Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 13 E 14/05

Comunique-se

16/05/2006 na edição 381

VEJA vs. LULA
Leonardo Attuch

Contas do PT: a dúvida como notícia, 15/05/06

‘Um alerta aos leitores deste artigo: não tenho apreço pelo jornalista Márcio Aith, da revista Veja, e acredito que a recíproca seja verdadeira. A despeito dessa rusga pessoal, por motivos que ficarão claros nos parágrafos seguintes, quero discutir, com a maior objetividade possível, a reportagem produzida por Aith na última semana, nas páginas da revista Veja. Caso ele esteja disposto a responder, fico de prontidão para uma tréplica aqui mesmo no Comunique-se.

Em resumo, Aith publicou uma lista com supostas contas no exterior do senador Romeu Tuma, do diretor-geral da Polícia Federal, Paulo Lacerda, dos ministros Márcio Thomaz Bastos, José Dirceu, Luiz Gushiken e Antônio Palocci, bem como do presidente Lula. Aith, porém, deixou claro não ter certeza da veracidade das contas. Disse que iniciou uma exaustiva investigação em setembro de 2005, viajando até para a Suíça e a Argentina, mas admite que sua apuração não chegou a lugar algum. Ainda assim, decidiu publicar a lista das contas para evitar que o PT fosse chantageado por sua suposta fonte: o banqueiro Daniel Dantas, do grupo Opportunity. E Aith afirmou ainda que quebrou um acordo com a suposta fonte para impedir que fossem prejudicados ‘o país e suas instituições’. É até comovente.

Em resposta à reportagem da Veja, o presidente Lula classificou o jornalista com adjetivos fortes: ‘bandido’, ‘malfeitor’, ‘mau caráter’ e ‘mentiroso’. Eurípedes Alcântara, o diretor de redação da Veja, também reagiu. Em nota oficial, disse que Lula é que entende de bandidos, uma vez que 40 pessoas ligadas ao governo acabam de ser denunciadas pela Procuradoria Geral da República por ‘formação de quadrilha’. Segundo Eurípedes, Veja prestou um serviço ao País, ao impedir que as tais contas fossem usadas numa operação de chantagem. Daniel Dantas, por sua vez, em entrevista à Folha de S. Paulo negou que tenha feito qualquer acordo com Aith a respeito da publicação das contas no exterior e ainda disse duvidar da veracidade das informações.

Não quero aqui discutir se os argumentos e adjetivos usados pelos envolvidos são ou não pertinentes. Eis o que cabe debater num foro da comunidade jornalística: (a) É lícito publicar acusações graves contra terceiros quando o próprio autor da reportagem admite não ter certeza do que publica? (b) Tendo havido acordo com a suposta fonte, o que é duvidoso, é correto rompê-lo? (c) É honesto lançar nas costas da suposta fonte a responsabilidade por uma denúncia que o próprio jornalista pretendia fazer?

Eis a minha interpretação dos fatos: Veja pretendia publicar as contas de qualquer maneira, mesmo sem uma apuração completa, e decidiu pendurar a conta nos ombros de um banqueiro um tanto polêmico. Assim, nos processos judiciais que deverão que vir pela frente – até porque as contas parecem ser falsas – eles poderão argumentar que tiveram apenas a intenção de ajudar o PT e o governo. Alguns dirão que essa construção jornalística foi um tanto engenhosa. Outros dirão que foi apenas cínica. E, assim, é até possível que a Polícia Federal decida prender o banqueiro Daniel Dantas como autor de um ‘Dossiê Cayman 2’, muito embora o banqueiro negue ter prestado qualquer informação ao jornalista Márcio Aith.

Curiosamente, seria a segunda oportunidade de Aith para eventualmente provocar a prisão do empresário baiano. A primeira surgiu no fim de 2004, quando Aith publicou a denúncia de que uma empresa privada – a Brasil Telecom, controlada por Dantas – estaria espionando o governo. Nascia a ‘Operação Chacal’. Dias depois, um suposto espião da Kroll foi preso dizendo agir a mando de DD (Daniel Dantas) e CC (Carla Cico). A partir dessa denúncia, a prisão de Dantas foi pedida em diversas ocasiões pela PF, sendo negada pelo Judiciário. Na Istoé DINHEIRO, por sua vez, fiz algumas reportagens apontando que a Operação Chacal poderia estar servindo a interesses questionáveis de parte do governo Lula, que pretendia promover a troca de controle acionário da Brasil Telecom. Seria uma operação policial a serviço de uma operação empresarial. Talvez tenha nascido aí a minha rusga com Aith, pois lancei dúvidas sobre seu ‘furo jornalístico’. Depois disso, a revista Veja também lançou rumores de que haveria, na imprensa brasileira, jornalistas ‘cooptados’ pela Kroll e pelo Opportunity. Na prática, quem contestasse a Operação Chacal, deflagrada após a reportagem de Aith na Folha, seria visto como elemento suspeito. Não foi à toa que a própria PF requereu a quebra do meu sigilo telefônico – o que foi negado pela Justiça.

Meses depois, em junho de 2005, publiquei a entrevista com a secretária Fernanda Karina Ramos Somaggio, na Istoé DINHEIRO. Um dia depois da publicação da reportagem, o próprio Aith, já empregado na revista Veja, saiu a campo para tentar lançar dúvidas sobre o nosso trabalho. Procurou pessoas influentes em São Paulo e disse que seu objetivo era desmontar a ‘maracutaia’ Fernanda Karina. Saiu de mãos abanando, conforme relatei no meu livro ‘A CPI que abalou o Brasil’. Ainda assim, na semana seguinte, a revista Veja lançou a suspeita – totalmente fantasiosa e improcedente – de que a reportagem com Fernanda Karina teria sido fruto de um conchavo que envolveria o banqueiro Daniel Dantas, o político Roberto Jefferson e o ex-governador Anthony Garotinho. Os editores da Abril, porém, tomaram o cuidado de atribuir tal delírio ao publicitário Marcos Valério de Souza, que estaria, segundo eles, espalhando tal versão.

Diante de toda a polêmica que cercou a cobertura do caso Brasil Telecom, iniciei alguns processos judiciais contra a Editora Abril e publiquei diversos artigos, tanto no Comunique-se quanto no Observatório da Imprensa, convidando os profissionais da Veja a debater o assunto comigo. Eles jamais aceitaram mas continuaram a me ‘investigar’. Mais recentemente, após a substituição do comando da Brasil Telecom – o grupo Opportunity perdeu a gestão para fundos de pensão e Citibank – o jornalista Márcio Aith voltou a sair a campo em busca de informações a meu respeito. Ele próprio pediu a um dos responsáveis pela comunicação da Brasil Telecom que checasse se havia qualquer pagamento da operadora de telefonia para mim ou minha esposa. Recebeu um não como resposta – e, pelo que me relataram, ficou um tanto desapontado com a negativa.

São essas as nossas diferenças e me proponho a debater aqui, no Comunique-se, tanto as minhas práticas profissionais e reportagens quanto as dele. Por ironia do destino, em setembro de 2005, o jornalista Márcio Aith acercou-se das mesmas fontes que a Polícia Federal supunha que fossem minhas – as fontes da suposta ‘quadrilha’ – em busca de informações contra o governo Lula e o PT. E agora, para servir ao país e às instituições, ele trai a ‘quadrilha’ para impedir que o PT seja vítima de uma chantagem. Inaugura-se, assim, um novo tipo de jornalismo: o que transforma a dúvida em notícia. Quem sabe não é o caso de começarmos a publicar fotos de sexo de meninas na internet, sem que saiba se os corpos lhes pertencem, apenas para que elas não sejam mais importunadas por ex-namorados?

(*) Editor de Economia da revista Istoé DINHEIRO e autor do livro ‘A CPI que abalou o Brasil’.’

Comunique-se

Lula ataca Veja por Dossiê Daniel Dantas, 15/05/06

‘Fonte: O Globo – Mais um dossiê nas mãos da imprensa. Primeiro foi o Dossiê Cayman, comprovadamente falso e que, em 1998, visava a atingir em cheio o então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso. Agora é a vez do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A revista Veja divulgou, na edição desta semana, o conteúdo do chamado Dossiê Daniel Dantas. Apesar de não ter conseguido comprovar a existência de contas secretas de Lula, do ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, dos ex-ministros Antonio Palocci e José Dirceu, do coordenador do Núcleo de Assuntos Estratégicos, Luiz Gushiken, do senador Romeu Tuma e do diretor-geral da Polícia Federal, Paulo Lacerda, no exterior, a publicação argumenta que optou por publicar a denúncia a fim de evitar que o material fosse utilizado para fazer chantagem.

Lula reagiu rápido. Sentindo-se ofendido com a acusação, que afirma ser infundada, ele se reúne nesta segunda-feira (15/05) com o advogado-geral da União, Álvaro Ribeiro, para mover uma ação contra Veja ou contra o banqueiro Daniel Dantas, que pode estar por trás do dossiê.

O presidente mostrou-se irritado com a reportagem, apesar de não tê-la lido quando falou sobre ela, no último sábado (13/05). ‘Não, a Veja não traz uma denúncia. A Veja traz uma mentira. Se tivessem me avisado que eu tinha 38 mil euros, eu teria comprado um presente para dona Marisa. Fico sabendo quando vou embora’. Ele também criticou alguns profissionais da revista. ‘Vamos ser francos com uma coisa: a Veja tem alguns jornalistas que já há algum tempo estão merecendo o prêmio Nobel de irresponsabilidade. Eu só posso considerar isso como um crime praticado por um jornalista ou por uma revista. Eu não posso comparar isso ao jornalismo. Sinceramente, é de uma leviandade e de uma grosseria que um ser humano comum não pode admitir, quanto mais um presidente da República. Ou seja: eu acho que quando as pessoas têm o poder de escrever alguma coisa, aumenta a responsabilidade. Eu acho uma total irresponsabilidade. Vocês conhecem alguns jornalistas que eu estou citando, vocês sabem o que ele tem feito nesses últimos meses. Eu não acredito que dentro da revista Veja tenha uma única pessoa que tenha 10% da dignidade e da honestidade que eu tenho. Eu não posso admitir isso! Eu não posso! É uma ofensa ao presidente da República, é uma ofensa ao povo brasileiro. E eu acho que essa prática de jornalismo não leva o país a lugar nenhum’.

