Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > CASO GLAUCO

Cobertura com muitos equívocos

Por Beatriz Caiuby Labate em 30/03/2010 na edição 583

A morte do cartunista Glauco colocou o tema da ayahuasca em evidência no debate nacional, talvez como nunca antes tenha ocorrido. Num primeiro momento, exceto pouquíssimas exceções, observou-se um comportamento respeitoso da mídia em relação ao Santo Daime: é como se um cantor famoso tivesse morrido e, nesta ocasião, fosse revelada uma faceta sua pouco conhecida do grande público: o pertencimento a uma determinada minoria religiosa. A mídia mostrou os fiéis cantando músicas religiosas no enterro, divulgou cânticos sagrados ‘recebidos’ por Glauco, procurou conhecer sua personalidade como líder religioso e a história da igreja que criou, assim como dos grupos ayahuasqueiros em geral. Paradoxalmente, parecia que era a primeira vez que o Daime era retratado na mídia não como um problema ou questão, mas figurava apenas como simples religião – legítima, como tantas outras.

Em seguida, começaram a aparecer as primeiras contradições e tensões envolvendo o caso, como a versão falsa divulgada pelo advogado de Glauco. O enfoque sobre a religião em si, contudo, manteve-se neutro. É possível especular que isto se dê em função, de um lado, da violência do episódio e, de outro, da tristeza gerada pela perda de um personagem tão talentoso e querido por todos. Tais fatores, possivelmente, conferiram um certo manto de proteção especial na abordagem deste tema que geralmente levanta tantas polêmicas.

‘Santo Pirlimpimpim’

Com a revelação de que o crime fora cometido por um ex-membro da igreja e a proliferação de declarações do assassino e da família, naturalmente uma série de questionamentos começaram a ser feitos – o que é saudável. Neste momento, contudo, ocorreu uma passagem brusca de uma boa parcela da mídia para uma nova fase, onde voltou à tona, sem a menor cerimônia, a velha abordagem preconceituosa e estereotipada que tem pautado o debate público sobre as drogas.

Muito poderia ser dito sobre isso. Luciano Martins Costa, no artigo ‘Daime, ignorância e preconceito‘, publicado em 22/03/2010 neste Observatório, destaca com propriedade que a reportagem da revista Época (edição 618, de 20/03/2010) foi bem melhor do que a da Veja (edição 2157, de 24/03/2010). Mas não podemos levar a sério demais a Veja, que há menos um mês e meio publicou a seguinte nota sem assinatura (edição 2150, de 3/2/2010):

‘Liberado oficialmente pelo governo brasileiro o consumo do santo daime, o chá lisérgico que faz a cabeça do pessoal da nova era com a promessa de abrir a seus seguidores as portas do autoconhecimento. O daime causa alucinações pesadíssimas, provocadas pela dimetiltriptamina, substância presente no cipó da ayauasca, planta que serve de base ao daime e é venerada por seus entuasiastas. O governo diz que autorizou o pessoal a ficar viajandão para respeitar a liberdade religiosa. Cabe a pergunta: se alguém criasse uma religião batizada, digamos, Santo Pirlimpimpim, baseada em aspirações mágicas da cocaína, o Planalto também oficializaria o consumo?’

Facilidade de acesso a armas

Na época, escrevemos uma nota de repúdio a esta e outra reportagem, publicada também neste Observatório. A reportagem recente da Veja sobre a morte de Glauco segue o mesmo tom da nota anterior, dando continuidade, coerentemente, à linha editorial adotada por esta revista para tratar o tema há pelo menos duas décadas. Em suma, oferecer uma abordagem melhor do que a Veja não é grande mérito. A reportagem da revista Época me parece mais problemática do que a da Veja porque aparenta tratar o tema de forma equilibrada e neutra – e não explicitamente má intencionada – confundindo, neste sentido, muito mais. Eis aqui a série de equívocos:

** A capa manipula e confunde ao apontar o Daime como provável desencadeador do crime. Poder-se-ia, no máximo, sugerir que um quadro problemático (casos de esquizofrenia na família, família desestruturada e uso abusivo de drogas) que eventualmente teria sido agravado pelo consumo da ayahuasca. Mesmo assim, trata-se de especulação, uma vez que não se conhece ao certo os detalhes;

** O texto em si apresenta mais nuances, porém a ênfase em indagar a relação entre ‘consumir a ayahuasca e matar’ revela o tradicional dispositivo anti-drogas que marca o debate público sobre o tema. A pergunta poderia ser, por exemplo: ‘Até que ponto uma família desestruturada de classe média contribui para um desfecho deste tipo’?;

** A ênfase obsessiva no ‘perigo da droga alucinógena’ também deixa de lado a discussão de temas relevantes para entender o caso, como a renda gerada pela proibição do uso de drogas e a facilidade de acesso a armas, além da violência urbana;

Ayahuasca e substâncias psicoativas

** O dispositivo antidrogas revela uma diferença de pesos e medidas: até que ponto renderia uma reportagem sobre o assassinato de um líder da umbanda por um ex-membro, ou a violência associada ao uso de álcool, ou problemas psiquiátricos advindos do consumo de medicamentos controlados legais?;

