Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > ENTREVISTA / ROSA FREIRE D’AGUIAR

Celso Furtado e a cultura

Por Mauro Malin em 23/07/2012 na edição 703

Comentário para o programa radiofônico do OI, 23/7/2012

 

Foi lançado no Rio de Janeiro no início do mês e será lançado nesta segunda-feira (23/7) em São Paulo o livro Ensaios sobre cultura e o Ministério da Cultura, com ensaios, entrevistas e debates de Celso Furtado, ministro da Cultura no governo Sarney entre 1986 e 1988, um dos intelectuais latino-americanos mais importantes do século 20. O volume foi organizado por Rosa Freire d’Aguiar, jornalista e tradutora emérita, viúva de Celso.

Nesta entrevista ao Observatório da Imprensa, Rosa classifica como “um tanto esquizofrênico” o comportamento da mídia durante o período em que Celso Furtado foi ministro da Cultura, quando ele adotou o ponto de vista de que o debate sobre o desenvolvimento e o subdesenvolvimento deveria ser ancorado pela questão cultural.

 

O Ministério da Cultura é um organismo do governo que reúne artistas e intelectuais, que por sua vez têm muita importância e influencia na mídia. Eu gostaria de saber se ao fazer esse livro você se deparou com esse fenômeno, se já existia na década de 80 esse fenômeno, como era?

Rosa Freire d’Aguiar – Na década de 1980 era muito diferente, porque, pelo contrário, o Ministério da Cultura era muito pichado, digamos assim, pela mídia. O que me chamou muito a atenção agora, quando eu estava fazendo esse volume, é que em todas as entrevistas que o Celso dava, praticamente todas, havia aquela pergunta: “Mas para que existe o Ministério da Cultura?” Todos os jornalistas, embora fazendo entrevistas com o Celso, questionavam a existência do Ministério da Cultura, e curiosamente era quase que um bordão os jornalistas questionando por que existia o Ministério da Cultura. Então, o ministério, de um lado, era muito presente na mídia, não como é hoje, mas ao mesmo tempo era presente para ter questionada sua existência. Era uma coisa muito estranha, uma coisa meio esquizofrênica, digamos, e os jornais, de modo geral, eu tenho aqui em casa os jornais com os editoriais dizendo “Está na hora de acabar com o Ministério da Cultura”.

A ideia era a seguinte: num país que passa fome não tem sentido ter Ministério da Cultura, o que era uma visão completamente míope, porque não tinha nada a ver. Exatamente no momento em que o Brasil estava se reencontrando com a democracia, era exatamente nesse momento que tinha que ter o Ministério da Cultura, mas era muito difícil alguém perceber isso. Agora, evidente, era um ministério que já nasceu polêmico, eu tenho a impressão, e sempre um ministério muito presente na mídia.

Junto a artistas e intelectuais havia ainda essa coisa muito dúbia dos intelectuais dizerem não ver sentido no ministério num país que passa fome, num país que tem problemas pra resolver. Eu acho [que eles sentiam] um pouco o medo do novo, curiosamente, os intelectuais, a gente conhece vários, a gente sabe o que é isso. Os jornalistas também têm no fundo certo medo da novidade.

Era um momento delicado, um momento em que o Brasil estava saindo da ditadura, a gente ainda era regido pela Constituição da ditadura, não foi um momento muito fácil, não, era a imprensa de um lado questionando demais a existência do ministério, achando que não tinha que haver, ao mesmo tempo todo dia notinhas sobre o Ministério da Cultura. Muito curioso, presente na mídia, sem duvida, presente entre os intelectuais, mas para ser pichado.

[NOTA: O livro será lançado por Rosa Freire d’Aguiar nesta segunda-feira (23/7) às 19 horas, com debate, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.]

***

Mensalão no STF

Começa daqui a dez dias o julgamento do processo do mensalão. Na quinta-feira (2/8) da semana que vem. A quantidade de material publicado sobre o assunto, em boa parte por iniciativa de defensores dos réus, começou a se erguer como uma onda ainda discreta. Mas vai se agigantar a cada dia.

No próximo fim de semana, jornais e revistas virão, presumivelmente, com reportagens e análises ainda calcadas em raciocínio frio. Mas do dia 2 em diante, a emoção e as paixões começarão a dar a tônica. O tiroteio midiático, que promete recompensa em audiência, fará alguns jornalistas afrouxarem mecanismos de checagem das informações. “Em tempo de guerra tem mentira como terra”.

Prepare-se, leitor.

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