décadas repete a mesma empulhação. Essa celebridade é personagem de Oscar Wilde, e não de biografia.

***

Mario Sergio Conti é jornalista

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem