Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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27/04/2004 na edição 274

‘‘Supervalorizamos a notícia ruim. Acho que o dia em que descobrirem uma vacina contra o câncer, algum jornal vai noticiar assim: Essa vacina não cura a gripe!’, disse o jornalista Maurício Menezes, que além de trabalhar como assessor do Tribunal de Justiça do Rio, criou, dirige e apresenta o espetáculo ‘Plantão de Notícias’, sobre as histórias engraçadas que acontecem com os coleguinhas. Entre os dois trabalhos, o jornalista não titubeia ao dizer o que prefere: ‘É claro que gosto mais do humorista. Ganhar a vida fazendo os outros rir é muito bom’.

Menezes participou do ‘Papo na Redação’ desta terça-feira (20/04). Sobre o chat, ele disse: ‘Essa é uma raríssima chance de fazer perguntas que não seriam feitas cara a cara’.

Leia na íntegra o ‘Papo na Redação’ com Maurício Menezes:

[14:59:21] – Geraldo Lopes (redator – Alerj) pergunta para Maurício Menezes: Oi, Maurício, tudo bem? Vou fazer só uma pergunta: por que, no Plantão de Notícias da TV, que assisto com certa freqüência, você não inclui pérolas do jornalismo como a história do Adionel, da CNBB ou do cachorro falsificado do Luarlindo (essa inventada por você) e que são ótimas?

Maurício Menezes responde: É porque na TV a linguagem tem que ser mais veloz. No teatro, o Adionel é o maior sucesso. Mas na TV acho que ficaria muito longa.

[15:01:35] – Jonathan Pereira (Repórter – Diário do Litoral – SP – Santos) pergunta para Maurício Menezes: Como é sua relação com os repórteres que buscam `furos` no Tribunal de Justiça e seu dia-a-dia com a imprensa de um modo geral?

Maurício Menezes responde: Boa pergunta. É bem desgastante, porque eu fico danado da vida quando a imprensa tenta transformar a notícia num show. O show é a verdade e agora mesmo quase cheguei atrasado para essa coletiva, porque estava num restaurante discutindo com um repórter sobre o caso Naya. Mas os colegas têm um relacionamento bom comigo, embora às vezes eu aumente o tom da voz.

[15:04:26] – Eduardo Lam (Estudante) pergunta para Maurício Menezes: Maurício, como você avalia o tempo em que passou quando esteve como assessor de imprensa do Flamengo, quais os pontos positivos e negativos? Como você chegou até lá e por qual motivo saiu??

Maurício Menezes responde: Rapaz, eu estava em Petrópolis, na casa do Marcelo Alencar – que depois seria governador – jogando vôlei, quando me telefonaram e disseram que o Kleber Leite e o Michel Asseff queriam falar comigo de qualquer maneira. Desci louco, porque disseram que tinha uma reunião lá e coisa e tal. Ocorre que a candidatura do Kleber teve um apoio meu e do meu sócio aqui na produtora. Fizemos por amizade a ele. Depois teve aquele negócio da chegada do Romário, que eu organizei a coletiva. Aí quando cheguei no Flamengo, o Kleber me apresentou dizendo que eu estava ‘contratado’. Ele sequer perguntou se eu queria ou podia. Com ele é assim..

[15:09:10] – Marcello Gazzaneo (Repórter – Especial – Folha Universal – RJ) pergunta para Maurício Menezes: O secretário de Comunicação do governo federal, Luis Gushiken, deu uma declaração polêmica há uma semana sugerindo que os repórteres deveriam dar apenas notícias boas. Como vc avalia essa questão?

Maurício Menezes responde: O Tribunal de Justiça, nos últimos dois anos, inaugurou 30 foros novos no Estado e foram lançados 12 programas para levar a justiça até áreas carentes. Ninguém se interessou em noticiar isso. O dia que uma bala perdida, meia noite, na passagem de ano, atingiu um vidro do fórum de Caxias, toda a imprensa foi lá falar num ‘atentado’. O secretário – me parece – quis dizer isso. Supervalorizamos a notícia ruim. Acho que o dia que descobrirem uma vacina contra o câncer, algum jornal vai noticiar assim: Essa vacina não cura a gripe!

