Segunda-feira, 21 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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JORNAL DE DEBATES >

Comunicação ou mero moralismo?

Por Paulo Bento Bandarra em 09/06/2009 na edição 541

Maísa Silva, sete anos, recebeu na mídia e neste Observatório uma enxurrada de ‘solidariedade’. Algo notório porque as crianças realmente em risco e merecedoras de todas as ações da mídia e do MP normalmente não são vistas mesmo. Passam por nós nas sinaleiras, dormem embaixo de viadutos e dentro de bueiros. Fumam crack nas praças, incógnitas. Ou se prostituem por ai. Longe das vistas das ‘pessoas de bem’. Suas lágrimas não nos comovem. De seus dramas não tomamos conhecimento. Não aparecem nem mesmo nas listas do trabalho infantil, pois nem a isto ainda chegaram como seres humanos.

Moralismo é um substantivo masculino que, conforme o Houaiss, pode significar uma doutrina ou comportamento filosófico ou religioso que elege a moral como valor universal, em detrimento de outros valores existentes e, em ética, consideração moral inconsistente por estar separada do sentimento moral, por ser baseada em preceitos tradicionais irrefletidos ou por ignorar a particularidade e a complexidade da situação ora julgada.

Chacrinha foi o alvo preferido dos acadêmicos como exemplo de televisão ruim até tornar-se o mestre da comunicação. ‘Abelardo Barbosa, Está com tudo e não está prosa. Menino levado da breca. Chacrinha faz chacrinha com a discoteca. Ó Terezinha, ó Terezinha …’

O sagrado e o profano

No OI, na matéria: ‘A espetacularização da imbecilidade‘, por Artur Salles Lisboa de Oliveira (28/4/2009) o mesmo criticava o programa mencionado dentro de uma escala de valor. No século 18, Voltaire, em seu Dicionário Filosófico, se perguntava: ‘O que é a intolerância?’ E respondia: ‘É o apanágio da humanidade. Estamos todos empedernidos de debilidades e erros; perdoemo-nos reciprocamente nossas tolices, é a primeira lei da natureza.’ E que erro podemos atribuir ao Pânico na TV e aos seus telespectadores fiéis a não ser possuírem um gosto e um humor diferente do nosso? Quem pode determinar que o nosso gosto seja o correto e o justo de achar graça? Haveria um erro nos norte-americanos por não acharem graça das nossas piadas? E nós estamos mais certos por não acharmos graça nas deles? Não, trata-se apenas de uma escala de valor sem maiores verdades além delas mesmas.

Humor, moral e valor não são valores universais. Não podemos colocar um recital de Mozart na TV como melhor para o telespectador do que as piadas e novelas que procuram. Nós, que apreciaríamos mais a Mozart, não temos mais direitos e verdades neste ponto do que os apreciadores do Pânico. São gostos pessoais como gostar de churrasco bem passado, mal passado ou no ponto.

Agora nos debrucemos a analisar o fenômeno das últimas semanas ocorridas com a menina e que acabou repercutindo aqui no OI em várias matérias, das quais destaco as duas: ‘A menina-prodígio e a caixa registradora‘, por Washington Araújo (26/5/2009) e ‘Abuso infantil psicológico‘, por Cláudia Rodrigues (26/5/2009).

Washington Araújo escrevera a matéria criticando a autora Glória Perez na matéria: ‘Caminho (desrespeitoso) das Índias‘ (10/2/2009), condenando a abordagem do sagrado pela autora como um desrespeito. O que certamente fica no campo do juízo de valor do que no campo da comunicação que a novelista domina bem. Poderia ter sido abordado por um teólogo, mas não tem muito fundamento dentro de um estado laico e livre criticar abordagens artísticas que usem as religiões e costumes como pano de fundo. Mesmo que fosse para criticá-las. O sagrado de hoje será o absurdo e o profano de amanhã. Poderia fazer parte do tema do censor, mas não me parece um tabu para um comunicador como a autora.

