Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > LEITURAS DE VEJA

Começou o outono ou é uma primavera?

Por Alberto Dines em 23/03/2010 na edição 582

Os quase três milhões de leitores do semanário da Editora Abril devem ter levado um susto com duas surpreendentes matérias da última edição (nº 2157, com data de capa de 24/3/2010). Beliscaram-se, apalparam-se, voltaram à capa para ver se o logotipo conferia. Olharam o calendário: o início do outono na Veja sugeria uma primavera.


A primeira matéria, logo no início da edição, brilha nas prestigiosas ‘Páginas Amarelas’ (págs. 15-19), cujo teor, na atual escala cromática da direita mundial, deveria ser apelidada de ‘Páginas Vermelhas’. A entrevista com o economista americano Robert Shiller é um canto de louvor ao guru britânico John Maynard Keynes (1883-1946), um dos pais do welfare state, o estado do bem-estar, criador do conceito do Estado intervencionista, anticíclico, verdadeiro estabilizador da economia.


Inacreditável: quando a entrevista com Shiller foi redigida e escolhida, o presidente Barack Obama ainda não havia consagrado o seu plano de saúde com a vitória sobre os histéricos republicanos. A mídia brasileira babava em bloco com as tiradas idiotizadas de Sarah Palin e entoava em coro as palavras de ordem da nova Ku Klux Klan onde Obama aparece como ‘assassino das liberdades’.


Pecado capital


Com aquela cara de americano tranqüilo, bem comportado, Shiller investe contra as bolhas e afirma que ‘os economistas caíram no autoengano de acreditar na infalibilidade dos mercados e erram ao ignorar o poder do `espírito animal´ [o capitalismo selvagem]’. E vai em frente: ‘A economia é [organicamente] instável e o governo tem um papel relevante na sua estabilização’.


Acham pouco? Quando Keynes publicou sua Teoria Geral do Emprego, em 1936, o mundo estava dividido entre capitalistas e comunistas; Keynes, segundo Shiller, ofereceu uma alternativa:


** ‘O capitalismo era o melhor modelo, desde que regulado.’


** ‘Um ponto essencial é aprimorar a proteção ao direito dos consumidores. É inconcebível que os governos permitam a comercialização de certos papéis [do mercado financeiro] que embutem riscos sobre os quais os compradores não foram suficientemente informados.’


** ‘Não considero que os acertos de Thatcher e Reagan, chancelados pelo contexto histórico em que viveram, possam ser vendidos hoje de forma simplista como a solução para todos os problemas econômicos atuais e futuros.’


Nossa, outro terremoto?! Erro de revisão? Demitam o contínuo, é um agente subversivo! Quem inventou este Shiller, alguém verificou a sua ficha, não seria Schüller (aluno), oriundo da Alemanha Oriental como a marxista Angela Merkel?


Shiller não é um desconhecido: está entre os 100 economistas mais influentes do mundo; autor consagrado, tem uma coluna distribuída em dezenas de jornais. A escolha não foi casual, aleatória. Alguém na Redação – ou direção – achou que estas coisas precisavam ser ditas, Veja estava muito repetitiva, chata, parecia tia velha, maníaca.


Resultado: a turma do Instituto Millenium detestou a matéria e Veja está ameaçada de perder cinco assinantes. Na mídia brasileira, Keynes é palavrão, regulação é opróbrio, duvidar de Thatcher, pecado capital. Se a mídia admite a necessidade da regulação da economia, logo uma alma danada proporá a regulação da mídia eletrônica. Vade retro!


Cor qualquer


A segunda surpresa, em página única, ‘Ferveção em Arapiraca’ (pág. 100), trata de um escabroso caso de pedofilia protagonizado pelo Monsenhor Luiz Barboza, 82 anos e um ex-coroinha, agora adulto, ao longo de oito anos. O episódio foi revelado pelo jornalista Roberto Cabrini do Conexão Repórter, do SBT.


Puro sensacionalismo, dirão os fanáticos anti-Veja. Errado: atrás da notícia sobre um escandaloso assédio sexual está a decisão de não se curvar às imposições dos cursilhistas da Opus Dei, a mandona da grande e média imprensa brasileira.


O programa de Cabrini foi veiculado pelo SBT no dia 11 de março – e até o sábado (20/3) em que Veja circulou transcorreram dez dias sem que qualquer veículo nacional procurasse ‘repercutir’ o fato. Mas em Portugal, por causa do SBT, a ferveção de Arapiraca ferveu até na imprensa esportiva. Significa que Portugal, nosso avozinho, é menos católico do que o Brasil? Não: em Portugal a Opus Dei não manda como aqui.


Reconheçamos: esta Veja vermelha ou cor-de-rosa é muito mais surpreendente, instigante e interessante do que a anterior, qualquer que seja a sua cor, roxa ou amarela.

Todos os comentários

  1. Comentou em 24/03/2010 Tom Damatta Damatta

    Não dá pra falar em VEJA sem lembrar que o veiculo continua tendencioso, desrespeitando a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Pior ainda é o estrago que fazem nos blogues de seus arrticulistas e nos espaços de comentários destes blogues, uma verdadeira ‘arena’, em que quem discorda tem que achar muito jeitinho pra emplacar comentário. É que lá eles usam MODERAÇAO. Pra sentar a pua, no entanto…
    Sim, amigos deste Observatório. Viram só como se posicionaram com alarde, desrespeito, preconceito e pancadaria no caso GLAUCO. ‘Dai-me’ paciência com tanta matreirice e intolerância!

