Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > RELATOS DE GUERRA

Cobertura com uma só fonte

Por Cláudia Dutra Nicácio, de Estocolmo (Suécia) em 16/01/2007 na edição 416

Referências Bibliográficas

DORNELES, Carlos. Deus é inocente: a imprensa, não. São Paulo: ed. Globo, 2003.

Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros: www.fenaj.org.br.

Este artigo contrapõe oito passagens do Código de Ética do Jornalistas Brasileiros com o capítulo Al Jazira vs. CNN e alguns relatos isolados do livro: Deus é Inocente: a Imprensa, não, de Carlos Dorneles. No livro, Dorneles faz uma análise detalhada de matérias veiculadas nos principais jornais brasileiros e norte-americanos durante a cobertura pós-11 de setembro.

De acordo com o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros:

‘Art. 2º – A divulgação de informação, precisa e correta, é dever dos meios de comunicação pública, independente da natureza de sua propriedade.

Art. 3º – A informação divulgada pelos meios de comunicação pública se pautará pela real ocorrência dos fatos e terá por finalidade o interesse social e coletivo.

Art. 5º – A obstrução direta ou indireta à livre divulgação da informação e a aplicação de censura ou autocensura são um delito contra a sociedade.

Art. 7º – O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade dos fatos, e seu trabalho se pauta pela precisa apuração dos acontecimentos e sua correta divulgação.

Art. 9º – É dever do jornalista:

e) Opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos do Homem.

f) Combater e denunciar todas as formas de corrupção, em especial quando exercida com o objetivo de controlar a informação.

Art. 10. O jornalista não pode:

b) Submeter-se a diretrizes contrárias à divulgação correta da informação.

Art. 14. O jornalista deve:

a) Ouvir sempre, antes da divulgação dos fatos, todas as pessoas objeto de acusações não comprovadas, feitas por terceiros e não suficientemente demonstradas ou verificadas.’

O Código de Ética foi votado em Congresso Nacional, está em vigor desde 1987 e fixa normas às quais os jornalistas devem subordinar-se em suas relações com a comunidade, fontes de informação e entre jornalistas. Mas, isso acontece?

Dorneles (2003), usando como embasamento os principais veículos de comunicação do Brasil e do mundo, acompanhou a cobertura jornalística durante o pós-11 de setembro. Ele relata em seu livro fatos fundamentais ocorridos na guerra e como eles foram transmitidos pela imprensa ocidental, com destaque especial para os jornais brasileiros. Com a análise de apenas um capítulo do livro de Dorneles, é possível entender sua linha de pesquisa, ter uma imagem clara de como foi a cobertura da imprensa brasileira e fazer uma pergunta, que dentre outras, não será respondida neste artigo: para que serve o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros?

De acordo com Dorneles, a imprensa brasileira seguiu os passos da imprensa norte-americana, a qual, por sua vez, fez a cobertura que interessava ao governo dos Estados Unidos – o que poderíamos chamar de ‘cobertura com uma só fonte’. Para a imprensa brasileira, a fonte também era uma só: agências de notícias. Vejamos os fatos: a TV Al Jazira foi fundada em 1997, em Catar, com o objetivo de contrabalançar a influência da Arábia Saudita, que já era histórica na mídia daquele emirado. A emissora teve o sucesso do monopólio quando começou o ataque ao Afeganistão e foi a única a registrar os ataques aéreos, e sempre com imagens exclusivas – como, por exemplo, o ataque a Cabul do dia 9 de outubro de 2001 – enquanto as outras emissoras, obedientes ao governo norte-americano, colocavam no ar as tão comuns imagens das luzinhas verdes ou pacotes de ajuda caindo no Afeganistão.

Os depoimentos em vídeo de Bin Laden foram os primeiros furos jornalísticos da Al Jazira; até então, esses vídeos eram desconhecidos da opinião pública ocidental, novidade que incomodou a Casa Branca. O secretário de Estado, Colin Powell, deu o primeiro sinal de que a emissora seria combatida fortemente ao pedir que ela tivesse ‘moderação’. No dia 29 de setembro a Al Jazira foi citada em matéria do Estadão, na qual se dizia que a emissora era considerada uma das mais simpáticas ao Talibã e a Bin Laden. As fontes desta matéria, e de tantas outras, eram as agências de notícia e o motivo da afirmação era o fato de a Al Jazira ter noticiado a prisão de agentes norte-americanos a partir de uma fonte relacionada à Al-Qaida. Ou seja, por ter fontes, a emissora começa a ser acusada de terrorismo!

A inexistência de ‘fontes para confirmar’

Autoridades dos governos norte-americano e britânico foram convidadas pela Al Jazira e deram entrevista à emissora. O primeiro-ministro britânico, Anthony Blair, o secretário de Estado e o de Defesa dos Estados Unidos, Colin Powell e Donald Rumsfeld, falaram sem censura dos valores ocidentais, sobre suas posições políticas e contra o antiamericanismo. O presidente Bush também foi convidado, mas não respondeu. A emissora tentava mostrar que seu objetivo não era apenas divulgar os vídeos de Bin Laden, pois ela dava voz aos dois lados da guerra.

E a CNN? E os jornais brasileiros? Era de se estranhar que a CNN e as televisões ocidentais não tivessem manifestado interesse em mostrar as imagens de guerra da Al Jazira. Segundo o apresentador do principal noticiário da emissora, as imagens foram oferecidas, mas a resposta foi que elas chocariam a opinião pública ocidental. A abordagem brasileira foi completamente em desacordo com os artigos 2 e 9 (letra ‘f’) do citado Código de Ética dos Jornalista Brasileiros.