O julgamento do telespectador

Já na matéria sobre a menina, que ele chama de ‘a menina-prodígio’ relaciona de saída com ‘a caixa registradora’. E no texto prossegue misturando o lucro pecaminoso com a exploração suposta da menina que estaria sendo utilizada pelas forças corruptoras do capitalismo tirano na sua desumanização. Note-se que a referida criança já participava do programa antes da ‘crise’ pelo qual traça um paralelo moralista entre Shirley Temple e a ‘Grande Depressão’ financeira da década de 30. Relaciona com o ‘Grande Irmão’. O Grande Irmão, Big Brother no original, é um personagem fictício no romance 1984, de George Orwell, o enigmático ditador da Oceania. A descrição física do Grande Irmão assemelha-se a Josef Stalin. Em a A Revolução dos Bichos, o autor continua com sua crítica ao totalitarismo anticapitalista da mesma década de 30. Nada a ver com os Estados Unidos e o capitalismo detestado pelos socialismos marxista e o cristão do católico Hitler e Mussolini. Razão pela qual detestavam os judeus como símbolos deste sistema de produção baseado no capital. Não pela ‘raça’.

Muito bem exposto no Judeu Internacional, pelo cristão Henry Ford. Aqui simbolizado pela imagem literária da pérfida ‘caixa registradora’ que a todos corrompem, na visão moralista católica cristã. Mas não me parece que comunicadores devem perseguir prejuízos. Que a função da mídia seja falir ou viver na penhora. Normalmente o intragável para as pessoas são justamente as caixas registradoras dos outros. Nunca a sua. Portanto, se o programa do Silvio Santos está dando lucro, está dentro do esperado para uma empreitada sobreviver. Professores universitários do setor público não precisam disto. Vivem de salários pagos sem que para tal venham a ser medida a sua produção pelo contribuinte. Vivem dos impostos amealhados pelos lucros das caixas registradoras da economia privada que dão sucesso. Pois as que fracassam, não dão lucros e nem geram impostos. Não me parece que fracasso seja uma virtude defensável da mídia. O que muitos ambicionam TVs estatais para evitar isto. O julgamento do telespectador.

Os genocídios gozosos da Bíblia

O texto do autor, em vez de estar focado em uma análise sobre erros da comunicação, acaba se resumindo na visão do pecado do lucro e a degradação moral que ele pode produzir. Um simples juízo de valor pessoal, que agrada os simpatizantes da tese e os que detestam o sucesso financeiro do comunicador Silvio Santos, mas não vai além disto.

Também tivemos Mickey Rooney (nascido Joseph Yule, Jr.) (Brooklin, 23 de setembro de 1920) e Judy Garland (Grand Rapids, Minnesota, 10 de junho de 1922 – Londres, 22 de junho de 1969), nascida Frances Ethel Gumm, como criações infantis da grande depressão capitalista. Depois da crise, o melhor amigo de RinTinTin, o Cabo Rusty, (Lee Aaker). O menino apelidado de Ferrugem, Luiz Alves Pereira Neto. Drew Blythe Barrymore e Erika Eleniak que atuaram quando crianças no filme ET. O menino-prodígio Will, Billy Mumy (Charles William Mumy Jr.). A turma do Balão mágico. Sandy e Junior. Isabelle Drummond, também conhecida como ‘Emília’, há pouco tempo. Como inúmeros atores infantis e juvenis nas nossas diversas televisões. Não podemos de forma preconceituosa nivelar todos como danosas e prejudiciais. Não é a realidade.

Em 1930, enquanto a grande depressão conduzia Shirley Temple aos palcos capitalistas fazendo perder a fé no Papai Noel, outro jovem do mundo perfeito e anticapitalista fazia sua estréia e final abrupto na história da infância feliz. Pavel Morozov, Pavlik, herói do por décadas do Konsomol, União da Juventude Comunista, entregava seu pai a polícia secreta soviética por ter guardado grãos da sua produção para sustentar a família. Na Alemanha se criavam escolas para as crianças da juventude hitlerista poderem se desenvolver plenamente nos seus atributos cristãos e arianos para servirem o novo Reich que, igual ao primeiro, duraria também mil anos: o Sacro Império Romano-Germânico (Sacrum Romanum Imperium). No Brasil as salas das escolas tinham que ter o retrato do ditador Vargas. Nas escolas do MST são educados na filosofia marxista preparando-as para um futuro de conflitos. Crianças judias são forçadas a decorar livros sagrados para declamarem em voz alta, assim como crianças no Islã, criadas desde tenra idade decorando anos a fio o Alcorão. E crianças adventistas são forçadas a crer no dilúvio, no criacionismo, nos genocídios gozosos da Bíblia. Seria aquilo que podemos atribuir a um direito a infância melhor para crianças talentosas?

