Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > EDIR MACEDO

Bispo quer a carteirinha de jornalista

Por Alberto Dines em 02/03/2010 na edição 579

O bispo-empresário Edir Macedo insiste em ser jornalista. É dono de uma poderosa rede de TV, tem concessões para dezenas de emissoras de rádio, pode dizer o que quer, enganar, subtrair, distorcer, criar fatos e factóides. Mas não está satisfeito. Quer uma carteirinha de jornalista. Para atender suas angústias existenciais ou ganhar convite para as estréias de filmes.


Apelou para a justiça em 2001, conseguiu ser admitido como jornalista-colaborador e em agosto de 2009, depois de o Supremo Tribunal Federal acabar com a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo, entrou com uma ação no Tribunal Regional Federal da 2ª Região. O desembargador Fernando Marques o atendeu.


Errou o meritíssimo, data vênia: a entidade à qual Edir Macedo pretende associar-se (o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro) é composta exclusivamente por trabalhadores. Na condição de patrão, empregador – e aqui não vai nenhum juízo de valor –, Macedo não pode pretender a defesa dos interesses dos empregados. É incompatível.


Sindicato é, segundo o dicionário Houaiss, uma…




‘…associação, para fins de estudo, defesa e coordenação de seus interesses econômicos e/ou profissionais, de todos os que (na qualidade de empregados, empregadores, agentes ou trabalhadores autônomos ou profissionais liberais) exerçam a mesma atividade ou atividades similares ou conexas.’


Edir Macedo tem todo o direito de associar-se a um sindicato de empresas ou empresários. São seus iguais, conexos. Suas atividades e funções na Rede Record (ou em qualquer outro veículo do seu grupo) não são similares às dos demais funcionários. A começar pelo poder de admitir ou demitir que o colocam em posição desconexa frente aos demais companheiros.


Especificidade liquidada


Absorvido pelas novidades aportadas pela decisão do STF no tocante ao diploma, o magistrado passou ao largo dos condicionantes ontológicos e morfológicos de uma entidade sindical. A guilde francesa, guild inglesa ou gilde alemã eram corporações de artesões formadas na Idade Média, organicamente coesas e obrigatoriamente uniformes.


Segundo o mesmo Houaiss, corporação é um…




‘…conjunto de pessoas que apresentam alguma afinidade profissional, de idéias etc., organizadas em uma associação e sujeitas ao mesmo estatuto ou regulamento… Organismo social que reúne os membros de uma mesma profissão’.


A um comerciante de vinhos jamais ocorreria associar-se a uma corporação de vinhateiros. Um vende, o outro produz, ambos lidam com vinhos mas em diferentes posições do processo, com interesses divergentes.


Mesmo que Edir Macedo seja capaz de redigir corretamente um texto de 10 linhas como as centenas de jornalistas aos quais paga salários, o simples fato de ser o detentor de um meio de produção (e representar o capital), coloca-o em posição diametralmente oposta à daqueles que representam o trabalho. Não são categorias melhores ou piores – são diferentes, radicalmente diferentes.


Ao justificar a extinção da exigência do diploma, o ministro Gilmar Mendes do STF tentou ir além e liquidou a especificidade de uma profissão com registros históricos que remontam ao Império Romano. Agora, o egrégio Tribunal Regional Federal da 2ª Região avança na dissolução de um sindicato e anula sua definição e função social.


Estamos no bom caminho…

Todos os comentários

  1. Comentou em 04/03/2010 Luiz Carlos Cruz e Lima

    Estou ‘torcendo’ para que entre em vigor a lei que caracteriza o ‘Ato Médico’ para saber qual será a reação do Sr. Edir Macedo, pródigo em ‘curas’ televisivas.
    Talvez justifique como uma ‘ação do demônio’, figura fundamental da qual faz uso nas suas ‘lutas’.
    Para saber o que ele busca, basta seguir a ‘velha trilha do dinheiro’, que obrigatoriamente leva ao Poder.
    Se de repente a ignorância fosse eliminada do País por decreto, as estruturas nelas fundamentadas ruiriam como um ‘castelo de cartas’.
    O Tal Juir foi muiti infeliz…
    Uma rima triste!

  2. Comentou em 02/03/2010 Lau Mendes

    Tambem não gosto de quem esplora a fé alheia;mas convenhamos, um jabour a mais ou a menos não irá salvar a lavoura e até porque temos ‘jornalistas’ que não fazem a minima questão da carteirinha.O que fazem é o rascunho dos editoriais do ditos jornalões, muitos deles por telepatia captada, segundo dizem, no departamento de finanças.

  3. Comentou em 02/03/2010 Dante Caleffi

    Roberto Marinho, era ‘tratado ,como ‘nosso companheiro’, alcunha anterior aos ‘companheiros ,legitimados pelas atividades obreiras ou ideológicas. Contudo, era profissionalmente considerado jornalista e até mesmo as homenagens e logradouros que levam seu nome incluem seu status profissional. Por que não,o ‘bispo’Macedo? E se fosse ,’rabino’?
    Chateaubriand,Marinho e Macedo,pertencem a mesma casta e origem: a dos escroques bem sucedidos.

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