Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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JORNAL DE DEBATES > DEBATE PÚBLICO

Comunicação é diálogo

Por Eugênio Bucci em 11/04/2008 na edição 480

Ninguém é dono da razão final a priori. A razão não se impõe pela propaganda, pelo monólogo do proselitismo. Ela só adquire validade quando faz sentido natural para o conjunto dos interlocutores – e comunicar é justamente isto: tecer o sentido comum. Comunicar é buscar pontes de entendimento. É dialogar.


Os responsáveis pela mediação do debate público não podem mais ignorar o fato de que nada é mais danoso – e enganoso – do que pôr os meios de comunicação a serviço de ideários prontos e fechados. Esse tipo de prática – em meios públicos ou privados, tanto faz – não constrói confiança, não estimula a divergência e a participação crítica, não emancipa o cidadão. Nos dias atuais, de inovações tecnológicas e políticas que não cessam, nenhuma sociedade gera um espaço público saudável na base da obediência e da concordância. Foi-se o tempo em que comunicação era um alto-falante na pracinha da província. Foi-se o tempo em que a receita era adestrar as massas.


As técnicas de massificação corroem a credibilidade dos próprios meios. Não promovem o encontro de opiniões complementares, não respeitam nem assimilam os pontos de vista alternativos – apenas militam para fazer prevalecer o interesse de quem exerce poder econômico ou político sobre a mediação do debate. Não raro, poder abusivo. A massificação até consegue potencializar fanatismos de diversas naturezas, mas não gera sabedoria compartilhada. Pode compactar as maiorias em momentos específicos, mas no longo prazo conduz à destruição. O século 20 é pródigo em exemplos trágicos – e, no século 21, ainda há quem insista em retomar e reeditar as fórmulas ultrapassadas.


Causas estranhas


Aos mais ansiosos os três parágrafos acima talvez soem genéricos, abstratos, descolados das atualidades ditas jornalísticas, dos dossiês da vida, da dengue desgovernada, dos congestionamentos. E, no entanto, essas palavras, assim mesmo, aparentemente vagas, tocam no âmago da qualidade do debate público e na capacidade que ele tem ou não tem de encarar e superar seus impasses. Eis aqui um dos temas mais graves dos nossos tempos. Um dos mais urgentes, também. Eis aqui um tema visceralmente jornalístico.


No universo da comunicação social brasileira, temos vivido sob o risco crescente da polarização extremada e suas deturpações inerentes: a desqualificação de quem diverge, a tentativa de dizimar a reputação alheia, a agressividade que se volta contra a pessoa sem se ocupar dos argumentos, as manipulações deliberadas. O mesmo risco pesa de modo particular sobre o jornalismo.


Embora não caiba, aqui, nenhum tipo de generalização, é possível notar, em alguns episódios, que notícias e manchetes são moldadas, voluntária ou involuntariamente, segundo uma lógica que tende a submeter o significado dos fatos a uma disputa meramente partidária e ocasional. Aí, o relato dos acontecimentos vira um acessório no embate oposição versus situação e o noticiário se reduz a um ringue em que se enfrentam as vaidades da esquerda, ou do que se diz esquerda, e da direita, ou daquilo que se supõe ser a direita.


De um lado, é notícia o que fere o governo. Do outro lado, é notícia o que desmoraliza a oposição. Onde estão os fatos? Onde estão as discussões de fundo? Onde está a realidade complexa e surpreendente? Será que o que define a essência de um veículo jornalístico, então, é isto: saber se ele é contra ou a favor desse ou daquele governo?


O jornalismo – assim como a comunicação social – não funciona adequadamente quando se deixa reger pelos parâmetros da lógica partidária. Ao se render a esses parâmetros, a imprensa renuncia a seu campo próprio e se converte em instrumento de causas estranhas ao direito à informação. A própria política – a política em seu sentido mais alto – sai prejudicada.