Até sábado, ele não sabia que atitudes tomaria. Para Lula, a matéria sobre o Dossiê Daniel Dantas ‘é a pior prática do jornalismo. A Veja já vem assim há algum tempo. Não é de hoje não. Mas eu acho que ela chegou ao limite, chegou ao limite, chegou limite! Eu não sei se o jornalista que escreve uma matéria daquela tem a dignidade de dizer que é jornalista. Ele poderia dizer que é bandido, mau caráter, malfeitor, mentiroso. Eu não posso e é até constrangedor um presidente da República saber que tem uma mentira dessa grosseria numa revista que deveria respeitar seus leitores. Os leitores pagam a revista, são induzidos a assinar. E não merecem a quantidade de mentiras que ela tem publicado’.

Tanto o ministro da Justiça quanto Lacerda negaram ter contas secretas fora do País. Em nota, a Polícia Federal informou que vai instaurar inquérito policial para investigar os fatos divulgados por Veja. A PF também criticou a publicação, dizendo que a matéria ‘revela não apenas conduta criminosa por parte dos autores da farsa, mas também denota má-fé do jornalismo’.

Em nota, Veja se diz a ‘mais respeitada e lida revista brasileira e quarta revista semanal de informações do mundo pela qualidade de suas reportagens’. Afirma que a reportagem é ‘fruto de seis meses de investigação’ e ‘se trata de um trabalho de investigação sobre o banqueiro Daniel Dantas’.

Leia a nota de Veja, assinada pelo diretor de redação, Eurípedes Alcântara:

‘1) O presidente Lula não leu e não gostou do que não leu. Ainda assim reagiu intempestivamente à reportagem de VEJA. Insultou jornalistas e a publicação. É uma atitude imprópria para um presidente da República. É imperioso ler antes de criticar.

2) A VEJA chegou ao posto de mais respeitada e lida revista brasileira e quarta revista semanal de informações do mundo pela qualidade de suas reportagens.

3) Houvesse o presidente Lula lido a reportagem, teria percebido que se trata de um trabalho de investigação sobre o banqueiro Daniel Dantas, com o qual seu governo mantém uma relação tão conflituosa quanto incestuosa — relação que vem sendo objeto de reportagens de diversos veículos de comunicação.

4) O presidente disse que o autor da reportagem poderia ser chamado de ‘bandido e malfeitor’. Disso Lula entende. Nada menos do que 40 de seus companheiros mais próximos foram descritos pelo procurador-geral da República como uma ‘quadrilha’.

5) A reportagem em questão é fruto de seis meses de investigação. A divulgação do resultado do trabalho de apuração, como a própria reportagem ressalta, foi feita justamente para evitar o uso das supostas contas como elemento de chantagem.

6) A revista, na reportagem, não afirma que a conta bancária atribuída ao presidente Lula é verdadeira. Também não diz que é falsa, por não dispor de meios suficientes para fazê-lo.

7) Para concluir, VEJA reafirma seu compromisso com os leitores e com o Brasil de prosseguir em sua tarefa de fiscalizar o poder em todas as suas esferas, para impedir que ‘sofisticadas organizações criminosas’, ainda nas palavras do procurador-geral da República, continuem a corroer a democracia brasileira.’

Eurípedes Alcântara, Diretor de Redação da VEJA’



SÃO PAULO SOB ATAQUE
Eleno Mendonça

Hoje, não dá para falar de economia, 15/05/06

‘Não há outra manchete nem assunto possível. A onda de violência que começou em São Paulo abate a todos. Eu poderia escrever sobre o risco de inflação com a alta do petróleo, sobre a situação Bolívia-Brasil, mas tudo parece pequeno demais, pouco importante diante do fato de que estamos vivendo uma espécie de guerra, com bandidos por todos os lados matando gente inocente, matando sem motivo, queimando ônibus, invadindo bancos. Quando mães, viúvas e filhos choram seus mortos, não há como escrever sobre outro assunto.

A sociedade está estarrecida com tudo isso. Já tinhas assistido ao enfrentamento a policiais em serviço. É repugnante e inexplicável, mas o ataque a pessoas inocentes, fora de serviço, a bombeiros, guardas municipais, florestais, atinge o ápice da bestialidade, da falta absoluta de senso. Antes os bandidos, ainda que bandidos, tinham um código de ética. Era coisa deles, mas era uma barreira. Não atacavam crianças, mulheres, velhos. Não atacavam polícia. Parece que tudo foi subvertido.

A sensação é a de que o gradualismo do crime foi subindo aos poucos, as autoridades foram deixando o crime avançar, seja pela falta de políticas sociais, seja por falta de emprego, de mais escola ou ainda pela gratuidade da violência. Não importa o motivo, fica a impressão de que se chegou ao ápice, ao cume de uma situação que apenas se adiava com o tempo.

Não há quem não se consterne nem se solidarize. Lula pregou mais escola, Alckmin maior rigor na segurança, os demais candidatos à presidência, Freire, Heloisa Helena, Cristovam, lembraram não se tratar de um problema de um Estado, mas do país todo. Não cabe escolher culpados, mas cabe de tudo um pouco. Todas as mudanças que se puder fazer nas leis devem ser feitas e rapidamente; todo o rigor para conter a violência e essa onda deve ser aplicado; toda a atenção com as gerações futuras, com escola, com saúde, deve virar prioridade.

O toque de silêncio certamente foi o que mais se ouviu no fim de semana. Matamos mais gente do que a guerra do Iraque, viramos manchete no mundo todo. Para não dizer que a coluna Economês não falou de economia, tudo isso afeta sim todos os segmentos, o que inclui a economia. Mexe com intenções de investimento, com o ir e vir de executivos. Afinal, quem quer se instalar e aplicar num lugar onde o índice de seqüestros, assaltos, assassinatos e tão alto?

A análise fria dos números, contudo, dos prejuízos que se possam ter, deve ser posta de lado, pelo menos por enquanto. Quando se vê a vida indo embora, quando se vê as pessoas trancadas em casa com medo, quando se une uma população na indignação, tudo isso perde seu valor. Fica a esperança de que todo o rigor se volte contra o crime, que se acabe de vez com o uso de celulares, com os corruptos que atuam nos cárceres e permitem a comunicação de chefes do crime, que o País olhe um pouco mais por suas crianças.

Outro dia ouvi de um taxista, diante da imagem de uma pessoa buscando latinhas pelo meio fio, uma imagem que nos acostumamos em várias cidades, a frase: ‘Como é possível se viver assim num País como o nosso? Se jogarmos um caroço de laranja no chão nasce uma laranjeira’. A esperança está nisso, na potencialidade do Brasil, nas suas riquezas, na capacidade de seu povo em improvisar e trabalhar. Nossos políticos deveriam olhar para tudo isso e, ainda que por uma desgraça como essa, tentarem um caminho comum. Os cidadãos agradeceriam, mesmo achando que não era preciso chegar a esse estado de coisas.

(*) Também assina uma coluna no site MegaBrasil e é diretor de Comunicação da DPZ. Ele passou pelo Estado de S. Paulo, onde ocupou cargos como o de chefe de Reportagem e editor da Economia, secretário de Redação, editor-executivo e editor-chefe, Folha de S. Paulo, O Globo e Jornal do Brasil.’

Cassio Politi

Como foi a sua 2ª-feira na São Paulo acuada?, 15/05/06

‘Onde você estava às nove e meia da noite de ontem? Pois eu estava procurando um lugar para jantar em uma cidade em que nunca estivera antes: São Paulo, onde moro há 11 anos. Minha história certamente não é única. Cada um guardou suas desagradáveis sensações. Faço o meu e convido você a fazer o seu desabafo sobre a onda de violência. Tiremos juntos as nossas conclusões, jornalistas que somos. Afinal, jornalismo se faz nos fatos da vida.

* * * * *

Há pouco mais de um mês, saíamos de uma festa de encerramento do Curso de Jornalismo Esportivo do Comunique-se. Era uma confraternização envolvendo jornalistas e estudantes. Íamos, num grupo de umas 15 pessoas, do local da festa para uma padaria na região da Av. Paulista, onde tomaríamos um lanche. Era dia de semana e mais da metade daquelas pessoas trabalhariam no dia seguinte.

No caminho, um dos alunos (cujo nome não vem ao caso) fez uma conversão proibida. Não conhecia as ruas por ali e se confundiu. Havia policiais militares por perto. A abordagem foi chocante. Diante de mais de 15 testemunhas, o policial berrava e ameaçava ‘dar um tiro na cara’ do jovem. Sim, foi com essas palavras que ele se dirigiu ao garoto, cuja timidez se revelou nas duas semanas de curso. Tudo porque, nervoso, ele demorou uns 30 segundos para achar o documento no porta-luvas. Achou o documento e estava tudo em ordem.

* * * * *

Só me vem à cabeça um adjetivo: covarde. Porque, ouvindo rádio hoje, às 8h, a notícia era de que não havia policiais na rua nem mesmo para atender um acidente de trânsito na 23 de Maio e que postos da PM estavam fechados, com policiais acuados lá dentro. Foi o que noticiou a Jovem Pan AM.

Sim, eu sei, nem todos os policiais militares agem dessa forma; eu sei que a instituição merece respeito; eu mesmo conheço pessoas de bem que fizeram carreira na PM e jamais abordariam pessoas dessa forma; eu mesmo, no período em que cobri Cidades como repórter, constatei que há, sim, gente na Polícia que honra a farda. Ao policial militar cabe fazer o policiamento ostensivo e, portanto, multar um carro é sua obrigação. Sim, todos sabemos disso tudo. Mas a pergunta é: as pessoas de bem na Polícia Militar são regra ou exceção? Quando a força da polícia é colocada à prova, a maioria trata de defender a população ou se esconde atrás de muros e de discursos?

