Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

JORNAL DE DEBATES > MÍDIA VOLÚVEL

Carnaval, não! Horas mortas na TV, sim!

Por Deonisio da Silva em 04/02/2008 na edição 471

‘Perdoem-me os leitores se eu, de ordinário alegre, venho contar-lhes uma história triste, num dia em que todos estão predispostos ao riso; mas… que querem? Tenho uma natureza especial: o carnaval entristece-me, e o ‘Abre alas, que quero passar’ soa aos meus ouvidos como um canto de agonia e de morte.’

Esta é a abertura do conto História de um dominó, de Artur Azevedo. Como eu e tantos outros, ele também não gostava de Carnaval. Por isso, relevem este cronista. Vou escrever sobre outro assunto. Quem quiser ler o conto clique aqui, que os advogados o selecionaram para leitura às vésperas do Carnaval.

Eu estava assistindo à TV Record, era madrugada. Esqueci o dia, foi semana passada. A entrevista do governador do Paraná, Roberto Requião, foi a coisa mais interessante que encontrei para assistir, depois de ensaios de carnaval, entrevistas com celebridades, porrada de todos os tipos – como se sabe, isso se chama ‘filme de ação’.

Tudo mentira!

E Roberto Requião dizia uma coisa muito interessante. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, quando era senador, teve um filho com a jornalista da TV Globo Miriam Dutra. A mídia fez um pacto de silêncio e nenhum órgão noticiou o assunto. Era tabu. O menino tinha por volta de sete anos quando a revista Caros Amigos deu matéria de capa, em 2000.

Mas quando foi revelado, ano passado, que outro senador, o Renan Calheiros, teve um filho, no caso, uma filha, fora do casamento, também com uma jornalista, a mídia em peso crucificou o senador. Por que poupou um e crucificou o outro? Respondeu Requião: porque Renan Calheiros apoiava o presidente Lula no Senado.

O Brasil semelha ser um território livre para os amores, lícitos ou ilícitos, clandestinos ou escancarados. Tudo mentira! ‘Não existe pecado do lado de baixo do Equador’, proclama Chico Buarque numa conhecida canção. Existe, sim! Mas alguns são perdoados, outros jamais. ‘Quando é missão de esculacho, olha aí, saí de baixo, eu sou embaixador.’

As batalhas diárias

Pois é! Se o senador fosse contra Lula, receberia da mídia até indulgências plenárias, mas era a favor! A mídia quer o governo Lula de joelhos diante dela, esta é que é a verdade. Qual é a prova dos noves? Esqueceram Renan! Notas frias, vacas quentes, pensões pagas em dinheiro vivo, tudo foi pro brejo. A mídia conseguiu o que quis: tirar Renan Calheiros de lá. Pronto! Nem se importou mais com o mandato dele, pode continuar lá, desde que amestrado, imobilizado, destituído dos poderes que tinha. Mas mentiram aos leitores: disseram que Renan Calheiros tinha que sair de lá porque pegava o dinheiro público e se locupletava, inclusive com a mulher e a filha que mantinha fora do casamento.

Há um ponto, um furo, que está muito mais embaixo. Por que a mídia faz algumas coisas e deixa de fazer outras? Precisamos ver a quem ela serve procedendo assim. Nos bastidores, já se conhecem indícios de seus estranhos poderes.

A mídia está mudando de lugar e de funções. Você quer se informar? Escolha bem o seu jornal e sua revista, veja quem são os que ali escrevem, sobre o que escrevem, o que dizem e o que fazem.

Quanto à televisão, prestemos atenção às diversas batalhas da terceira guerra mundial que nela são travadas todos os dias. Redes de televisão substituíram os tanques que iam para as ruas depor governos!

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Doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é vice-reitor de pesquisa e pós-graduação e coordenador de Letras; seus livros mais recentes são Os Segredos do Baú (Peirópolis) é A Língua Nossa de Cada Dia (Novo Século)

Todos os comentários

  1. Comentou em 11/02/2008 José Antônio Berta Antunes

    Este texto é manobra diversionista ou algo parecido? Só um ideologismo doente pode explicar uma comparação tão exdrúxula como esta! A mídia não é santa, mas querer nos manipular fazendo do Renan uma vítima é desmerecer o pingo de inteligência que o articulista imagina que tenhamos.

  2. Comentou em 11/02/2008 Marcelo Ramos

    Pois é, Deonísio. Eu tenho essa edição da Caros Amigos. E faz tempo que ‘seleciono minhas fontes’. A imprensa de hoje funciona como em uma cidade do interior do Brasil da década de 30, exatamente igual. Apesar de toda a tecnologia (embora a internet esteja detonando a credibilidade da imprensa), o modelo de negócios é o mesmo do início do século XX, se não anterior. Só muito eventualmente a imprensa brasileira soube o que significa imparcialidade. De 20 anos pra cá, jornal é como dizem alguns articulista daqui: só serve pra embrulhar peixe… e sem trocadilhos.

  3. Comentou em 04/02/2008 Teresa Leonel Leonel

    Longe de querer cobrir o sol com a peneira, a mídia tem sim um lado questionável de ser. No entanto, o caso Renangate parece fazer parte de uma exceção. Até porque, até onde conhecemos, por acaso o filho de Fernando Henrique Cardoso está sendo ou foi sustentado por empreiteira? Há algum lobista nesse processo? Vou mais além… por que temos de buscar erros anteriores para justificar erros atuais como se isso fosse suficiente para explicar as atitudes dos políticos? Quem disse aos nobres intelectuais brasileiros que a nossa sociedade em geral é radical quando o assunto é adultério de políticos? Afinal, nossa cultura eleitoreira não se baseia na moral e decência dos nossos representantes quando o assunto é família. Se assim o fosse, não teríamos um parlamentar em Brasília ou no resto do país. Para os americanos, sim. Isso seria um enorme escândalo…Agora, é bom lembrar que a mídia instigou sim o debate em relação a pensão alimentar da filha do Renan Calheiros pelos motivos que são de interesses da sociedade. Quem paga o pato? E falando em mídia golpista… ora vamos deixar de tolice… golpista foi o discurso do PT e seus pares que “venderam” a imagem de um partido TOTALMENTE contra corrupções e a favor dos anseios da população. Um discurso que perpetuou durante anos. E foi por esse discurso que eu e muitos brasileiros depositamos nossos votos na urna.

  4. Comentou em 04/02/2008 Elenice Oliveira

    Esta matéria e comentário (1), responde à pergunta do Observatório: ‘Ministra da Iguadade Racial foi vitima do Racismo.’
    A imprensa não age com imparcialidade.Por esta razão PH Amorim chama setores da imprensa de ‘PIG’, Partido da Imprensa Golpista, é só visitar o blog dele e a resposta para a pergunta também pode ser encontrada lá.
    O que está no foco é que o público começa a entender que a imprensa molda noticias, manipula e, sendo assim falseia verdades, engana, silencia. Por quais interesses?O caso Firmino Barbosa o motoboy que levou 11 tiros pelas costas é um deles. Como a imprensa se comportou neste episódio e em tantos outros?Depende das pessoas envolvidas se forem influentes, brancas, ricas e se forem do mesmo grupo social, que detém o poder da midia no Brasil.

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