** O texto apresenta de forma desproporcional a versão da família e dos integrantes do Céu de Maria sobre os fatos. Não ficamos sabendo por quanto tempo, com que frequência e em que condições Cadu teria frequentado o Santo Daime;

** Reproduzem-se acriticamente as acusações das correntes ayahuasqueiras entre si, como se fossem parte da ‘apuração dos fatos’, evidências ‘dos problemas da expansão do CEFLURIS’. Boa parte destas críticas, como se sabe, são produto de disputas por autenticidade e pureza, típicas de qualquer campo religioso;

** Confunde ao afirmar que ‘dois filtros de controle teriam falhado no caso de Cadu’, uma vez que não se deve ‘consumir a ayahuasca sob efeito de bebidas alcoólicas ou outra substância psicoativa’. Não sabemos se Cadu consumia a ayahuasca simultaneamente com outras drogas. Além disto, pouco se conhece sobre a interação da ayahuasca com outras substâncias psicoativas do ponto de vista científico, dificultando o estabelecimento do diagnóstico psiquiátrico de Cadu;

Discursos de cura e de conversões

** Dá voz a supostas denúncias de ex-membros do Santo Daime sem nenhuma investigação, contribuindo para desqualificar o grupo e o debate. O que os eventuais casos extraconjugais de um líder de uma igreja daimista numa igreja do Rio de Janeiro tem a ver com um crime ocorrido em São Paulo?;

** O abre ‘o doido, o daime e o crime’ contribui para a estigmatização de pessoas com problemas psiquiátricos. Além disto, não há laudo médico que revele que Cadu seja esquizofrênico. Recordemo-nos que no começo da cobertura sobre o caso os familiares não sugeriram isto;

** O reducionismo no entendimento da doença mental passa ao largo discutir até que ponto os esquizofrênicos causam crimes e até que ponto são vítima de violência de terceiros;

** Embora se afirme que Cadu vinha de uma família problemática, não há uma reflexão crítica explícita sobre a estratégia de defesa do acusado, declarada formalmente pelo advogado que seria ‘culpabilizar o Daime’;

** Requenta o antigo escândalo de Alícia Castilla, sem informar claramente que ela levou a sua filha para tomar Daime e, sobretudo, que perdeu a sua causa na justiça. Também omite que ela é uma militante pela legalização do uso da cannabis, o que é uma informação importante no debate polarizado sobre o uso de drogas;

** Não apresenta dados concretos sobre o suposto aumento da procura do Daime por dependentes. Sabemos que os dirigentes dos grupos afirmam haver esta procura, mas do ponto de vista objetivo não podemos afirmar que o Daime é mais solicitado do que outras denominações religiosas para atender este tipo de demanda. Sabemos também que as religiões são espaços classicamente marcados por discursos de cura e de conversões;

Estigmatização de uma minoria

** Não fornece um bom histórico da regulamentação do uso da ayahuasca no Brasil, e não menciona os mecanismos de controle existentes no contexto destes grupos. Existe uma forte cultura de preparo e consumo da ayahuasca, todo um saber empírico e teórico acumulado que não é destacado. Se a intenção fosse contribuir para o debate de maneira séria, seria necessário contextualizar melhor o crime como uma exceção dentro da realidade empírica do consumo da ayahuasca no país e propor uma crítica construtiva a partir do ocorrido;

** O texto é acompanhado de um box de Paulo Nogueira, ‘O daime, o vodu e o confucionismo’, o qual explicita uma tese que aparece apenas difusa na reportagem, que é a de questionar o mérito da própria religião do Santo Daime. O autor despreza e ridiculariza o Daime, chamando-o de ‘religião primitiva’, ‘produto de um delírio’, ‘crendice’, ‘transe depressivo’, ‘música rústica’, ‘palavreado que faz de Lula um Bilac’. Repete assim o clássico discurso etnocêntrico e preconceituoso contra as religiões de origem popular e incita à guerra religiosa, além de sugerir sem base em nada que a expansão do Santo Daime poderia levar o país ao caos;

** Contribui para a estigmatização de uma minoria religiosa, já bastante perseguida.

Como observaram meus colegas do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoactivos (NEIP), em evento de lançamento do livro Drogas e Cultura: Novas Perspectivas, realizado em 23/03/2010 no Centro Cultural São Paulo, em São Paulo (ver aqui), onde também foi lida uma homenagem ao líder assassinado (ver aqui), Glauco, depois de morto, é re-assassinado pela mídia, passando de vítima a algoz.

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Antropóloga, pesquisadora associada do Instituto de Psicologia Médica da Universidade de Heidelberg, Alemanha , membro do Grupo Especial de Pesquisa (SFB 619) ‘Dinâmicas do ritual – Processos socioculturais sob uma perspectiva comparativa histórica e cultural’, pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoactivos (NEIP) e co-autora, co-organizadora e autora de oito livros sobre o uso de substâncias psicoativas

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