Sábado, 21 de Janeiro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº931

JORNAL DE DEBATES > Conjuntura nacional

Caim e o homem cordial

Por Alexandre Coslei em 26/12/2016 na edição 929

Atravessei a infância e a adolescência à sombra do Ato Institucional nº 5, o hiato da ditadura que alienou uma geração de jovens de todos os ideais políticos, das liberdades e do direito à expressão. Por uma dessas ironias da vida, cresci em frente a uma grande fábrica na Tijuca (a Brahma), que ficava ao lado do 1º Batalhão da Polícia do Exército, o temível DOI-Codi. Às sete horas da manhã, o apito da chaminé da fábrica me acordava, hora de ir para o colégio. No caminho, eu esbarrava com filas de operários iniciando a jornada de trabalho. Ao mesmo tempo, caminhava debaixo dos olhos soturnos de soldados em vigília. Formei minha consciência entre o proletariado e a repressão.

Da janela da sala de aula, me perdia em devaneios observando caixas de cerveja subirem e descerem pelas esteiras, acompanhadas pelo movimento frenético dos trabalhadores. Em breves intervalos, eu alternava os olhos para observar a calmaria bucólica do quartel, onde nada parecia acontecer e onde todo o mal acontecia nos subterrâneos que minha visão ainda inocente não alcançava.

Ao retornar da escola, percorria o mesmo caminho repleto de macacões brancos dos descontraídos operários que descansavam do almoço cochilando sob as amendoeiras; acima da minha cabeça, as sisudas fardas verdes do exército continuavam a vigiar a paisagem. A mesma rotina vivida por anos, num universo que me parecia simples, seguro e previsível. Em casa ou no colégio, neste período, não ocorriam conversas sobre política. Política e eleições são palavras que só ouvi como adulto. Na rua em que eu morava residiam também muitos militares de alta patente. Pouco os via e eles pouco interagiam com o dia-a-dia da comunidade.

Catecismo, Moral e Cívica e OSPB soavam como elementos obrigatórios na educação de uma criança da classe média tijucana. Cumpri todo o processo que visava a domar e programar as mentes que sustentariam o país do futuro. A existência refletia uma bolha de amenidades. Porém, alguns sinais já revelavam a alma da terra em que eu habitava.

Em 1977, durante uma aula de ciências, o professor flagrou um aluno negro conversando e rindo, perguntou qual assunto o distraía e o menino respondeu que comentava sobre o seriado do Batman. Então, o mesmo professor exigiu que o menino negro subisse ao tablado, cortou uma pequena máscara num papel cor de rosa e fez com que o garoto a colocasse e sorrisse. Terminou a tortura gritando que ali estava o Batman depois de queimado. As gargalhadas soaram alto na turma e eu só consegui sentir repúdio e horror daquela execração. A incubadora de serpentes já estava ligada muito antes que chegasse a abertura democrática e as discussões sobre a nossa real natureza.

Abertura

Os anos 80 trouxeram a lendária campanha das Diretas Já. O clima de euforia e debates sobre a realidade nacional explodiram como uma criatura que rompe, num salto abrupto, a casca do ovo. Finalmente, as cortinas começaram a se abrir para que enxergássemos o verdadeiro Brasil e o mundo. Veio o Brizola. Ouvir o Brizola foi receber uma machadada que me abriu a cabeça. Impossível qualquer indiferença diante daquele gaúcho destemido, voltando do exílio para nos ensinar sobre inclusão, sobre o valor da educação, sobre o respeito pelos pobres, enfrentando a Rede Globo de peito aberto, sabendo que desmascarava um grupo que apoiou duas décadas de uma ditatura covarde. Leonel Brizola foi o profeta que despertou muitos de nós. Talvez tenha sido ele que me fez consolidar definitivamente a crença na igualdade, fraternidade e liberdade.

Amigos entusiasmados vinham me contar sobre as maravilhas do socialismo. Hoje, muitos desses amigos são capitalistas e liberais desde criancinha. O dinheiro é um túmulo ideológico.

Collor, Itamar, FHC, Lula, Dilma e agora o governo usurpador e cínico do Temer. Os nossos passos foram evoluindo até este ponto em que gangues de políticos, armados pela ilegitimidade consentida, reiniciaram o desmonte e o retrocesso que devolve o controle dos cofres públicos aos tutores do poder. Não nos tolhem mais a liberdade, não precisam. Basta anunciarem que as instituições estão funcionando, é a senha para toda e qualquer barbárie que queiram impor. Ouvem as vozes das ruas, aquelas que atendem aos seus interesses. Para que OSPB e Moral e Cívica? A Globo, com o apoio dos movimentos de extrema-direita, molda as mentes que batem panelas e fazem o barulho incômodo. Para que um golpe militar quando temos Bispos e Bolsonaros à espreita? As sementes dos tempos de exceção não param de germinar.

O homem cordial

Um francês me disse que o Brasil é um país de xenófobos enrustidos. Como? Que absurdo! Não acreditei até testemunhar o episódio dos médicos cubanos, quase linchados ao desembarcarem aqui para nos ajudar a promover a saúde nas nossas cidades mais remotas. Não, não foi só uma reação corporativa de médicos egoístas. Foi xenofobia.

Não somos racistas? Somos piores, não aceitamos sequer oferecer a oportunidade das cotas, que não nos redimem do crime escravagista que perpetuamos enquanto foi possível. Somos homofóbicos. Somos misóginos. Somos violentos. Somos delatores. Cultivamos um forte preconceito de classe. Não aceitamos nenhum tipo de Bolsa Família que suavize a miséria. Preferimos doar migalhas por caridade a compartilhar riquezas. É o imenso abismo social que alimenta o contraditório delírio das nossas elites, que pensam pertencer ao primeiro mundo e creem ocupar o pódio pelo resultado justo da meritocracia. Somos Caim.

E onde está o homem cordial de Raízes do Brasil? Onde está a virtude que seria a nossa melhor herança para a humanidade? Para onde foi o nosso instinto de viver nos outros? Há quem afirme que ele foi torturado e morto em algum porão obscuro da história.

O homem cordial não poderia sobreviver numa nação que escolheu ser prostituta de cafetões rentistas. A prostituta que se apaixona, que ama os homens, não é útil aos ganhos do bordel. Da mesma forma, o Estado moderno não deve mais servir ao cidadão, mas ao mercado. As necessidades do Estado mínimo exigem, novamente, o descarte de qualquer relação sentimental e humana que o desvie do seu propósito maior: o lucro privado e restrito a poucos.

***

Alexandre Coslei é jornalista

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