  2. Comentou em 24/03/2010 Amro atins

    A Veja é uma revista que não vale a celulose utilizada para ser impressa. É um desperdicio de papel que prejudica o equilíbrio do meio ambiente. Essa imprensa marron, abaixo de medíocre em termos de qualidade de conteúdo, deveria ser obrigada a reflorestar toda a celulose que utiliza, por ser danosa a sociedade que paga seus impostos para ter uma boa qualidade de vida.
    Pobres jornalistas da Veja que são manipulados de forma maquiavélica para colocarem sua inteligência e capacidade intelectual a serviço dessa empresa preconceituosa, vazia, mesquinha e inútil.
    O mínimo que todos os cidadãos sensatos deveriam fazer é não comprar esse lixo da imprensa nacional, que não contribui em nada para o benefício da sociedade brasileira, publica matérias mentirosas, tendenciosas, divulga inverdades, manipula a opinião pública com matérias pagas e atende aos interesses obscuros de grupos mafiosos e covardes.
    Recomendo a todas as pessoas que não percam o seu precioso tempo lendo a revista Veja, uma mídia impressa que não vale nada e prejudica a sociedade, já que, para seus editores, publicar a verdade é o que menos importa.
    Verifiquem como nas matérias que ela publica não são citadas fontes fidedignas, nem publicações ou documentos científicos que respaldem a escória que é publicada ali.
    Não desperdice seu dinheiro, não compre a revista Veja

  3. Comentou em 23/03/2010 Ibsen Marques

    Rodrigo, talvez até valha,mas espere o OI repercutir as matérias para ver se realmente o dinheiro será bem empregado. Mas a verdade é que a regulação do mercado é palavrão não só na mídia, mas no mercado financeiro, indústria e comércio.

  4. Comentou em 23/03/2010 alice franca leite

    À margem de seu comentário:o que me chama atenção são as ‘aspas’que agora usam para …os jornalistas de hoje ‘REPERCUTIREM’… as notícia! Acho que estamos ficando velhos: no ‘nosso tempo’ o que REPERCUTIA ERA A NOTÍCIA!Jornalistas de nossa época não repecutiam nada!Quando acabei de me aposentar estranhei esta onipotente mudança lingüística!Coisas de professorinha de Letras…
    Enfim,como dizia o escritor português Vergílio Ferreira em seu conto ‘A palavra mágica’ em que se briga pela suposta infâmia da palavra inócuo >inoque >noque’… entendida pela meninada como insultuosa; mesmo após esclarecido em dicionário o sentido da ofensa … a garotada vai à forra!
    Moral da história:
    Não adianta emendar a vida pelo pai dos burros !!!
    Estou assim repercutindo o conto do tempo em que eu dava aulas da saborosa Literatura Portuguesa no Instituto de Educação da Mariz e Barros…

  5. Comentou em 20/06/2007 Viviane de Carvalho

    Idealizado e produzido por estudantes do sétimo período do curso de Comunicação Social – Jornalismo da Universidade Federal de Viçosa, o site Dentro do Balaio (www.dentrodobalaio.ufv.br) entra no ar como uma nova forma de se produzir jornalismo. Através de textos, fotos, vídeos, áudios e animações, o objetivo do site é suscitar debates e reflexões de temas tanto retratados pela mídia local e nacional, quanto por assuntos que não são pauta nas mídias tradicionais.

    Em seu conteúdo, o Dentro do Balaio traz informações, críticas, agenda cultural, entrevistas e promoções, visando sempre a interatividade com o público jovem. Além disso, o site contém parte do conteúdo produzido pelos estudantes de Comunicação Social – Jornalismo ao longo dos últimos períodos nas diferentes disciplinas oferecidas no curso. Outras informações pelo contato dentrodobalaio@ufv.br.

    Viviane de Carvalho – Assessoria de Comunicação Dentro do Balaio

  6. Comentou em 10/11/2006 shirlei santos silva

    Entregar o sistema para a gestão dos bancos, mais competentes, e que também vão cuidar da nova modelagem dos Fundos de Pensão de Estatais que o governo atual não pode promover, em função da falta de condições políticas geradas pelos escândalos do mensalão. Petistas e tucanos defendem uma continuidade do regime de repartição (em que o trabalhador ativo paga a aposentadoria do inativo), que prevalece hoje. Mas os grandes bancos estão de olho no sistema de capitalização (em que cada assalariado paga por sua própria aposentadoria no futuro). Apenas a transição do sistema atual para o novo modelo movimentaria o equivalente a três PIBs: R$ 3 trilhões e 300 bilhões de reais – segundo cálculos do Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas do Ministério do Planejamento). O ministério da Previdência estima uma movimentação um pouco menor, porém expressiva: R$ 2 trilhões e 750 bilhões de reais.Os banqueiros querem gerenciar o processo e lucrar cada vez mais. Mas quem vai pagar a conta é o cidadão que é vítima da atual derrama tributária, que nos obriga a trabalhar 145 dias do ano só para pagar impostos. Especialistas temem que a transição do modelo de ‘Repartição’ para o de ‘Capitalização’ inviabilize as contas públicas do País, com a emissão gigantesca de novos títulos e a expansão da dívida pública decorrente deste processo.

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