Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

JORNAL DE DEBATES > A guerra de narrativas

A cegueira universal em um mundo tomado pelas imagens

Por Maura Oliveira Martins em 13/09/2016 na edição 920

Como todos sabemos (e sentimos), os tempos atuais estão mais sombrios que de costume. Os ânimos acirrados fazem que qualquer consenso acerca de qualquer coisa pareça um sonho distante. A missão – ao menos no plano do ideal – fundante do jornalismo, a de falar objetivamente sobre o mundo, parece cada vez mais uma tarefa ingrata, uma vez que as convicções de cada indivíduo determinam aquilo que ele pretende ver.

Curiosamente, nunca tivemos tantas imagens, tantas versões e visões de tudo. Temos olhos tecnológicos espalhados em todos os lugares, temos câmeras escondidas em quase todos os prédios – ou seja, o mundo está todo recoberto pelo visível, passível de ser documentado, controlado, monitorado. Diferente do que acreditávamos um dia, a perspectiva de “capturar tudo” nos tornou mais cegos – ou, para ser mais justa, menos lúcidos quanto àquilo que vemos.

Muito perspicaz, um quadro do Programa do Porchat abordou – com menos ironia do que deveria, creio – essa grande quantidade de “velhas opiniões formadas sobre tudo”. Um dia após o resultado da votação do impeachment pelos senadores brasileiros, Fábio Porchat apresentou um quadro em que convidava membros de sua plateia para um jogo: eles deveriam ver pessoas aleatórias que foram entrevistadas na rua e adivinhar, antes que elas falassem qualquer coisa, se tal indivíduo era a favor ou contra o impeachment.

O resultado é bastante impressionante: ele aciona o espectador a revisitar os estereótipos dos quais compactua. Ou seja, convida cada um de nós a encarar as imagens pré-concebidas que funcionam como “lentes” pelas quais filtramos o mundo. Por consequência, é bem possível que as nossas impressões sejam as mesmas da plateia de Porchat: quem apoia o impeachment é o rico, o privilegiado, o conservador; quem é contra o golpe é o oprimido (em vários aspectos), o jovem, o que está à margem. A grande questão é: como chegamos a tais conclusões apenas olhando o semblante de uma pessoa – e em que medida os meios de comunicação corroboraram a estas impressões?

Ora, nunca tivemos tanto acesso à informação. Nunca vimos tantas coisas acerca do mundo. A onividência – a capacidade de tudo vermos – é garantida a nós, sobretudo, pelas máquinas que estão em todos os lugares, mas dificilmente nos perguntamos sobre as consequências de tantas visões. Tal qual os iluministas, acreditávamos que, quanto mais víssemos as coisas, mais a verdade se esclareceria, mas o resultado foi o oposto: quanto mais se espalham os nossos olhos pelo horizonte, mais parecemos enxergar apenas aquilo que queremos ver.

O celular como arma

O resultado de tantos olhos não é a clareza, mas sim a nebulosidade; uma guerra de narrativas, como menciona Eliane Brum, ao analisar o discurso acerca das Olimpíadas do Brasil. Vejamos, por exemplo, um desses registros pipocados durante essa semana, que gerou a notícia da agressão à senadora Vanessa Grazziotin durante um voo. Chegando em Curitiba após o dia da votação final do impeachment, ela foi, segundo contaram testemunhas, agredida verbalmente por um advogado que dividia o mesmo voo. Saca, como reação, a “arma” (a melhor de todas nestes tempos de onividência) que tinha em mãos: um celular.

Temos apenas 15 segundos deste registro, que mostra um homem bem apessoado, que conversa com outros passageiros, com ar de deboche. Ao se virar, ele aparentemente se dá conta de estar sendo filmado. A vigilância, como sabemos, já foi naturalizada em nosso ambiente, mas ainda assim sabemos instintivamente que uma câmera é uma arma, no sentido de que pode destruir muita coisa em pouco tempo. A primeira reação do homem é um sinal de positivo com a mão, ainda debochado; em seguida, ele avança em direção à câmera e encerra o registro.

Hoje somos tão experts nesses registros que eles quase nada nos dizem, pouco nos chocam. A agressão que ele apresenta, ou sugere, já se tornou algo corriqueiro, banalizado. O vídeo provoca os sentidos e a imaginação, pois mais sugere que revela. Mas o mais chocante é que nos sentimos já pouco chocados a este tipo de registro – ou, o que é pior, ele se rende às quaisquer visões, normalmente polarizadas. Em outras palavras, ele se atrela àquilo que o “vidente” quer ver. Alguns veem a evidência de uma agressão, outros se sentem representados no deboche do homem em cena (afinal, esses “comunistas” merecem mesmo ser hostilizados, não é mesmo?).

Diferente do que imaginávamos, a multiplicidade de imagens e versões não nos ajudaram a ficarmos mais esclarecidos, mas o contrário. Chegamos, por fim, a um estágio de uma cegueira coletiva dos que tudo veem.

***

Maura Oliveira Martins é  jornalista, professora universitária e editora do site  A Escotilha

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