[15:13:06] – Rafael Avila (Designer – BrSolution) pergunta para Maurício Menezes: O programa tinha um jeitinho de ser muito ruim até conhecer o verdadeiro CONTEÚDO do programa… Realmente é uma coisa de outro mundo. O Cara manda muito pegando os deslizes da imprensa e criando `piadas noticiadas`… Parabéns Mauricio Menezes… `SÓ SE FOR DEPOIS!!!`

Maurício Menezes responde: Pois é. Tem muita gente que não entende o espírito do programa. O Celso Freitas disse sexta-feira, numa entrevista no Estadão, que o Plantão de Notícias é um programa muito bom. Mas os diretores de TV, lamentavelmente, apostam sempre na mesma fórmula: pagode, b.. de fora, fofoca e vai por aí. Acham que o povo não gosta de coisa inteligente. Sem falsa modéstia, claro.

[15:14:33] – Geraldo Lopes (redator – Alerj) pergunta para Maurício Menezes: Você gosta mais do M.M. jornalista ou do Maurício humorista? E em qual das duas acha que se sai melhor?

Maurício Menezes responde: Pô, Geraldo. É claro que gosto mais do humorista. Ganhar a vida fazendo os outros rir é muito bom.

[15:14:58] – Geraldo Lopes (redator – Alerj) pergunta para Maurício Menezes: E a do cachorro do Paraguai (falsificado) que o Luarlindo me vendeu?

Maurício Menezes responde: Essa história é boa, mas se contar na TV o Luar vai preso (outra vez).

[15:17:19] – Rafael Avila (Designer – BrSolution) pergunta para Maurício Menezes: De onde veio a idéia da criação do programa e como foi a aceitação da Record?

Maurício Menezes responde: A idéia surgiu por acaso. Nas redações eu sempre fazia muita piada com a notícia e sempre pensava que aquilo podia virar um programa. Na Record a aceitação é zero. Nós somos a maior audiência do Rio, temos uma renovação de espectadores enorme, porque os jovens adoram o programa, mas se atrasar um dia o pagamento pelo horário eles tiram do ar. (quer dizer: tiraram uma vez, agora podemos atrasar um pouquinho que eles tem tolerado…) Somos tratados ( até agora) como um produto comercial, mas esperamos que alguém invista na gente.

[15:21:26] – Sílvio Xavier (Profissional Contratado – Comunique-se) pergunta para Maurício Menezes: E até quando o seu espetáculo fica em cartaz no RJ? Vcs estão com planos para `rodar` o Brasil inteiro?

Maurício Menezes responde: Bom, nós estamos lá no Serrador até o final de maio. Nesse momento estamos vendo uma temporada em Niterói porque é incrível como temos audiência lá e em São Gonçalo. Temos também convite para ir para São Paulo.

[15:29:34] – Luciana Duarte (Freelancer – Freelancer) pergunta para Maurício Menezes: Maurício Menezes boa tarde! Qual a sua opinião em relação aos assessores de imprensa? De um modo geral vc acredita que o trabalho destes contribuem para a veiculação da notícia correta?

Maurício Menezes responde: Olha só: eu, quando fui para o TJ, pedi para fazer um trabalho de abertura. O ex-presidente topou. O atual me manteve. Eu não escondo nada. Recebo muitas queixas lá sobre isso. Nunca um colega reclamou – nesses três anos – de eu ter passado uma notícia pela metade ou ocultado. Há poucos dias mesmo um desembargador agrediu um juiz e eu passei pra todo mundo. Agora precisamos fazer uma espécie de Controle Externo da Imprensa. Tem colega que não faz a menor idéia do que é o que e escreve horrores sobre a justiça. Coisas sem pé nem cabeça. E isso sai de pessoas até conceituadas, que tem coluna em jornais. Quer ver um dos maiores absurdos? Que o juiz só trabalha de 11 às 17. Isso é a maior maluquice do mundo. É a mesma coisa que dizer: O Willian Bonner tem o melhor emprego do mundo… ele chega na TV Globo, lê aquele jornal Nacional de meia-hora e vai embora…

[15:39:24] – Eduardo Lam (Estudante – FACHA) pergunta para Maurício Menezes: Maurício por qual motivo a idéia de levar jogadores de futebol e outras personalidades ao programa não avançaram?

