Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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JORNAL DE DEBATES >

Cochilos e preconceitos na cobertura da mídia

Por Mário Augusto Jakobskind em 25/01/2005 na edição 313

De que forma a grande mídia tem dado cobertura à área militar? Esta pergunta deveria merecer alguma reflexão dos editores e também dos pauteiros, um setor vital na rotina do noticiário diário. Nos últimos anos, órgãos de imprensa que nos chamados anos de chumbo compactuaram com o arbítrio, têm apresentado as Forças Armadas de forma visivelmente preconceituosa. Qualquer jornalista ou mesmo cidadão medianamente informado sabe muito bem que, a partir dos anos 1990, a potência hegemônica, os Estados Unidos, tem dado ênfase à política de enfraquecimento e liquidação dos exércitos latino-americanos (sem esquecer que, no período da Guerra Fria, os mesmos Estados Unidos utilizaram os setores militares, brasileiro e latino-americano, para defender interesses vinculados ao grande capital).

Ou, então, como é desejo recente do(s) governo(s) estadunidense(s), transformar as Forças Armadas dos países latino-americanos em meras forças policiais com a função de combater o narcotráfico e o terrorismo.

Foi o que aconteceu na 6ª Conferência de Ministros da Defesa das Américas, realizada em Quito, em novembro passado, quando o secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, tentou de todas as formas que se aprovasse a formação de uma Junta Interamericana de Defesa com a finalidade de combater o ‘terror regional’. Esse projeto acabou brecado graças à firme oposição de Brasil, Argentina, Venezuela e Canadá. O fato não mereceu o destaque devido, muito menos serviu de gancho para aprofundar a discussão da relevante matéria do papel das Forças Armadas. Qual foi o motivo? Desinteresse, preconceito, falta de visão jornalística ou apenas cochilo?

Outro fato solenemente ignorado pela mídia e que, sem dúvida, mereceria a máxima atenção, por seu grande interesse jornalístico, foi a recente visita de uma comissão de militares brasileiros ao Vietnã. A informação não seria difícil de ser obtida. Bastaria um pauteiro atento fazer uma incursão ao site do Exército Brasileiro para ficar sabendo que o Estado-Maior do Exército, por proposta do Comando de Operações Terrestres (Coter), enviou comitiva militar ao Vietnã.

Armação do Pentágono

Segundo o Exército, ‘a visita teve por objetivo realizar os contatos com as Forças Armadas daquele país e viabilizar, em futuro próximo, intercâmbios sobre a Doutrina da Resistência nos níveis estratégico, tático e operacional’. Além de Hanói foram visitadas as cidades de Haiprug, Ho Chi Min – antiga Saigon – e a província de Cúchi, que abriga 250 quilômetros de túneis construídos na Guerra do Vietnã. A comitiva foi composta pelos seguintes oficiais: coronel Luiz Alberto Alves Rolla, do Coter, tenente-coronel Moraes José Carvalho Lopes, do Centro de Instrução de Guerra na Selva (Cigs), major Cláudio Ricardo Hehl Forjaz, da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, e capitão Paulo de Tarso Bezerra Almeida Simões, do CIGS.

Pesquisa mais apurada, neste mesmo site, poderia destacar uma entrevista concedida pelo general-de-Exército Cláudio Barbosa de Figueiredo, chefe do Comando Militar da Amazônia. O oficial não escondeu que o Brasil vai recorrer a ações de enfrentamento semelhantes às de países como o Vietnã e o Iraque, em caso de conflito na Amazônia. Segundo Figueiredo, ‘a estratégia da resistência não difere muito da guerra de guerrilha e é um recurso do qual o Exército não abrirá mão num possível confronto com país ou grupo de países com potencial econômico e bélico maior que o do Brasil’. E acrescentou: ‘(…) se deverá contar com a própria selva tropical como aliada para o combate ao invasor’.

Nem seria necessário acionar analistas castrenses para concluir que as palavras do general Figueiredo e a ida da comissão militar ao Vietnã para estudar in loco a resistência ao invasor estrangeiro deve ter desagradado profundamente o Pentágono.

Em vez disso, coincidentemente ou não, no mesmo período da visita ao Vietnã, jornais e TVs que apoiaram a ditadura militar deram o máximo alarde a fotos supostamente do jornalista Vladimir Herzog sendo torturado em dependências do Exército. Posteriormente comprovou-se que as fotos não eram de Herzog e que estavam disponíveis há tempos, mas só naquele momento vieram à tona. Pouco tempo depois, por coincidência ou não, câmaras da TV Globo mostraram a queima de arquivos da repressão em dependências militares na Bahia. Como conseguiram chegar lá, praticamente no mesmo momento da queima, que pela lógica seria ação fechada a sete chaves? O fato, como não poderia deixar de ser, teve grande repercussão e remeteu à discussão sobre a divulgação de arquivos secretos do período autoritário no Brasil.

Orientação deliberada?

Poucos foram os órgãos de imprensa que tentaram aprofundar o motivo pelo qual, de repente, não mais do que de repente, (re)apareceram fotos, que já eram conhecidas há tempos, de um torturado que não era Herzog, mas, sim, um padre canadense. Nenhum editor teve o estalo de ir mais a fundo na questão da derrota de Rumsfeld na 6ª Conferência de Ministros da Defesa das Américas.

Diante da informação oficial sobre a comissão brasileira ao Vietnã, não seria o caso de se fazer uma matéria especial sobre a área militar e a ação dessa instituição na Amazônia? Por que os jornalões não pautam algum correspondente nos Estados Unidos para saber o que teria a dizer o Pentágono ou o Departamento de Estado sobre o tema? Caso um jornal de porte médio se interesse, não precisaria ir tão longe. Bastaria algum repórter em Brasília perguntar a opinião do embaixador ou do adido militar estadunidense sobre o tema.

Muitas outras questões podem ser levantadas pelos repórteres e surgiriam naturalmente com o desenrolar da pauta, bastando para tanto vontade e orientação das chefias.

Vale, então, voltar ao ponto de partida deste comentário e perguntar: onde andam os editores que têm deixado de lado questões relevantes e de grande interesse jornalístico como o da questão militar hoje? Será apenas cochilo, desinteresse ou mesmo preconceito? Ou será que por trás desse silêncio constrangedor, que depõe contra a própria mídia, se esconde algum tipo de orientação deliberada e que se reflete em colocações com o visível objetivo de desacreditar uma instituição, as Forças Armadas, preocupada com a questão nacional, como tem acontecido não raramente?

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