* * * *

Quem quiser enumerar tudo o que viu, use à vontade o espaço de comentários abaixo e entre na onda de revolta daqueles que não devem, mas temem. Vou puxar a fila e contar como foi a minha segunda-feira, 14 de maio (com horários aproximados):

:: 8h – Uma pessoa da minha equipe me liga, apavorada, pedindo folga. Motivo: com a falta de policiamento nas ruas, ladrões tentaram entrar na sua casa. Por sorte, não conseguiram arrombar a porta. Não conseguiu dormir até o sol raiar.

:: 13h – Uma segunda funcionária telefona para o Comunique-se. Pede folga porque o ônibus que toma para o trabalho está fora de circulação.

:: 15h – Uma aluna pergunta se a aula desta terça-feira será cancelada… Motivo: um possível ‘toque de recolher’ na cidade.

:: 16h – Meus pais me ligam e dizem que não podem sair no centro de São Vicente (no litoral) porque está tendo um tiroteio no centro.

:: 16h – As pessoas no Comunique-se comentam os bancos que foram metralhados na Vila Olímpia, perto do escritório do Comunique-se.

:: 17h – A rua em frente ao Comunique-se fica congestionada num horário em que costuma ser pacata.

:: 17h – Meu irmão, que é advogado a trabalha a um quilômetro de casa, pede para alguém buscá-lo no trabalho porque acha arriscado demais tomar um ônibus.

:: 18h – O escritório do Comunique-se, com cerca de 30 pessoas, fica vazio. As pessoas pedem para ir embora e são autorizadas. Tento avisar que a história do ‘toque de recolher’ é falsa. Pensando bem… se acreditamos em qualquer boato é sinal de que sabemos que, numa situação tão caótica, tudo é possível.

* * * * *

Eu não tive escolha. Fiquei no Comunique-se até mais tarde. Saí acompanhado dos companheiros Rodrigo Azevedo e Wanderley Correa. Como de praxe, queríamos jantar ou tomar um lanche. Um restaurante, uma lanchonete, uma padaria, um boteco que sirva um pão com queijo… tanto faz. Quase tudo estava fechado. Só sobrou a padaria, ali perto do escritório. Quando você entra num lugar e vê policiais, sente-se seguro, não? É… talvez sim, talvez não. Quiçá por um resquício de ingenuidade, ao ver policiais por perto, eu me sinto seguro, sim. Mas confesso que, pela primeira vez, senti alívio ao ver policiais pagando a conta no caixa da padaria.

* * * * *

Fui para a casa pelas ruas de uma cidade que não conhecia e que nunca imaginei que pudesse existir. Eram nove e meia da noite e postos de gasolina, shopping centers, lojas de redes grandes como McDonald’s, Wal Mart, Graal e tantas outras estavam fechadas. Cenas inéditas. De tudo o que foi falado ou escrito pelos colegas da imprensa, o comentário que mais me agradou veio de Anchieta Filho, mais ou menos assim: ‘o governo precisa entender que violência se combate com ação, e não com discurso’.’



CRISE POLÍTICA
Milton Coelho da Graça

Nem Silvio Pereira nega o Esso de Soraya, 10/05/06

‘Acho difícil alguém tomar de Soraya Aggege o Prêmio Esso de Jornalismo deste ano. É aquela velha história: mas dar o prêmio a uma entrevista em vez dar para uma série de cinco ou seis matérias, com três ou quatro assinaturas?

Mas eu acho que uma entrevista pode ter todos os ingredientes necessários para marcar uma biografia profissional de repórter. Lembro-me, por exemplo, da entrevista que Getúlio Bittencourt fez com o presidente Figueiredo, que exigiu falar sem gravador e ler o texto antes da publicação para ter certeza de que Getúlio tinha entendido tudo muito bem. E o presidente reconheceu, espantado: ‘Como é que esse sujeito gravou tudo isso na memória?’

A Soraya merece o prêmio (pelo menos se não aparecer até o fim do ano uma outra supermatéria) pela idéia do perfil, pela abordagem malandra embora totalmente sincera, pela precisão dos temas levantados, pela paciência de aturar as idas-e-vindas bem como os chiliques do Sílvio Pereira – enfim, por tudo. Não vou repetir tudo que O Globo publicou em sua nova e excelente seção ‘Por dentro do Globo’ (página 2 do primeiro caderno; sobre o trabalho de Soraya, saiu em 8/5). Até porque sempre vale a pena ler (e aprender) o making of de uma grande matéria.

E quem teve a paciência de ver o depoimento de Sílvio Pereira na CPI (10/5) pôde também ver como ele negaceou, mentiu e até simulou maluquice o tempo todo, mas em nenhum instante teve coragem de pôr em dúvida a entrevista. (‘Irresponsabilidades’, artigo na pág. 2 da Folha desta quarta, 10/5)

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Engano de Delfim só de propósito

O mau uso, ou melhor dizendo, o uso errado de palavra ou palavras é muito usado para confundir o debate e o leitor em questões controversas.

‘Armas de destruição em massa’ foi uma expressão usada de má fé e já custou mais cem mil vidas numa guerra, cuja razão óbvia hoje era apenas controlar uma das maiores reservas de petróleo do mundo.

‘Expropriação’ vem sendo viciosamente empregada no debate sobre a ação inamistosa da Bolívia em relação a instalações da Petrobras, cujo claro e único objetivo – pelo menos até agora – é o de conseguir uma grana adicional pelo gás, que, aliás, na verdade, vem sendo pago a preço de banana, em comparação com os níveis internacionais.

O uso de ‘expropriação’ por Eike Batista, por exemplo, não surpreende, até porque, além de preferir lanchas e negócios à riqueza vocabular, está tratando de defender sua EFX de acusações mais visíveis – as de crime ambiental e de não respeitar as leis bolivianas.

Mas Delfim Netto, nossa mais experiente estrela tanto na ciência econômica, como em comando governamental e nas artes de ensinar e escrever, não pode ser perdoado por usar ‘expropriação’ como primeira palavra de um artigo que pretenda explicar o ocorrido na Bolívia. Mestre Delfim não erra nem na forma nem no conteúdo quando se trata de um assunto dessa natureza.

Com toda a certeza, foi de propósito o uso incorreto dessa palavra. (‘Irresponsabilidades’, artigo na pág. 2 da Folha, quarta-feira, 10/5).’



JORNAL DA IMPRENÇA
Moacir Japiassu

Enterro de Garotinho, 11/05/06

‘(…) Segredos que o homem

ora esquece ora esconde

Segredos que a noite tece

segredos que na noite somem

(Talis Andrade in Sertões de Dentro e de Fora)

Enterro de Garotinho

A considerada Rachel Gomes Furtado, de Cuiabá, envia esta preciosa notícia distribuída pela Agência Estado e sepultada em vários jornais pelo país afora:

FUNERÁRIA OFERECE ENTERRO DE GRAÇA PARA GAROTINHO.

O empresário Arany Marchetti, dono de uma funerária em Sorocaba, a 92 km de São Paulo, ofereceu um ‘enterro’ de graça ao ex-governador do Rio, Anthony Garotinho, que está em greve de fome para protestar contra acusações de irregularidades em doações de campanha.

Rachel esclarece que não poderá comparecer às exéquias do falecido, mas enviará rosas de seu jardim; Janistraquis, que também está impossibilitado de viajar, promete arrecadar algum dinheiro entre os frustrados eleitores de Garotinho aqui em Cunha, dinheiro suficiente para despachar respeitável coroa de flores.

Resquiescat in pace.

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Questão de rabo

Janistraquis, que já leu, viu e ouviu muita besteira pela vida afora, longa vida, diga-se, tropeçou em mais esta, tocaiada numa página de O Globo:

Porte de arma levou Pimenta Neves a matar ex-namorada, diz psiquiatra.

SÃO PAULO – Sem o porte de arma, o jornalista Antonio Marcos Pimenta Neves não teria matado a ex-namorada Sandra Gomide, em agosto de 2000. A avaliação é do psiquiatra Marcos Pacheco de Toledo, da Unifesp, antiga Escola Paulista de Medicina, que cuidou do jornalista por quatro meses depois que ele assassinou Sandra.

Meu secretário foi duro como um Evo Morales desses sertões brasileiros:

‘Considerado, o assassino tinha 63 anos à época do crime; era diretor de Redação do Estadão; não possui mísera côdea de caráter, pois costumava comer, promover e depois demitir as subordinadas. E aí vem o ‘psiquiatra’ e diz que o elemento só matou porque estava com um revólver no bolso…’

De minha parte, concordo com o psiquiatra; é que uma pessoa só dá o rabo se tiver rabo pra dar.

(Leia a matéria que está amoitada no Blogstraquis)

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Terno e gravata

O considerado Mario Nicoll despachou sua dúvida para a coluna:

Está lá na capa do Globo Online neste momento: Ladrões de terno roubam prédio no Morumbi.

Afinal, os assaltantes surrupiaram as roupas dos moradores?

Nicoll enviou link pra gente conferir (http://oglobo.globo.com/online/default.asp), porém a tentativa resultou inteiramente vã e Janistraquis reclamou:

‘É, considerado, o Globo Online não dá colher de chá meeeeeeeeeeesssmo…’

(Consultado, um amigo que assina a versão impressa do jornal informou que os ladrões do prédio do Morumbi roubaram dinheiro e jóias; o título se refere à indumentária dos meliantes, que vestiam terno-e-gravata.)

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Vai dar praia

Mais antenado do que o senador Mercadante em dia de prévia no PT, o considerado Jonas dos Santos Marcondes via o telejornal Hoje, da Globo, quando densa nuvem lhe despencou sobre as cãs:

Evaristo Costa perguntou à moça do tempo : ‘E aí , vai dar praia neste fim de semana?’.

A moça do tempo respondeu: ‘Sim, Evaristo, vai dar praia no Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste.’

