Domingo, 18 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

JORNAL DE DEBATES > AGITOS URBANOS

Cavalos e outras chinesices

Por Alberto Dines em 08/02/2014 na edição 784

Reproduzido do El País Brasil, 8/2/2014; intertítulo do OI

Pelo zodíaco oriental o ano lunar começado em 31 de Janeiro tem como símbolo o equino e segundo os seus astrólogos deverá ser um tempo de movimento, mutação e transformação da realidade. O ano anterior, da Serpente, entre outras exigências, pedia ações precisas para evitar rupturas. Se Junho de 2013 foi uma revolta contra os scripts rígidos, inflexíveis, este início de 2014 está sendo um festival de surpresas e fortes sacolejos.

A roteirização excessiva trouxe um efeito perverso, pelo menos em matéria política: deu a impressão de que tudo estava decidido e o povo era desnecessário. O povo está atento, se importando e em movimento. Estamos num dos momentos mais trepidantes de nossa história recente. Quaisquer que sejam nossas crenças ou preferências astrológicas.

Nos próximos nove meses, nada será insignificante ou irrelevante. O Mundial de Futebol e as eleições, juntos ou separadamente, estão condenados a funcionar como gigantescas lentes de aumento, tudo visível, forçosamente transparente, palpável, perceptível. E facilmente fiscalizável.

Candidatos, partidos e governos vão suar a camisa. Para os governados – nós – será um maná: as autoridades e respectivas máquinas estão condenadas a adotar finalmente o regime de tempo integral movidas por um zelo e esmero que sempre desprezaram. Recolhidos os tapetes, difícil será varrer algo para debaixo deles.

Além do umbigo

Impossível saber se as elites dirigentes da China (tão bem sucedidas nas últimas décadas) dão alguma atenção ao horóscopo ou outros recursos esotéricos. As nossas, a pretexto de um pragmatismo ocidental, são exímias em tropeços. E isso vale para qualquer esfera de poder, tanto nas oposições como na situação.

Com possantes cavalos ou lerdos rocinantes importa atentar para o estado do material utilizado em nossa carruagem republicana. Um calendário eleitoral regular não garante a renovação das instituições. Fadiga e ferrugem acometem simultaneamente os contendores e seus arsenais. Sem a disposição de renovar não se atende às dinâmicas geradas por uma sociedade que aos poucos começa a familiarizar-se com a noção de movimento.

Em qualquer calendário e inspirados por quaisquer símbolos, mitologias e horóscopos, os próximos meses parecem destinados a servir de cenário para enredos inéditos. Nosso próprio cotidiano, já indica situações insólitas. Convém acostumar-se, exercitar-se. Tomadores de decisões terão que adotar cautelas, buscar recônditas sabedorias, tentar habilidades jamais experimentadas. Para desativar situações-limite, contornar paroxismos e, sobretudo, olhar muito além dos próprios umbigos.

Em plena era digital, o cavalo chinês nos oferece a rara oportunidade de preservar o instinto analógico.

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