Maurício Menezes responde: Os nossos problemas são financeiros. Pra trazer convidado tem que ter despesa e nós estamos piores do que o Ministério da Ciência e Tecnologia do Paraguai…

[15:40:35] – Sílvio Xavier (Profissional Contratado – Comunique-se) pergunta para Maurício Menezes: Como surgiu a idéia do `Guia` que vocês distribuem a quem vai assistir o espetáculo de vocês?

Maurício Menezes responde: Foi por acaso. Muita gente pedia lembranças do programa, especialmente camisas. Ai pensei numa coisa simples e um amigo meu tinha uma carteirinha de uma associação de machões, coisa assim. Um dia eu acordei e a idéia bateu de fazer uma carteira de fã, porque muita gente dizia que era fã de carteirinha…

[15:41:20] – Cristina Cavadas (Assessor de Imprensa – Tribunal Regional do Trabalho do Rio de Janeiro – RJ) pergunta para Maurício Menezes: E aí Maurício…. estou na dívida com vcs, mas logo logo irei ao show….

Maurício Menezes responde: Nem brinca. Com a senhora não quero papo. Todas as vezes que a cortina abre e eu vejo que você não está lá, fico P da vida. Estou esperando a senhora. bjs

[15:42:22] – Geraldo Lopes ( redator – alerj ) pergunta para Maurício Menezes: Tem uma história incrível que você nunca contou: papo entre Afonso Soares e Bira (Ubiratã So….). Pergunta o Afonso: pô, Bira, afinal, vc é gay ou não é? Bira responde: não, seu Afonso, quer dizer, eu só dou quando bebo. ASfonso, com aquele jeitão escandaloso de falar: Então, pô, por que é que você bebe? Bira responde, eu bebo pra dar né, seu Afonso. Você nunca contou essa.

Maurício Menezes responde: Mas se eu for contar todas as histórias que a gente tem, vamos fazer um show de umas seis horas. Ou seis dias.

[15:43:26] – Sílvio Xavier (Profissional Contratado – Comunique-se) pergunta para Maurício Menezes: Você normalmente tem uma equipe espalhada por todo o Brasil para escutar/ler furos de reportagem? Tem algum repórter que é líder em furos que vocês já ficam no pé dele(a)?

Maurício Menezes responde: Ah, isso tem. O Brandão (Rádio Tupi) é um deles. É um irmão meu, mas os furos dele são muito bons. O Marquinhos Vinicius (também da Tupi ) é outro.

[15:45:26] – Eduardo Cover Vieira Godinho (Repórter – Rádio Aurora AM – RS – Guaporé) pergunta para Maurício Menezes: Mauricio, boa Tarde. Gostaria de saber qual a plataforma que você acabou utilizando para fazer esse tipo de programa.

Maurício Menezes responde: Olha só: na verdade eu nasci no meio de humoristas. Meu pai era muito engraçado, a minha mãe vive rindo, os meus irmãos, tios, etc. E eu sempre gostei de ler e fazer humor. Na escola primária era assim. Nas redações eu sempre era o cara que comandava as festas, que contava piadas. etc. Um dia eu achei que podia ganhar dinheiro com aquilo. Aliás, continuo achando. Não sei quando esse dia vai chegar…

[15:48:22] – Marcello Gazzaneo (Repórter – Especial – Folha Universal – RJ) pergunta para Maurício Menezes: Seu programa é uma boa notícia, em meio ao que se produz no humor. Vc acha que ele sofre as conseqüências dessa supervalorização da notícia ruim?

Maurício Menezes responde: Não avaliei isso ainda, Gazzaneo. Mas eu sempre fui um repórter que descobria coisa boa mesmo nas notícias ruins. Acho que o repórter tem sempre a obrigação de dar notícias, sejam elas boas ou ruins. Mas existe no nosso meio uma máxima de que notícia boa é noticia ruim. Eu não concordo. Se você ler os milhares de emails que nos chegam, todos dizem assim: ‘vocês são um alento no meio de tanta notícia ruim’… Ou seja: as pessoas estão meio cheias de notícia de desgraça.