Jonas ficou intrigadíssimo com a praia no Centro-Oeste, porém Janistraquis já esperava pelo fenômeno:

‘É porque o sertão vai virar mar, ó Jonas…’

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Sérgio Augusto

O considerado Mestre, ensaísta de escol, diverte-se e nos diverte com mais uma obra-prima, intitulada O Gordo e o Magro, publicada originalmente no caderno Aliás, do Estadão. Aqui, o Magro é John Kenneth Galbraith, que morreu há pouco, depois de 97 anos de proficiente existência, e o Gordo é Anthony Garotinho, que talvez não chegue aos 47… ‘JKG valia o quanto media (2,06 m) e AG não vale o quanto pesa, embora isso possa ser corrigido se sua greve de fome durar até, digamos, outubro.’

(É obrigatória a visita ao Blogstraquis.)

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Drogas & drogas

A considerada Mônica Farias, de São Paulo, passava em revista as sugestões de matérias deste nosso portal, implicou com o título de uma delas e desabafou nesta mensagem ao colunista:

Está lá, no ‘banco de pautas’ do Comunique-se, na editoria de saúde, publicada em 10 de maio: ‘Drogas: como lidar com os filhos’. Tudo bem, deve ter mesmo por aí muito filho que não presta. Nada tenho contra um bem-intencionado que queira ajudar pais desgostosos a lidar com projetinhos de Richthofen. Mas, ou eu sou muito chata, ou realmente o título poderia ser um pouco menos duplo-sentido.

Numa rápida passada d’olhos, ó Mônica, Janistraquis também teve a impressão de que as drogas eram os filhos, mas logo se recuperou:

‘Ora, considerado, o título jamais poderia se referir aos rebentos, posto que, sabemos todos, estes são sempre umas coisinhas lindas, inocentes como o Lula e não mentem nunca… como o Lula!’

Confira aqui o teor desta pauta tão polêmica.

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Pequena fortuna

Com a necessária humildade o colunista informa que o site da Siciliano oferece A Santa do Cabaré, bom, honesto e elogiado romance (modéstia à parte), por R$ 6,60. Repito: seis reais e sessenta centavos. Livros novos, porque a Siciliano não é sebo; trata-se simplesmente de encalhe e se eu fosse o considerado leitor destas linhas compraria logo vários exemplares, pois o preço é, convenhamos, de banana em ano de supersafra. E tem mais: já pensou se disparam por aí uma bala doida e o autor do romance recebe o Prêmio Nobel?!?!?! O comprador dos livros teria em casa uma pequena fortuna…

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Copi e revisor

O considerado Benito Alemparte despacha do Rio de Janeiro:

A matéria intitulada Os deputados mais ausentes da Assembléia, de O Globo, edição de domingo, 7 de maio, contém erros graves; o principal deles é exceção com dois esses (excessão). Além disso, um dos parágrafos começa assim: ‘Os números relativos HÁ mais de três anos de mandato..’; e este outro: ‘Enquanto André TÊM explicações de sobra…’.

Tenho a ligeira impressão de que O Globo está precisando de copidesques ou revisores, não é mesmo?

Janistraquis diz aqui, em voz baixa, que não tem impressão, tem é certeza, ó Alemparte.

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E o gasoduto, hein?!?!

O considerado Carlos Roberto Costa, de Nova Friburgo, recebeu de Carlos Azuaga e encaminhou para Janistraquis:

Geisel avisava

De 1957, quando foi nomeado representante do Exército no Conselho Nacional do Petróleo, a 1979, quando deixou a Presidência da República, o general Ernesto Geisel batalhou contra a construção do gasoduto boliviano. Às vezes foi abertamente contra a idéia. Em alguns casos, cozinhou os grupos de interesse.

Seu argumento era o seguinte:

‘E quando aqueles bolivianos fecharem a válvula, o que é que eu faço? Mando o Exército lá abrir?’

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Segundona

Depois de um dia de estafante trabalho, nossa considerada Karla Siqueira, gerente da Unidade de Produção Avançada deste portal, foi dar uma derradeira olhada no noticiário e deparou com este inusitado título do Globo Online:

París dispuesto a estudiar petición de traslado de Moussaoui.

Assustada, Karla imaginou que Evo Morales tivesse mandado seu exército avassalar o Brasil e já tivéssemos adotado o idioma do invasor, porém Janistraquis enviou mensagem para acalmar nossa editora:

‘Garanto à considerada que a invasão se dará lentamente e só estará concluída quando Vasco, Flamengo, Corinthians, São Paulo, etc., etc., disputarem o Campeonato Boliviano.’

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Viva a Tribuna!

O considerado Roldão Simas Filho, diretor de nossa sucursal em Brasília, de cuja varanda debruçada sobre a corrupção viu Silvinho Pereira sair da CPI sem algemas, pois Roldão enviou à coluna cópia de mensagem que houve por bem despachar para Paulo Roberto Sampaio, diretor de Redação da Tribuna da Bahia:

Prezado senhor: como sou viciado em leitura de jornais, passando por Salvador comprei os números do dia 4 de maio dos três jornais baianos que encontrei no aeroporto: A Tarde, o Correio da Bahia e a Tribuna da Bahia. Dos três, na minha opinião, o que melhor informou sobre a crise com a Bolívia foi a Tribuna da Bahia, apesar de ser o menor deles em número de páginas, tanto que achei merecerem esta mensagem.

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Nota dez

O considerado José Paulo Lanyi furou a chamada grande imprensa com o texto intitulado Richthofen continuará na prisão. A notícia exclusiva, com absoluta ausência de contrapartida, sempre foi e será o filé mignon do jornalismo, iguaria que o colunista deste portal só não devorou sozinho porque teve a gentileza de convidar amigos e admiradores. Janistraquis, guloso comensal, envia cumprimentos.

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Errei, sim!

‘SIMPLESMENTE QUATRO – Quando um caderno de esportes resolve fazer contas, pode-se esperar coisa boa. É exemplo o Estadão, com a matéria Paulistas podem ficar com metade das vagas. Logo abaixo o ‘olho’ informava: ‘Com a vitória do Santos anteontem, a perspectiva é de que 50% dos oito clubes que se classificam para as finais do Brasileiro sejam paulistas’. Admirado, Janistraquis gaguejou: ‘Considerado, 50% de oito não são apenas e simplesmente quatro?’. É… o Estadão se enrolou.’ (junho de 1992)’



JORNAL DA IMPRENÇA
Moacir Japiassu

Enterro de Garotinho, 11/05/06

‘(…) Segredos que o homem

ora esquece ora esconde

Segredos que a noite tece

segredos que na noite somem

(Talis Andrade in Sertões de Dentro e de Fora)

Enterro de Garotinho

A considerada Rachel Gomes Furtado, de Cuiabá, envia esta preciosa notícia distribuída pela Agência Estado e sepultada em vários jornais pelo país afora:

FUNERÁRIA OFERECE ENTERRO DE GRAÇA PARA GAROTINHO.

O empresário Arany Marchetti, dono de uma funerária em Sorocaba, a 92 km de São Paulo, ofereceu um ‘enterro’ de graça ao ex-governador do Rio, Anthony Garotinho, que está em greve de fome para protestar contra acusações de irregularidades em doações de campanha.

Rachel esclarece que não poderá comparecer às exéquias do falecido, mas enviará rosas de seu jardim; Janistraquis, que também está impossibilitado de viajar, promete arrecadar algum dinheiro entre os frustrados eleitores de Garotinho aqui em Cunha, dinheiro suficiente para despachar respeitável coroa de flores.

Resquiescat in pace.

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Questão de rabo

Janistraquis, que já leu, viu e ouviu muita besteira pela vida afora, longa vida, diga-se, tropeçou em mais esta, tocaiada numa página de O Globo:

Porte de arma levou Pimenta Neves a matar ex-namorada, diz psiquiatra.

SÃO PAULO – Sem o porte de arma, o jornalista Antonio Marcos Pimenta Neves não teria matado a ex-namorada Sandra Gomide, em agosto de 2000. A avaliação é do psiquiatra Marcos Pacheco de Toledo, da Unifesp, antiga Escola Paulista de Medicina, que cuidou do jornalista por quatro meses depois que ele assassinou Sandra.

Meu secretário foi duro como um Evo Morales desses sertões brasileiros:

‘Considerado, o assassino tinha 63 anos à época do crime; era diretor de Redação do Estadão; não possui mísera côdea de caráter, pois costumava comer, promover e depois demitir as subordinadas. E aí vem o ‘psiquiatra’ e diz que o elemento só matou porque estava com um revólver no bolso…’

De minha parte, concordo com o psiquiatra; é que uma pessoa só dá o rabo se tiver rabo pra dar.

(Leia a matéria que está amoitada no Blogstraquis)

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Terno e gravata

O considerado Mario Nicoll despachou sua dúvida para a coluna:

Está lá na capa do Globo Online neste momento: Ladrões de terno roubam prédio no Morumbi.

Afinal, os assaltantes surrupiaram as roupas dos moradores?

Nicoll enviou link pra gente conferir (http://oglobo.globo.com/online/default.asp), porém a tentativa resultou inteiramente vã e Janistraquis reclamou:

‘É, considerado, o Globo Online não dá colher de chá meeeeeeeeeeesssmo…’

(Consultado, um amigo que assina a versão impressa do jornal informou que os ladrões do prédio do Morumbi roubaram dinheiro e jóias; o título se refere à indumentária dos meliantes, que vestiam terno-e-gravata.)

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Vai dar praia

Mais antenado do que o senador Mercadante em dia de prévia no PT, o considerado Jonas dos Santos Marcondes via o telejornal Hoje, da Globo, quando densa nuvem lhe despencou sobre as cãs:

Evaristo Costa perguntou à moça do tempo : ‘E aí , vai dar praia neste fim de semana?’.

A moça do tempo respondeu: ‘Sim, Evaristo, vai dar praia no Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste.’