Diagnósticos e condenações

E hoje, tirando aquelas esquecidas pela sociedade, temos pais que levam seus filhos para locais melhores. Aprender o catecismo em vez desta idílica infância dedicada realmente a apenas brincar. E muitas delas, na verdade milhares delas, têm as suas vidas destruídas pela pedofilia nas igrejas. Mas estas crianças não tem tido a devida atenção e a preocupação do MP e dos professores de comunicação pelos pecados da ilusão do sagrado. Pelas vidas destruídas. A mídia e as caixas registradoras que são mais danosas preocupam mais.

‘Atrás do abuso sexual infantil, atrás das `palmadas inocentes´, dos crimes, do aumento de crianças deprimidas, do discurso vazio sobre limites infantis, está o sadismo e a total falta de limites de uma sociedade adulta doente, que vê a criança como brinquedo, objeto, sem o menor senso de humanidade’, diagnostica a jornalista e educadora somática Cláudia Rodrigues neste episódio.

No século 18, jovens eram castrados para manterem a voz nos palcos tendo a história relatada personalidades de sucesso. Como resultado da expulsão das mulheres dos palcos e coros, decretada pela Igreja, surgiram no século 18, os castrati. Já Sisto V aprovara em bula papal de 1589 o recrutamento de castrati (plural de castrato) para o coro da Igreja de São Pedro, em Roma. Na era vitoriana as crianças não podiam conviver com os adultos e eram apartados do convívio dos pais muito bem narrado por Charles Dickens. Crianças pobres hoje são enviadas pelos pais para proverem o sustento da família vendendo frutas e pedindo esmolas.

O que eu vejo como médico é que a situação é totalmente diversa. Quem é Maísa? Maísa Silva Andrade? Conhecemos a ela e a sua família? Quais são os seus desejos? Qual a sua carreira prévia? Quem pode afirma que a mesma está sendo abusada e detesta o que faz? Crianças vendendo balas nas ruas, trabalhando na lavoura para os pais, em escolas medíocres, podem estar frustrados. Mas é isto que as pessoas vêem em Maísa nos fins de semana? Que dá aumento do Ibope? O que sentiria Maísa se o seu ‘patrão’ ou amigo, viesse a ser punido pelo seu choro e acabar perdendo o seu passatempo ao seu lado? Como fazer diagnósticos e exarar condenações sem conhecer as pessoas e as situações realmente? Deve ser uma faculdade que jornalistas desenvolvem irresponsavelmente nas escolas.

A importância das caixas registradoras

Muito emblemática no episódio da Escola Base e no suicídio de Getúlio Vargas. Atribuir o sucesso de Shirley Temple ou de Maísa à crise é negar as mesmas os seus talentos naturais. Maísa foi descoberta há dois anos por Raul Gil antes da crise atual. Pior do que ‘E se quando eu crescer não for tão bonita quanto hoje?’ é não aproveitar o hoje e vir a ser feia na fase adulta. Perder a viajem quando o trem passou.

Como fenômeno midiático a ação do comunicador foi um sucesso. Não só deve ter alavancado a audiência como muitos desejaram tirar do ato seus minutos de glória tentando mostrarem-se melhores do que os pais e do ‘patrão’ do fenômeno.

Acho que os alunos de comunicação devem dar importância para as caixas registradoras, pois é delas que sairão o seu sustento e a realização dos seus projetos futuros. Não é da fantasia. O nazismo e o fascismo ainticapitalista e antiliberal acabou há muito tempo e o meio de produção coletivista ruiu no mundo. No entanto a liberdade e os direitos humanos ainda contam com o melhor exemplo nos EUA do que em fantasias latino-americanas ou a proteção que o MP pode dar. É perfeitamente lógico que aqueles que desprezem os lucros não se encontrem com eles nas suas empreitadas.

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Médico, Porto Alegre, RS

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