[15:50:33] – Sílvio Xavier (Profissional Contratado – Comunique-se) pergunta para Maurício Menezes: Vcs já foram processados por algum repórter,jornalista ou personalidade?

Maurício Menezes responde: Graças a Deus até hoje não. Eu mesmo, durante 25 anos, escrevi no Estadão e nunca recebi sequer queixa de uma matéria. Há poucos dias eu me queixei de uma nota que saiu no programa de TV sobre um cantor e que mexia com o lado pessoal dele. Passou batido por mim e eu só vi quando estava no ar. Tenho um baita cuidado para não magoar as pessoas ou – mesmo fazendo humor- mexer com coisas que possam ferir alguém. Mas às vezes a piada está ali e vamos até o ponto máximo possível…

[15:53:36] – Eduardo Cover Vieira Godinho (Repórter – Rádio Aurora AM – RS – Guaporé) pergunta para Maurício Menezes: Como o Tribunal de Justiça do Rio está vendo a situação que a cidade vem passando nos últimos dias, em relação aos constantes ataques à favela da Rocinha e Vidigal. Há uma relação com o Tribunal de Justiça? Você acha que esse problema tem solução?

Maurício Menezes responde: A solução é difícil demais. Eu tenho escrito alguma coisa sobre isso. Outro dia, no Globo, escrevi um artigo sobre o Skank, aquele conjunto de Rock. Os caras fizeram um show e pediram para a segurança deixar o pessoal usar drogas. E como o show era no Pão de Açúcar, o Samuel Rosa ainda falou assim: ‘aqui em cima não tem polícia’. A galera vibrou. Quer dizer: o pessoal quer a droga, mas esquece que atrás dela vem o traficante. Eu não posso falar pelo Tribunal, mas é preciso entender que essas notícias são glamourizadas no Rio. Imagine você se fugissem aqui 149 presos, como aconteceu em São Paulo… saíram noticinhas sobre isso…’



MÍDIA & ESPETÁCULO
Merval Pereira

‘Baudrillard e o canibalismo’, copyright O Globo, 21/04/04

‘O filósofo e escritor Jean Baudrillard é talvez hoje o intelectual mais influente da França, e se dedica em especial ao estudo da mídia e seus efeitos na sociedade moderna. Na conferência de Alexandria ele fez uma palestra intitulada ‘Le virtuel et l’événementiel’, palavra usada para se referir ao acontecimento em tempo real que, segundo ele, ‘imaterializa tanto a noção do futuro quanto a do passado, imaterializa o tempo histórico, pulveriza o acontecimento real’.

Crítico da ‘sociedade do espetáculo’, onde todos são vítimas da vontade de aparecer, Baudrillard diz que há ‘uma grande diferença entre o acontecimento que advém do tempo histórico e aquele que advém do tempo real da informação’.

Segundo ele, ‘o excesso de informação cria uma situação imoral que não tem equivalência no acontecimento real’, e por isso vivemos hoje ‘ao mesmo tempo o terror do excesso de significação e o da insignificância total’.

Segundo Baudrillard, ‘a desinformação vem da profusão da informação, de seu encantamento, de sua repetição em círculos, que cria um campo de percepção vazio, um espaço desintegrado, como por uma bomba de nêutrons, ou por uma que absorve todo oxigênio em volta’.

Baudrillard diz que o poder político hoje, diante da globalização e da hegemonia americanas, não é mais que um poder negativo, de dissuasão, que quer apagar ‘não apenas o futuro como também o passado’.

As guerras do Afeganistão e do Iraque teriam essa finalidade, de apagar a humilhação americana: ‘É por isso que essa guerra é, no fundo, uma ilusão, um acontecimento virtual, um não-acontecimento, sem objetivo ou finalidade própria, não é mais que uma conjuração, um exorcismo’.

Baudrillard vê nessa política ‘uma ironia feroz: um sistema mundial antiterrorismo que termina por interiorizar o terror, por se flagelar e se esvaziar de toda substância política, até se voltar contra sua própria população’.