Jonas ficou intrigadíssimo com a praia no Centro-Oeste, porém Janistraquis já esperava pelo fenômeno:

‘É porque o sertão vai virar mar, ó Jonas…’

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Sérgio Augusto

O considerado Mestre, ensaísta de escol, diverte-se e nos diverte com mais uma obra-prima, intitulada O Gordo e o Magro, publicada originalmente no caderno Aliás, do Estadão. Aqui, o Magro é John Kenneth Galbraith, que morreu há pouco, depois de 97 anos de proficiente existência, e o Gordo é Anthony Garotinho, que talvez não chegue aos 47… ‘JKG valia o quanto media (2,06 m) e AG não vale o quanto pesa, embora isso possa ser corrigido se sua greve de fome durar até, digamos, outubro.’

(É obrigatória a visita ao Blogstraquis.)

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Drogas & drogas

A considerada Mônica Farias, de São Paulo, passava em revista as sugestões de matérias deste nosso portal, implicou com o título de uma delas e desabafou nesta mensagem ao colunista:

Está lá, no ‘banco de pautas’ do Comunique-se, na editoria de saúde, publicada em 10 de maio: ‘Drogas: como lidar com os filhos’. Tudo bem, deve ter mesmo por aí muito filho que não presta. Nada tenho contra um bem-intencionado que queira ajudar pais desgostosos a lidar com projetinhos de Richthofen. Mas, ou eu sou muito chata, ou realmente o título poderia ser um pouco menos duplo-sentido.

Numa rápida passada d’olhos, ó Mônica, Janistraquis também teve a impressão de que as drogas eram os filhos, mas logo se recuperou:

‘Ora, considerado, o título jamais poderia se referir aos rebentos, posto que, sabemos todos, estes são sempre umas coisinhas lindas, inocentes como o Lula e não mentem nunca… como o Lula!’

Confira aqui o teor desta pauta tão polêmica.

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Pequena fortuna

Com a necessária humildade o colunista informa que o site da Siciliano oferece A Santa do Cabaré, bom, honesto e elogiado romance (modéstia à parte), por R$ 6,60. Repito: seis reais e sessenta centavos. Livros novos, porque a Siciliano não é sebo; trata-se simplesmente de encalhe e se eu fosse o considerado leitor destas linhas compraria logo vários exemplares, pois o preço é, convenhamos, de banana em ano de supersafra. E tem mais: já pensou se disparam por aí uma bala doida e o autor do romance recebe o Prêmio Nobel?!?!?! O comprador dos livros teria em casa uma pequena fortuna…

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Copi e revisor

O considerado Benito Alemparte despacha do Rio de Janeiro:

A matéria intitulada Os deputados mais ausentes da Assembléia, de O Globo, edição de domingo, 7 de maio, contém erros graves; o principal deles é exceção com dois esses (excessão). Além disso, um dos parágrafos começa assim: ‘Os números relativos HÁ mais de três anos de mandato..’; e este outro: ‘Enquanto André TÊM explicações de sobra…’.

Tenho a ligeira impressão de que O Globo está precisando de copidesques ou revisores, não é mesmo?

Janistraquis diz aqui, em voz baixa, que não tem impressão, tem é certeza, ó Alemparte.

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E o gasoduto, hein?!?!

O considerado Carlos Roberto Costa, de Nova Friburgo, recebeu de Carlos Azuaga e encaminhou para Janistraquis:

Geisel avisava

De 1957, quando foi nomeado representante do Exército no Conselho Nacional do Petróleo, a 1979, quando deixou a Presidência da República, o general Ernesto Geisel batalhou contra a construção do gasoduto boliviano. Às vezes foi abertamente contra a idéia. Em alguns casos, cozinhou os grupos de interesse.

Seu argumento era o seguinte:

‘E quando aqueles bolivianos fecharem a válvula, o que é que eu faço? Mando o Exército lá abrir?’

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Segundona

Depois de um dia de estafante trabalho, nossa considerada Karla Siqueira, gerente da Unidade de Produção Avançada deste portal, foi dar uma derradeira olhada no noticiário e deparou com este inusitado título do Globo Online:

París dispuesto a estudiar petición de traslado de Moussaoui.

Assustada, Karla imaginou que Evo Morales tivesse mandado seu exército avassalar o Brasil e já tivéssemos adotado o idioma do invasor, porém Janistraquis enviou mensagem para acalmar nossa editora:

‘Garanto à considerada que a invasão se dará lentamente e só estará concluída quando Vasco, Flamengo, Corinthians, São Paulo, etc., etc., disputarem o Campeonato Boliviano.’

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Viva a Tribuna!

O considerado Roldão Simas Filho, diretor de nossa sucursal em Brasília, de cuja varanda debruçada sobre a corrupção viu Silvinho Pereira sair da CPI sem algemas, pois Roldão enviou à coluna cópia de mensagem que houve por bem despachar para Paulo Roberto Sampaio, diretor de Redação da Tribuna da Bahia:

Prezado senhor: como sou viciado em leitura de jornais, passando por Salvador comprei os números do dia 4 de maio dos três jornais baianos que encontrei no aeroporto: A Tarde, o Correio da Bahia e a Tribuna da Bahia. Dos três, na minha opinião, o que melhor informou sobre a crise com a Bolívia foi a Tribuna da Bahia, apesar de ser o menor deles em número de páginas, tanto que achei merecerem esta mensagem.

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Nota dez

O considerado José Paulo Lanyi furou a chamada grande imprensa com o texto intitulado Richthofen continuará na prisão. A notícia exclusiva, com absoluta ausência de contrapartida, sempre foi e será o filé mignon do jornalismo, iguaria que o colunista deste portal só não devorou sozinho porque teve a gentileza de convidar amigos e admiradores. Janistraquis, guloso comensal, envia cumprimentos.

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Errei, sim!

‘SIMPLESMENTE QUATRO – Quando um caderno de esportes resolve fazer contas, pode-se esperar coisa boa. É exemplo o Estadão, com a matéria Paulistas podem ficar com metade das vagas. Logo abaixo o ‘olho’ informava: ‘Com a vitória do Santos anteontem, a perspectiva é de que 50% dos oito clubes que se classificam para as finais do Brasileiro sejam paulistas’. Admirado, Janistraquis gaguejou: ‘Considerado, 50% de oito não são apenas e simplesmente quatro?’. É… o Estadão se enrolou.’ (junho de 1992)’



WEBJORNALISMO
Mario Lima Cavalcanti

Repensando o texto para a mídia digital, 9/05/06

‘Seis anos após o lançamento do livro ‘Webwriting – Pensando o texto para mídia digital’, Bruno Rodrigues, principal nome brasileiro no assunto, lança este mês sua segunda obra, ‘Webwriting – Informação & Redação para a Web’, cujo conteúdo está, segundo o próprio autor, mais conciso e atemporal.

Em uma agradável conversa no hall do Cine São Luiz, no Largo do Machado, no Rio de Janeiro, Bruno falou sobre o campo da distribuição de conteúdo digital e sobre o novo livro, com lançamento previsto para o final de maio.

Jornalismo Online – Bruno, seis anos se passaram desde o lançamento do seu primeiro livro. O que os leitores encontrarão na nova obra e o que muda de uma para a outra?

Bruno Rodrigues – A primeira obra, composta de duas edições e com os seus 3.200 exemplares esgotados em março do ano passado, é focada mais na teoria. Naquela época, é claro, eu não ia escrever um livro baseado só na teoria. Tinha uma prática minha, uma prática de pesquisa etc. Mas é mais baseada em teoria. Então, ela foi focada muito em cima dos princípios: persuasão, objetividade, usabilidade, navegabilidade. Eu chegava a tocar no assunto jornalismo online. Mas eu não falava sobre o conteúdo como raciocínio. E, naquela época, embora eu já achasse – não só eu, mas também muita gente que já pesquisava esse assunto – que webwriting não é só redação online, e sim raciocínio de distribuição de conteúdo. Nessa nova edição acho que a grande diferença foi a inclusão de muitos textos sobre conteúdo em geral. Tem até uma parte grande sobre elementos da informação online, que encara a imagem, o ícone, o áudio e o vídeo com a mesma importância do texto.

Jornalismo Online – Como ficam nomes como Crawford Kilian e Jakob Nielsen nessa história (risos)? Eles continuam tendo a mesma influência que tiveram no primeiro livro?

BR – Olha (risos), eu vou ser muito sincero. O Crawford Kilian é como se fosse o meu avô. Mesmo. Até porque ele é um senhor (risos). Então eu acho que nada teria acontecido como divulgação do assunto e como fundamentação se não fosse o livro dele [Writing for the Web]. Só que o Crawford preferiu sempre focar o estudo dele, – pelo menos, até agora – no texto como informação. Ele não foi além. Enquanto isso, outros estudiosos foram além. O Jakob Nielsen, para mim, continua sendo o máximo. Por que digo isso? O Nielsen é muito marqueteiro? É! Mas, na minha opinião, o Jakob Nielsen foi o responsável pela credibilidade da Web. Porque ele transformou uma área que era totalmente subjetiva, baseada no achismo, e graças a Deus estamos começando a nos livrar disso, daquele cara que, do nada, chega e diz ‘eu acho que vermelho é bom, eu acho que esse texto não é bom, eu acho que esse layout não tá legal’, e ele transformou isso em perguntas para o usuário, em testes. Então, quando ele trouxe o terreno da objetividade para a área do subjetivo, criou o percentual para uma área que era nas nuvens, que ninguém tinha o que pegar. Então, quando você tem números e quando você pergunta para o usuário o que ele quer, o que ele acha muda totalmente o foco. Acho que nesses últimos anos talvez essa seja a grande diferença também da área em geral pensando em empresas. Acho que a chegada das pesquisas, de vários institutos, do Nielsen Norman Group, isso mudou a percepção das empresas em relação a Web em geral.

Jornalismo Online – Em relação justamente a esse campo de pesquisa de mídias digitais, tem algum grande nome novo na área, alguma revelação? E quais os maiores nomes no assunto além dos já citados?

