Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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JORNAL DE DEBATES >

Circo de horrores

Por Rita de Cássia Arruda em 16/06/2009 na edição 542

Os reality shows viraram moda e invadiram de vez nossa tela. Esse é um fenômeno que se verifica em todo o mundo, não apenas no Brasil. Sua fórmula foi importada – desembarcou por aqui há pelo menos uma década – e seu principal objetivo é a busca desenfreada pela audiência. O assunto está na pauta do dia de jornais, revistas, da mídia eletrônica, da internet e até de estudos acadêmicos.

Não há como negar: todos estão ‘de olho’ em programas como Big Brother, Dez Anos Mais Jovem, Esquadrão da Moda, Troca de Família, A Fazenda e outros tantos do gênero. Mais um está sendo anunciado para os próximos dias, na Globo. A febre do momento é bisbilhotar o que acontece na vida do outro; na casa do vizinho. Trata-se da invasão da privacidade alheia elevada à categoria de espetáculo. Quem assiste e participa de programas desse tipo – votando em fulano ou eliminando sicrano, por exemplo – pouco se importa se ele é educativo ou não. Para estas pessoas, o que conta mesmo é o prazer de estar interagindo, ainda que no fundo essa interatividade não passe de ilusão. Ainda que a curiosidade se restrinja a programas em que ‘somente’ se futriquem as misérias e mazelas da vida de outro alguém.

O que a grande maioria parece não perceber é que, no final das contas, quem decide mesmo são os patrocinadores. As regras do jogo são ditadas por eles. Ao mesmo tempo em que o telespectador ‘interativo’ atira no sujeito que está no ‘paredão’, vai igualmente consumindo marcas e produtos anunciados pelas indústrias ou instituições que patrocinam esse tipo de programa, sejam eles os serviços do banco Itaú, os chocolates da Nestlé ou os tênis da Nike.

Invasão coletiva de privacidade

O caso do Brasil é particularmente interessante. O país soma cerca de 40 milhões de lares com TV e não seria exagero dizer que o brasileiro possui uma cultura eminentemente televisiva: vive e foi formado num país cujo espaço público é totalmente dominado pela TV. Reside aí exatamente o ‘X’ da questão: a separação entre público e privado. É aí que o bicho pega! Existe nesse caso uma clara dicotomia entre o sentido de público e privado.

Assim sendo, ‘público’ é tudo aquilo ‘aberto’ ou ‘acessível ao público’. Todo ato visível ou observável na frente do espectador; para quem quiser ver ou ouvir. ‘Privado’, ao contrário, supõe privacidade: é aquilo feito ou dito longe da vista alheia, entre quatro paredes. Os reality shows, estranhamente, parecem subverter esta ordem: o que era para ser privado, doméstico, passa a ser de domínio público. Milhares de olhos curiosos diariamente espiam pelo buraco da fechadura e acompanham cada mínimo passo dado pelos participantes de tais programas. A privacidade deixa então de existir.

É curioso isso. Por que será que tanta gente aceita participar desse tipo de reality show, escancarando sua privacidade à curiosidade alheia? Seus participantes parecem não se importar com a invasão coletiva de privacidade desse tipo de ‘circo humano’. Chega a ser compreensível essa fome de fama súbita que algumas pessoas têm, mas o preço a ser pago em tais circunstâncias certamente é alto demais. Haja mico!

Se a moda pega…

Até porque essa notoriedade que os reality shows proporcionam no mais das vezes é efêmera; realmente passageira. Nem todo mundo que participa de programas como o Big Brother Brasil, por exemplo, entrará necessariamente depois na próxima novela das oito ou posteriormente integrará o elenco de estrelas da Globo. Muitos voltam para o anonimato de onde saíram quando o programa acaba. Mas nem só de BB vivem os reality shows. Talvez ainda pior que ele sejam os programas que exploram as fraquezas humanas, expondo seus participantes ao ridículo extremo.

Como se não bastasse todo esse circo de horrores, eis que não mais que de repente somos surpreendidos com notícias nos dando conta das bisbilhotices do Google Street View. Diferentemente do espião dos estúdios de TV, esse invade as ruas das mais diversas cidades mundo a fora. É a profecia de H. G. Wells se cumprindo. Dá-lhe, 1984! Duvidar, quem há de? Trata-se da invasão da privacidade alheia com tudo o que ela tem de mais perverso. Ninguém escapa aos olhos curiosos do ‘Grande Irmão’ (Big Brother), de famosos como Paul MacCartney ao mais absolutamente anônimo dos mortais. Estamos todos na mira dos bisbilhoteiros de plantão. Sir Paul, segundo noticiou a imprensa mundial, pediu ao Google que retirasse as imagens de sua casa do ar. Em resposta, o Google teria dito que ‘tem quem goste dessa exposição pública’.

No Brasil, pelo que se sabe, ao menos por enquanto, nossa gente ‘linda e trigueira’ está a salvo da invasão. Se a moda pega… Ai, meu Deus! Estamos fritos no azeite quente!

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Jornalista, Brasília, DF

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