O Talibã anunciou, em 22 de outubro de 2001, que um helicóptero norte-americano tinha sido derrubado durante um ataque a Kandahar e a rede de TV Al Jazira confirmou a informação e mostrou destroços que seriam do helicóptero. Abdul Salam Zeef, embaixador afegão no Paquistão, declarou no dia seguinte que outro helicóptero tinha sido destruído. O Departamento de Defesa norte-americano negou que os helicópteros tivessem sido derrubados.

Sobre este assunto a Folha de S. Paulo, baseada em agências de notícias, publicou que ‘não há fontes independentes capazes de confirmar essas possíveis perdas norte-americanas no Afeganistão’. De acordo com Dorneles, as informações de ataques bem-sucedidos do Talibã, ou denúncias de mortes de civis, eram seguidas da frase ‘não há fontes independentes para confirmar’. Esse artifício foi usado pelas agências internacionais, pela imprensa norte-americana e pela brasileira em todos os momentos da guerra. Entretanto, a mesma expressão jamais foi utilizada quando as informações vinham do lado norte-americano, mesmo quando pareciam absurdas.

A Al Jazira continuou com as reportagens sobre os bombardeios norte-americanos, que incluíam áreas habitadas por civis. De acordo com a letra ‘a’ do artigo 14 do Código de Ética, os jornalistas deveriam ouvir sempre, antes da divulgação dos fatos, todas as pessoas objeto de acusações não comprovadas, feitas por terceiros e não suficientemente demonstradas ou verificadas.

No dia 13 de novembro de 2001, a sucursal da Al Jazira em Cabul foi destruída por um míssil lançado por norte-americanos, que não explicaram coisa alguma e nem revelaram qual era o alvo. As agências de notícias apenas deram informações vagas e relacionaram a proximidade da sucursal a bairros que teriam baterias antiaéreas do Talibã. Não houve investigação – nem por parte da imprensa brasileira, nem de qualquer outra. E o mais impressionante é que, cinco dias depois, o Estado de S.Paulo reproduziu uma matéria do New York Times com o título: ‘Al Jazira ajuda a fomentar revolta islâmica.’ E, em tom de release, acrescentava: ‘A Casa Branca está tentando resolver o problema do papel que a Al Jazira desempenha na crise atual. Mas o que vemos sugere que não vai ser fácil abrandar seu tom incendiário’.

O que o jornal quis dizer com tom incendiário? Ao que consta foram os EUA quem incendiaram a sucursal da Al Jazira.

Outras matérias divulgadas na imprensa brasileira

Dois dias após os atentados de 11 de setembro de 2001, a manchete do Estadão foi: ‘EUA responderão ao ato de guerra’. Em O Globo, seis dias antes do ataque ao Afeganistão: ‘Talibã com os dias contados’. Dia 8 de outubro, em manchete do Jornal do Brasil: ‘Aliados dão início à vingança’ e, em título de abertura de página, ‘Talebans recebem o troco americano’.

Dois dias após iniciada a guerra, Donald Rumsfeld, secretário de Defesa norte-americano, festejou a chamada por ele ‘supremacia aérea americana’ e, seguindo o ritmo, a manchete da Folha de S. Paulo foi: ‘EUA controlam espaço aéreo’. Todos os títulos assumiam as posições de Bush. Por que a imprensa brasileira não foi mais apurativa? Não seriam a imparcialidade e o compromisso com a verdade dos fatos velhos ‘jargões’ do jornalismo, o dever desses jornais? É o que também está descrito no artigo 7º do Código de Ética.

O equipamento bélico norte-americano, com seus famosos mísseis e bombas de alto poder de destruição e precisão, eram citados pela imprensa a todo momento, mas nunca descritos como desproporcionais ao país ‘inimigo’. Os textos eram sempre a respeito de uma guerra sem vítimas inocentes e sem erros, devido à alta tecnologia e precisão do equipamento norte-americano. Porém, como diz Dorneles, ‘uma guerra que só existiria na mídia’. A revista Veja divulgou, em matéria logo após o início da guerra, que os EUA ‘esfarelaram’ o aparato militar do Talibã e que ‘na primeira semana do confronto entre o míssil Tomahawk e o fundamentalismo islâmico, os barbudos estavam tomando uma tremenda surra’. A revista Época classifica o ataque norte-americano como legítimo e escreve: ‘A resposta aos atentados de 11 de setembro inaugura um novo caminho para a primeira guerra do século 21’.

A julgar pelas manchetes parecia que o Brasil era completamente a favor da guerra ou que estava profundamente envolvido em uma vingança pessoal. De acordo com a letra ‘e’ do artigo 9 do Código de Ética, é dever do jornalista opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos do Homem. Não foi o que fizeram vários dos jornalistas brasileiros, que se contentaram com as habituais fontes das agências de notícias ou com a reprodução das reportagens dos jornais norte-americanos. Eles não deram voz ao outro lado da guerra e não foi por falta de possibilidades – afinal, a própria TV Al Jazira, atacada pela imprensa brasileira, ofereceu material. Estas matérias estavam de acordo com o interesse do governo norte-americano, e não com o interesse social e coletivo, conforme orienta o artigo 3 do Código de Ética.

‘O Afeganistão voltou a ser o Afeganistão de sempre, sem qualquer interesse para a mídia ocidental. As notícias esparsas referem-se a atentados esporádicos ou brigas entre facções dos assim chamados pela imprensa, ‘senhores da guerra’. O derrotado nunca conta sua história para a História’. (DORNELES, 2003, p. 41).

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