BR – Mario, tem um cara, o nome dele é Nick Usborne. Há uns quatro anos ele é considerado uma revelação em webwriting. Eu acho que ele tem umas boas sacadas, mas ainda não disse a que veio. Talvez porque ele ainda esteja naquela parte de mexer o caldeirão. Daqui a pouco, vai sair alguma coisa dali. A Amy Graham – há anos eu falo dela – foi uma discípula automática do Crawford Kilian. Foi ela que jogou o molho da persuasão no estudo do conteúdo, ela continua muito ativa nisso, falando de blog, de RSS, ela fala muito de RSS. Então ela abriu o leque da visão do que é o conteúdo. Isso, lá fora, no exterior. No Brasil, o que me deixou muito contente nos últimos anos, e foi até por isso que eu citei o seu nome na Webinsider (risos) [no artigo Os bons companheiros], foi porque o jornalismo online como pesquisa no Brasil evoluiu muito. Tem você, tem o Meira [Prof. José Antonio Meira da Rocha]. A área acadêmica se apaixonou pelo jornalismo online. Embora eu ache que, como área profissional, são outros quinhentos. Eu acho uma área muito restrita. A atividade noticiosa online é muito restrita. Agora, como área de pesquisa, me dá um orgulho. O Brasil é bom.

Jornalismo Online – Em relação à área acadêmica, você acha que as universidades estão olhando mais pra esse assunto? É claro que todo mundo está falando mais em mídias digitais, mas você vê na prática essa questão evoluindo, as faculdades se voltando mais para isso?

BR – Eu vejo. Em 2001 e em 2002, houve um vácuo nas universidades e até nos cursos de jornalismo. O que era eletiva, jornalismo online, webwriting etc. e que estava começando a virar cadeira, de repente, começou a sumir. Aí eu falei: ‘caramba, gente, e agora?’. E o que aconteceu de uns dois ou três anos pra cá? Subitamente, essas cadeiras começaram a voltar. Começaram a voltar embasadas, com livros até como o meu, como o do Crawford, como o do JB Pinho – que eu recomendo muito- como o da Pollyana Ferrari (pelo amor de Deus, o livro dela é maravilhoso!) Então, passou a ser um estudo, um ensino sério. Não um ensino com alguns defeitos como era feito lá trás, em 2000 mais ou menos. Percebi que as aulas de jornalismo online eram muita redação, e aí o aluno ia perceber depois que não existia tanta diferença no que diz respeito à redação.

Jornalismo Online – Você falou há pouco no Nick Usborne. Por que você o considera revelação? Quais as diferenças entre as pesquisas dele e as do Crawford Kilian?

BR – O Nick não é um empreendedor nem um pesquisador. Ele é um estudioso. Ele é importante exatamente porque está conectado com a idéia atual de conteúdo, que não é somente de texto. Ele está conectado com a idéia de que uma imagem, às vezes, pode ter a capacidade de passar uma informação muito maior que a de um texto. Eu vejo o redator como um amante da frase. Já o webwriter – ou o gestor da informação digital, que é até um termo que eu gosto de usar mais agora – é um amante da palavra. Até com essa onda toda de Web semântica, a palavra tomou uma importância muito grande. A palavra passou a guiar. Eu acho que o gestor da informação digital está muito mais preocupado em como organizar e sinalizar a informação como um todo do que escrever um texto bonitinho.

Jornalismo Online – Então você quer dizer que o gestor da informação digital não pegaria só a informação textual, mas ele estaria também preparado para encarar, por exemplo, publicidade online?

BR – Tem alguns conhecimentos, Mario, que dizem respeito ao conteúdo geral hoje em dia, que são, além do webwriting, a arquitetura da informação, a acessibilidade digital e o direito digital, sendo esta última uma em que poucos se ligam em utilizar a arquitetura visando também à proteção do conteúdo. Então o que acontece? Você tocou na questão da publicidade online. É importante entender também o texto como venda dele próprio, venda no sentido de atrair o usuário. E a publicidade entra nesse meio, é fundamental. Outro dia postaram até na lista [referindo-se à lista de discussão Jornalistas da Web] como seria uma faculdade de comunicação hoje em dia se fosse voltada para mídia digital. Para mim, seria uma especialização em mídia digital com cadeiras como publicidade online, webwriting, arquitetura da informação, webdesign, programação, direito digital, acessibilidade, etc. Ou seja, teria uma formação geral em Web.

Jornalismo Online – Como poderia se chamar então essa especialização? Gestão da informação?

BR – Eu acho, Mario. Sabe por quê? Não é querendo puxar sardinha para o meu lado não (risos), mas quando se fala em gestão da informação digital, você inclui o design também, que é um meio pra você passar informação.

Jornalismo Online – No primeiro livro, você falou sobre conteúdo granular, que foi até uma coisa que achei bem legal na época. Como você vê hoje em dia o campo móvel, a produção de conteúdo portátil? Tem alguma coisa mais profunda sobre isso no novo livro?

BR – O conteúdo granular virou um nó. O conteúdo para mobile (granular) se tornou quase uma prateleira de uma loja. O usuário vai lá para pegar e usar alguma coisa. É claro que, como eu falei no primeiro livro, na hora de fazer um textinho pra mobile, seja qual for, você vai fazer ele curto, persuasivo, etc. Só que uma real informação, que seja atraente sem ser um serviço, sem ser um produto como ringtone e wallpaper, está difícil. Então, por isso é que eu bato tanto na tecla da administração do conteúdo como um todo. Qual a diferença entre o conteúdo informativo tradicional e o conteúdo informativo para mídia digital que existe em geral? O conteúdo informativo para mídia digital tem uma ligação muito maior com a base tecnológica que possibilita que ele exista do que um conteúdo anterior. Claro que, com o jornal, a TV e o rádio sempre houve uma ligação com a tecnologia, mas agora o profissional tem que ter um conhecimento muito maior pra saber de que jeito ele pode usar a tecnologia e transmitir melhor aquela informação. Então, se o webwriter vai trabalhar com mobile, ele tem que entender que o que ele vai trabalhar ali pode ser um serviço, pode ser um produto e talvez a informação seja a embalagem para esse recheio.

Jornalismo Online – Você não acha que a popularização do acesso sem fio, do Wi-Fi, de repente pode fazer com que surjam muitos canais de notícias? Aqui mesmo onde estamos podemos ter um ponto de acesso móvel. Você não acha que talvez nos próximos meses esse cenário possa mudar, possam começar a surgir sites planejados pra mobile?

BR – Vão surgir sim. O meio está mais maduro. Eu vejo esse surgimento, mas acho que o conteúdo em si ainda está minguando.

Jornalismo Online – Os cursos que você tem dado até agora influenciaram no conteúdo da nova obra?

BR – Só influenciaram. Porque eu passei a perceber a realidade dos alunos. Muitos alunos caem de pára-quedas pra cuidar de conteúdo. Tem muita gente de intranet. Então, de repente, um engenheiro é obrigado a fazer o site de intranet da área dele na empresa em que trabalha. Tem também aquele jornalista que trabalhou 20 anos no jornal impresso e tem a necessidade, não de se adaptar ao mercado, mas de querer entender o que está acontecendo. Agora, sabe uma coisa que eu noto sempre? Você sabe quais são os mais resistentes para essa área nova? O pessoal na faixa de 20 anos. Porque tem muito daquele discurso: ‘Ah, tudo isso aí eu já ouvi, tudo isso aí eu já tinha idéia…’. Eu sinto nessa faixa uma falta de curiosidade, uma falta de interesse em estudar, em pesquisar. Eu percebo que, quem não é da área de comunicação, ou quem é da velha guarda, está muito mais interessado que o pessoal jovem. Eu vejo as pessoas ainda muito fixadas em jornalismo online. E não é por aí.

Jornalismo Online – Como você vê os jornais online brasileiros hoje em dia?

BR – Eu vejo todos como protótipos ainda. Eu vejo coisas horríveis de vez em quando. Estou sendo sincero. Eu ainda não vi um veículo brasileiro de que pudesse ter orgulho. Teve um momento que eu tive orgulho do Último Segundo. Acho que, num momento, ele conseguiu vender a marca dele. Fazer um jornalismo online legal. Agora, isso é natural? Talvez seja ainda. Você vê toda hora tanto jornal mudando. O New York Times mudou agora há pouco. Talvez o mundo esteja tateando ainda. Quem disse que a Internet é o ápice da evolução humana em tecnologia da comunicação? Quem sabe no ano 4000, no ano 2100 a gente não vai ter uma nova coisa e isso tudo vai ter sido superado? Então, nós estamos engatinhando nisso ainda, nessa forma de comunicação.

Jornalismo Online – Por que você diz que se orgulha do Último Segundo?

BR – Bem, eu me orgulhava, né? (risos). Porque acho que ele marcou época. Eu acho que para uma Internet brasileira que precisava de algumas marcas pra dizer ‘a gente está dando certo’, o Último Segundo foi interessante.

Jornalismo Online – Mas e quanto a outros sites que hoje em dia são formadores de opinião, como Blue Bus e Webinsider?

BR – Bom, vou ter que falar do Comunique-se (risos). Olha, Mario, acho sensacional sites como Blue Bus, Comunique-se, WebInsider, IDGNow!, WNews. São sites que, ao mesmo tempo, são capazes de pegar um assunto como tecnologia e falar tanto para experts quanto para um aluno que está numa faculdade de comunicação e que está começando a entender o que é Web. E, além disso, conseguir congregar uma grande comunidade. Eu acho que esses sites realimentam o conhecimento e a comunidade: a grande nação Web (risos).

Jornalismo Online – Certo, Bruno (risos). Pra fechar, pode falar à vontade sobre o novo livro. Quando será o lançamento? O que você preparou?