Partidos raivosos


Em vez de operar segundo ditames partidários de ocasião, cabe à imprensa observar e cobrir os partidos e suas escaramuças, vendo-os de fora. Os interesses dos partidos e dos governos devem representar, para os encarregados da comunicação social, não uma baliza para alinhamentos ou combates sistemáticos, mas um fenômeno externo. Infelizmente, contudo, se observarmos com cuidado, veremos que esse tipo de desvio ainda não foi totalmente superado. Entre nós ainda sobrevive uma concepção excessivamente instrumental dos meios de comunicação, que são vistos – e, por vezes, são administrados – como porta-vozes da corrente A ou B e nada mais.


Ora, sem prejuízo das visões de mundo que toma como missão – visões que jamais se deveriam rebaixar a programas partidários –, um órgão de imprensa alcança sucesso quando presta serviços e dá voz a seu público e quando abre novos canais entre os cidadãos. Sobretudo agora, com as novas tecnologias, o diálogo passa a ser o centro do sistema nervoso da comunicação. Os veículos ganham mais vitalidade quanto mais escapam da opacidade, quanto mais refletem a diversidade e quanto menos pretendem ser, eles mesmos, uma posição fechada a ser seguida pelo rebanho.


O Brasil precisa de pontes de diálogo – e só poderá obtê-las da qualidade de sua comunicação social, não das querelas partidárias. Há bons pensadores de um lado e de outro. Há homens públicos de valor dentro e fora do governo. Que suas idéias dialoguem no espaço público. Se a comunicação social e o jornalismo se deixarem formatar e organizar pelas trincheiras que partidos raivosos tentam imprimir sobre a realidade, não serão capazes de erguer as pontes necessárias. Continuarão, eles mesmos, entrincheirados. Abdicarão de seu compromisso com o público e com a busca da verdade – que, a propósito, não é monopólio nem de governos nem da oposição.

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Formado em direito e jornalismo pela Universidade de São Paulo, doutor em Ciências da Comunicação pela mesma universidade e autor de alguns livros, entre eles Sobre Ética e Imprensa (Companhia das Letras, 2000); foi presidente da Radiobrás entre 2003 e 2007

Todos os comentários

  1. Comentou em 12/04/2008 Ricardo Pierri

    O problema não é exatamente a falta de diálogo, mas algo que a precede: a falta de vontade de dialogar e do que dizer. Essa vontade presume o respeito à opinião contrária, a boa-fé de expor a própria à crítica e a intenção de buscar a verdade, de contribuir, de colaborar. Os partidos no Brasil são cartéis lutando pelo poder, e não expressão democrática da pluralidade de opiniões. Vivem em guerra para satisfazer seus próprios interesses, os de seus financiadores e até alguns estrangeiros. E não existe diálogo ou colaboração em uma guerra. Há apenas a vitória ou a derrota. Isso não é democracia – isso é ‘mercado’. E a imprensa, em uma guerra, é mera ferramenta de propaganda e arma. Não há o menor interessa nela em dialogar, em colaborar. Há apenas o ‘conosco ou contra nós’, o mais profundo e estúpido maniqueísmo expresso no ‘princípio’ hipócrita do lema ‘imprensa é oposição (mas apenas ao PT)’. Sua única meta é a destruição do ‘inimigo’. A mídia partidarizada é o maior perigo para uma democracia. Deixa de ser instrumento democrático para ser instrumento de controle.

  2. Comentou em 11/04/2008 Wilheim Rodrigues

    Parabéns pela emersão deste tema tão relevante para a comunicação social brasileira, Eugênio Bucci! Há hoje uma enorme distorção no que tange ao papel da imprensa no cotidiano nacional. Existe uma digladiação entre meios de comunicação e Estado, o que implica em uma veiculação de informações determinista e de pouca margem à reflexão. As informações são ‘selecionadas’ de acordo com uma estratégia política e não através de uma preocupação para com o interesse popular, o que é ruim para todos: população, Estado e imprensa.
    Já dizia Mahatma Ghandi: ‘Olho por olho… e o mundo acabará cego’.

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