Diante desse mundo globalizado e virtual, Baudrillard vê o Brasil como uma possível alternativa de resistência cultural. Na abertura de sua palestra na Biblioteca de Alexandria, ele retomou o tema, que já havia desenvolvido um mês antes, quando do lançamento aqui em Paris do livro ‘Uma esquerda que desperta’, de Candido Mendes sobre a campanha de Lula à Presidência da República.

Baudrillard, mestre da interpretação dos símbolos, vê a magia brasileira como ‘uma espécie de utopia realizada sobre a Terra’, mas acrescenta, cético, que ‘a utopia, quando já realizada, é um pouco perigosa’. O filósofo francês diz que desde que foi ao Brasil pela primeira vez, há 20 ou 25 anos, sentiu que o país constituía ‘uma espécie de variação, de desvio’ em relação ao modelo internacional, um desvio ‘não revolucionário’.

O país não se encontrava além, ‘nem em termos de relações de força, nem de relações históricas, mas era de uma singularidade extraordinária’, relembrou. Para Baudrillard, ‘havia algo a mais, que provinha antes da sedução, uma maneira de gerir ao mesmo tempo a relação, não a social, não a política, nem a econômica, algo que é perceptível fisicamente, corporalmente e mentalmente também’.

Para ele, o Brasil ‘é uma sociedade incomparável, pela mistura, pela relação mestre/escravo, por toda esta cena punitiva, onde se teceram, entre mestres e escravos, uma forma de sistema de obrigações, de simbiose, que considero a profunda originalidade deste país’.

Baudrillard questionou, então, se um modelo universalista, que dá prioridade à economia, que em princípio quer alinhar todas as relações sociais, seria aceitável para o Brasil. ‘Não é melhor que nestas condições, uma singularidade defenda sua originalidade, em vez de tentar, a qualquer preço e por todos os meios – os piores ou os melhores – penetrar neste concerto internacional onde ela certamente será engolida, quer queira quer não, alinhada de uma maneira ou de outra, sobre um dispositivo que ninguém controla mais, do qual ninguém mais conhece a regra do jogo?’.

Para ele, seria bom que existisse uma sociedade que funcionasse de maneira diferente: que dissesse ‘não à produção, mas sim à sedução; uma sociedade que possa ser capaz, como esta foi através da música, da dança, de absorver e até mesmo de, finalmente, devorar os mestres’.

Baudrillard diz que sempre é lembrada a canibalização dos bispos portugueses nas praias brasileiras no século XVI, ‘onde eles os amavam tanto que os devoraram’. E acrescenta ironicamente que ‘o canibalismo é a forma última e mais sutil da hospitalidade’.

Para Baudrillard, ‘a sedução é um sistema simbólico de canibalismo, de absorção, é um metabolismo diferente do enfrentamento’. Ele achava que o Brasil constituía ‘uma espécie de santuário, uma bolsa de resistência fantástica contra estes modelos de civilização, por tudo aquilo que devia ser jogo, teatro, carnaval’.

Mesmo admitindo que estava falando ‘quase de estereótipos’, Baudrillard diz que, mesmo assim, lhe agradava a idéia de que uma situação era enfrentada ‘como uma espécie de sedução, de jogo enfim, outra coisa diferente das relações de forças, da análise da balança comercial’.

Ele disse que dois termos o interessavam mais – o canibalismo e a carnavalização. ‘Falaram desta carnavalização recentemente, a propósito do Haiti, que tem todas as chances de perder sua especificidade por querer se adaptar ao mesmo modelo, isto é, está querendo absolutamente ‘embranquecer’. O Brasil não é uma nação branca, e o que o torna interessante é justamente o fato de que ele não seja nem preto, nem branco’, ressaltou Baudrillard.

Saindo da utopia para a realidade, Baudrillard admitiu que ‘não é exatamente desta forma’ que as coisas estão acontecendo no Brasil de Lula. O filósofo francês diz que o que o interessa mais no que diz respeito ao Brasil é ‘a resistência ao modelo mundialista’. E, esperançoso, se pergunta se não seria necessário ‘tentar guardar no imaginário’ a possibilidade de o Brasil poder continuar sendo ‘uma espécie de alternativa, que poderia fornecer um contraponto à evolução global’. Terá algum sentido essa esperança de Baudrillard?’

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