BR – Mario, ao longo desse tempo eu tive muito retorno por causa do livro. Quando eu o escrevi, até porque eu sabia que ia ser o terceiro livro no mundo sobre webwriting e o primeiro em língua portuguesa, eu sabia que tinha aí um nicho que eu estava ocupando. Eu comecei a ter retorno de professores de comunicação, de alunos de comunicação, de diversas empresas. O livro acabou servindo como ferramenta para muita gente. É do que eu mais me orgulho nessa história toda, de ter servido até agora como um dos alicerces pra importância do estudo do conteúdo no Brasil. O livro vai ser lançado agora em maio. No final de maio já deve estar nas livrarias. Nesse livro, eu consegui tornar os textos atemporais. Consegui olhar pra frente e produzir um material que vai sobreviver. A editora é a Brasport, uma editora tradicional no ramo da tecnologia, e a tiragem inicial é de 1.000 livros, mas eles estão preparados pra soltar mais 1.000.’



MERCADO DE TRABALHO
Eduardo Ribeiro

A força do Interior, 15/05/06

‘Estamos vendo já há alguns bons anos importantes investimentos realizados no chamado jornalismo regional, fruto não só da visão de empresários e profissionais, como da própria pujança do Interior brasileiro.

A edição impressa de Jornalistas&Cia que está circulando nesta quarta-feira traz, de uma só vez, três notícias relevantes da mídia regional, dando conta de que também nesse segmento o cenário está agitado e promissor.

Uma delas dá conta da formação de uma rede de jornais do Interior de São Paulo para a cobertura das próximas eleições e foi apurada pelo editor-executivo Wilson Baroncelli, numa conversa com Eugênio Araújo, diretor de Assuntos Institucionais da Associação Paulista de Jornais e diretor de Redação do Jornal de Jundiaí.

Baroncelli começa reproduzindo um editorial coletivo publicado na mídia regional com algumas questões que servem de pano de fundo: Qual é a essência dos programas dos principais candidatos à Presidência da República ou ao Governo do Estado de São Paulo? Como pretendem tratar cada item incluído na relação de prioridades? De onde virão as verbas indispensáveis para a correção dos rumos de setores estratégicos, como educação, saúde, segurança pública e transportes? O que farão para que o Brasil e o Estado desfrutem, nos próximos 25 anos, de um período ininterrupto de desenvolvimento sustentável?

Ele prossegue lembrando que estas e outras perguntas estão num editorial publicado no último domingo (7/5) pelos 16 jornais do Interior integrantes da Associação Paulista de Jornais – APJ, intitulado ‘Desafio aos candidatos’, que marca a criação de uma rede para a cobertura das próximas eleições. A cada semana, esses veículos (a lista completa está no www.apj.inf.br) trarão reportagens, artigos analíticos, entrevistas, perfis e debates publicados, aos domingos, sob o selo Agenda Brasil (para as eleições presidenciais), e às 5ªs.feiras, com a marca Agenda São Paulo (para o pleito estadual).

Eugênio Araújo disse que a proposta não é fazer uma cobertura factual, que os grandes veículos e as agências de notícias já contemplarão, mas, sim, um trabalho diferenciado. ‘O que pretendemos é saber o que pensam e planejam os candidatos, quais as propostas e planos efetivos que têm para o País e o Estado. Vamos fazer diagnósticos e discutir programas’, diz ele, lembrando que esses jornais somam 450 mil exemplares aos domingos e 320 mil às 5ªs.feiras e circulam pela região mais desenvolvida do País.

A coordenação do projeto estará a cargo do publisher, consultor e professor de Comunicação Fernando Portella. Augusto Nunes, diretor de Redação da Editora JB, atuará como editor-chefe, conciliando as duas atividades. A equipe fixa é completada por Alceu Castilho, correspondente da APJ em Brasília, que será editor-executivo, e por Mônica Paula, coordenadora do site do Master em Jornalismo, editora-assistente.

Londrina

Outra notícia vem lá de Londrina e dá conta de que o Jornal de Londrina, que pertence à Rede Paranaense de Comunicação, maior grupo de mídia do Paraná, que é também dono da Gazeta do Povo (maior jornal do Estado, com sede em Curitiba) e de oito emissoras de TV que transmitem a programação da Globo, além de uma rádio FM em Curitiba e um portal na internet, mudou de formato (migrou do standard para o berliner, que é um pouco menor) e passou a ser distribuído de graça. Isso mesmo, de graça. São 30 mil exemplares diários que serão entregues domiciliarmente para leitores cadastrados. E para se cadastrar, é só ligar. Os telefones são 0800-704-3030 ou 43-3377-3030.

Em semanas, o JL é o terceiro jornal brasileiro a adotar o formato berliner e o segundo a optar por circulação gratuita. Também já circulam no formato berliner o Jornal do Brasil (exemplares de banca) e o Panorama, de Juiz de Fora, que também adotou a gratuidade na circulação. No caso do Panorama, a empresa cobra R$ 9,90 pela entrega domiciliar, taxa que não é cobrada pelo Jornal de Londrina, que é 100% gratuito.

A estréia do novo JL – e também do novo site www.jornaldelondrina.com.br – deu-se neste domingo (7/5). As mudanças, segundo informou um dos editores que atuaram no projeto, surgiram de uma necessidade do mercado local, que tem encolhido com as sucessivas crises da agricultura.

Foi a equipe da Gazeta do Povo, aliás, que coordenou a reestruturação do Jornal de Londrina, diário que, além das mudanças já citadas, passa a contar com uma nova logomarca, textos mais curtos (matérias de no máximo 2.700 caracteres) e maior interatividade com o leitor (em seções criadas especialmente para isso), entre outras novidades editoriais.

Estiveram à frente desse processo Nélson Souza Filho, diretor de Redação, e Cláudia Belfort, editora-chefe. Na parte gráfica e de design atuaram o editor-executivo de Imagem, Ricardo Humberto, e o editor de Arte, Marcos Tavares; e na parte editorial, além de Souza Filho e Cláudia, os editores-executivos Eduardo Aguiar, Franco Iacomini e Oscar Rocker, todos da Gazeta do Povo, mais a editora-chefe do JL, Carla Nascimento.

Desde o início de abril havia uma equipe trabalhando na implantação do novo modelo, com edições experimentais produzidas desde 13/04. Os assinantes do antigo Jornal de Londrina vão receber em casa a edição Interior da Gazeta do Povo, com o JL encartado.

A equipe não sofreu cortes. ‘Pelo contrário – diz o editor-executivo Franco Iacomini -, nas últimas semanas foram contratados dois repórteres temporários, porque durante três semanas a redação fechou simultaneamente o jornal velho, standard, e o novo. E preparou diversas reportagens especiais.’

Maringá

Já em Maringá, também no Paraná, as novidades vêm por iniciativa de O Diário do Norte do Paraná, que ganhou um novo projeto gráfico e editorial, consolidando as mudanças iniciadas na metade do ano passado com a reforma física da redação, seguida da contratação da Innovation Media Group, ali representada pelo gaúcho Eduardo Tessler, para elaborar o novo modelo editorial do jornal, e do desembarque do novo editor-chefe, Décio Trujilo, na cidade, em janeiro passado, deixando para trás a assessoria de imprensa da Secretaria da Justiça de São Paulo e levando na bagagem 25 anos de experiência em veículos como Estadão, Gazeta Mercantil e Jornal da Tarde. Depois, entrou em cena o designer Ricardo Melo, que ficou com a responsabilidade de transformar em projeto gráfico o modelo editorial, agora concluído. Michael Vieira da Silva, diretor de Conteúdo do jornal, diz que o resultado de toda essa ‘usina de criação de idéias’ é um trabalho dinâmico e moderno, como nunca se viu em Maringá e região. Jornalistas&Cia conversou com ele sobre as principais mudanças em O Diário:

Jornalistas&Cia – Quais as principais inovações do projeto e que objetivos têm?

Michael Vieira da Silva – O novo projeto gráfico tem como pilares a utilização de microformatos (pequenos quadros explicativos com números, frases, mapas, cronologia de algum fato, datas, pontos a destacar, passo a passo, etc…), fotos mais abertas, textos curtos e visual mais clean. Já o novo modelo editorial tem um estilo jornalístico com ênfase no leitor, buscando sempre o diferencial em relação às demais mídias, enfoque exclusivo, muito serviço e valor agregado, com atuação em Maringá e em toda a região. Também é um jornal em duas velocidades, uma para quem dedica mais tempo à leitura (os leitores-leitores) e outra para quem quer um informativo rápido e fácil de ler (os leitores-folheadores). E entre as novidades temos um caderno standard com circulação dirigida a 70 municípios da região de cobertura do Diário, que não circula em Maringá.

J&Cia – Qual o investimento realizado e em quanto tempo o novo projeto foi desenvolvido?

Michael Vieira da Silva – Foram oito meses de projeto e mais de R$ 500 mil investidos na reforma física da redação, na contratação de novos profissionais para a redação, na compra do sistema editorial EPS (similar ao Goodnews e ao Hermes), na contratação da consultoria Innovation e no projeto gráfico.

J&Cia – Em termos de circulação, quais os planos?

Michael Vieira da Silva – Chegar a 20 mil assinantes pagos no IVC (Instituto Verificador de Circulação) até o final de 2006 e 25 mil assinantes pagos nos próximos 24 meses, com forte crescimento na região Noroeste do Paraná.’



CASO SUZANE RICHTHOFEN
José Paulo Lanyi

O atraso do oficialismo, 11/05/06

‘Conforme este espaço antecipou, há uma semana, Suzane Richthofen continuará presa, ao menos até o seu julgamento, marcado para 5 de junho. Na coluna anterior, anunciaram-se dois dos três votos da 5a Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo. Como o terceiro desembargador havia pedido vista do processo, o resultado já estava sacramentado: no mínimo 2 a 1 pela manutenção da custódia.

Hoje foi revelado o terceiro voto. O desembargador Antonio Carlos Tristão Ribeiro também acompanhou o relator José Damião Pinheiro Machado Cogan, cuja decisão fora publicada aqui. Portanto, Suzane continuará presa, o pedido de habeas corpus foi negado pelos três desembargadores.

Este colunista leu o que outros veículos publicaram sobre os dois votos apresentados na semana passada. O título-padrão realçava o adiamento da decisão. Explica-se: havia o risco de algum dos desembargadores mudar de idéia, se não os dois.

O precedente era este, informava, dias antes, uma reportagem publicada no site do Ministério Público do Mato Grosso do Sul:

Justiça paulista permite acesso de cão-guia no metrô

A 7ª Câmara de Direito Público do TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo) permitiu, nesta segunda-feira (3/4), que a advogada e deficiente visual Thaís Martinez possa circular com o seu cão-guia, Boris, nas dependências do metrô, sem a apresentação do documento de identidade criado pelo regulamento interno da companhia.

Segundo a assessoria de imprensa do TJ-SP, na última semana, os desembargadores Walter Swensson (relator) e Guerrieri Renzende, haviam proferido votos a favor contra a advogada. O metrô condicionava a entrada de Thaís à apresentação de documento de identidade expedido pela companhia e da identificação do animal vacinado e treinado.

O julgamento da decisão foi adiado, a pedido do desembargador Moacir Peres que, nesta segunda-feira, proferiu voto a favor de Thaís. Os demais desembargadores também mudaram seus votos, favorecendo a advogada.

Ela poderá circular pelas dependências do metrô sem a necessidade da carteira expedida pela empresa. Para isso, terá que apresentar somente os documentos apontados na Lei 12.492/97: atestado de saúde do animal, atestado de treinamento e termo de responsabilidade por eventuais danos.

Segunda-feira, 3 de abril de 2006

A lógica, portanto, seria irrefutável: se já houve mudança de voto no passado, não se pode anunciar o resultado sem que se apresente o terceiro voto. Sem dúvida, digo eu, desde que se atenha ao release ou a outro meio de divulgação oficial. Ressalto esse porém.

Uma das peculiaridades do jornalismo é a sua capacidade de antecipar os fatos. Isso se dá, principalmente, pela análise das informações. A fórmula o quê-quem-quando-como-onde-por quê não se aplica apenas ao lead. Ajuda a construir o pensamento, a avaliar as pessoas, as motivações, a atmosfera, as deliberações, as implicações, as próprias conseqüências.

No caso em questão, garante esta coluna, não havia o menor risco de que um dos dois desembargadores alterasse a sua decisão. Hoje se sabe: o terceiro voto acompanharia os demais- o que não foi determinante, como se disse aqui, sete dias antes.

Conclusão: o oficialismo provocou o atraso da notícia que os grandes veículos tinham a obrigação de divulgar, há uma semana: Suzane Richthofen permanecerá na prisão.

(*) Jornalista, escritor, dramaturgo, ator, é autor de quatro livros, um deles, com a peça ‘Quando Dorme o Vilarejo’ (Prêmio Vladimir Herzog). No jornalismo, tem exercido várias funções ao longo dos anos, em veículos como allTV, TV Globo, TV Bandeirantes, TV Manchete, CNT, CBN, Radiobrás e Revista Imprensa, entre outros. Tem no currículo dois prêmios em equipe: Esso e Ibest. Nascido em Brasília, filho de um oficial do Exército e de uma artista plástica, é paulistano de coração e torcedor de um clube do Rio de Janeiro: o Vasco da Gama- time que escolheu aos sete anos, quando morava no Rio Grande do Sul.’



TELEVISÃO
Antonio Brasil

‘Central’: jornalismo, antropologia ou cafonice?, 15/05/06

‘‘A vida não é só essa porcaria que a gente vê na TV’.

Sambista em Central da Periferia, 13/05

Experimentar em televisão é muito difícil. Na TV brasileira, ou seja, na Globo, é quase impossível. Principalmente em programas de auditório durante os finais de semana. Neste verdadeiro abismo da programação televisiva não faltam baixarias e porcarias como o Faustão e Caldeirão do Hulk. Mas, apesar das críticas, na falta de competição, esses programas ainda lideram a audiência e faturam muito. O telespectador brasileiro é refém de uma programação que não costuma experimentar ou arriscar.

Em televisão, experimentar significa criar, testar ou misturar novas e velhas idéias. Mas, antes de tudo, experimentar inclui a possibilidade de ‘errar’. No entanto, na TV brasileira, ou seja, na Globo, errar significa a possibilidade de diminuição de lucros e audiência. E isso não é admissível. Nesse cenário de poucos riscos e muitas ‘mesmices’, a televisão brasileira prossegue na sua trajetória de liderança e decadência. Mais do que nunca, vale o velho axioma, na TV brasileira ou seja, na Globo, ‘tudo que é bom já foi feito’.

Mas nos últimos anos, apesar dos axiomas e das dificuldades, o núcleo Guel Arraes tem conseguido ‘experimentar’ novos formatos em televisão com projetos ousados como o Programa Legal, Brasil Legal e Mercadão de Sucessos. Sempre cercado do talento ‘central’ de Regina Casé e com as idéias ‘periféricas’ do antropólogo Hermano Vianna, agora Guel Arraes dirige ‘Central da Periferia’ e comprova que ainda há espaço, criatividade e risco na televisão brasileira.

O ponto de partida de ‘Central’ é um auditório ao ar livre em qualquer das periferias do Brasil, comandado pela talentosíssima Regina Casé. Em cima do palco, a apresentadora carioca interage com o público, enquanto convida músicos para apresentarem seus sucessos locais. A música é a principal referência do programa editado com cenas dos bastidores dos shows e da vida das pessoas da região. O programa privilegia o talento e poder de comunicação de Regina, mas também tem muito trabalho de produção e pesquisa.

De uma certa forma, ‘Central’ se parece muito com os programas jovens produzidos com pouquíssimos recursos e muita criatividade pela equipe de Pedro Paulo Carneiro na TVE do Rio de Janeiro como o ‘Supertudo’ e aquele programa ‘No Telhado’, apresentado aos domingos. Televisão simples e criativa que não imbeciliza o público e que acredita no talento híbrido de apresentadores-atores-repórteres.

Antropologia na periferia

Sempre fui fã de carteirinha da atriz-repórter Regina Casé e das ousadias do antropólogo-produtor de TV, Hermano Vianna. A Regina todo mundo conhece. Mas pra quem não sabe, Hermano ainda é o irmão do Herbert dos Paralamas do Sucesso. Autor de livros fundamentais para entender a cultura da periferia brasileira como ‘O Mundo Funk Carioca’ e ‘O Mistério do Samba’ (ed. Jorge Zahar) e com uma produção extensa na vida acadêmica e nos meios de comunicação, um dia Herbert ainda vai ser conhecido como o irmão do Hermano. Mas isso é uma outra conversa.

Hermano Vianna não é jornalista. É antropólogo. Tudo a ver. Há muitos anos tento convencer nossos leitores e meus alunos que as duas disciplinas têm muito em comum. Ambas tratam do homem, suas manifestações culturais e questões sociais consideradas fundamentais para a nossa sobrevivência em um mundo cada vez mais complexo. Mera questão de profundidade.

Desde cedo, o antropólogo Hermano Vianna se interessou pelas ‘manifestações culturais que estão emergindo, geralmente nas periferias ou nos bairros pobres’. Segundo a divulgação do programa (Ver aqui). ‘Tudo o que a gente conhece como cultura brasileira, tudo o que nos identifica vem daí. A feijoada, o carnaval, o samba, o funk e os dois Ronaldinhos do futebol, todos são crias da periferia. Por isso, fui lá para ver o que acontece neste momento’.

Se você ainda tem dúvidas sobre a importância e a relevância da Antropologia para o jornalismo e para uma televisão de qualidade, corra e leia os livros de Hermano ou visite o seu site, Overmundo, (ver aqui). Imperdível!

Trata-se de um jornalismo televisivo com proposta e método antropológicos. Jornalismo experimental de alta qualidade, sem medo de buscar novas pautas e novos formatos. Jornalismo de TV menos arrogante, mais próximo do público, com linguagem jovem que alcança a central e a periferia.

‘Cada vez mais, a periferia toma conta de tudo. Não é mais o centro que inclui a periferia. A periferia agora inclui o centro. E o centro, excluído da festa, se transforma na periferia da periferia’, tenta explicar Hermano. ‘Nós fazemos televisão e, por isso, somos a periferia da cultura’, complementa Regina Casé. Meio confuso e ambíguo, mas acho que entendi.

Ingênuos e alienados

Mas. como toda ousadia e ‘experimentação’ televisiva, ‘Central da Periferia’ não é uma unanimidade. Nem todos apreciam ou entendem as transgressões do programa.

Para alguns críticos, o programa não passa de uma ‘tentativa de associar a cultura popular à cafonice. Uma injustiça histórica. No único interesse do lucro, essa indústria usa elementos manipuladores e alienantes para conservar a submissão de nosso povo aos seus desmandos. Trata-se de uma glamourização da pobreza, a valorização da alienação e da falta de educação’.

E as críticas prosseguem: ‘Não bastassem Gugus, Ratinhos e Faustões, o novo programa da Globo, Central da periferia, liderado por Regina Casé, registra a involução cultural de nosso povo, o orgulho de ser favelado, a apologia da banalização do sexo e da poesia, nada poética, das letras dos raps e dos funks’. Ver aqui.

A equipe da ‘Central’ se defende: ‘Não somos ingênuos nem alienados nem queremos passar uma imagem distorcida da realidade. Apenas mostrar que há uma outra imagem’, diz Regina. ‘Se a gente mostrasse somente o que era ruim, não sobraria espaço para as ações legais. Agora, podemos mostrar outros lados também. O espaço que a periferia tem na mídia é criminalizado; a pessoa aparece se o barraco cair em cima ou se ela for morta, envolvida em tragédias’.

Porcaria na TV

E para a crítica da FSP, Bia Abramo: ‘Alguma coisa não funciona num programa que se pretende uma ‘central’ e cuja tarefa, como escreveu o antropólogo, seria ‘amplificar as múltiplas vozes da periferia, para que elas conversem finalmente com o Brasil inteiro’. ‘Persiste aqui a idéia contestável de que a Rede Globo, ou qualquer outro aparelho central, é o instrumento por excelência que nacionaliza, no sentido de tornar nacionais manifestações culturais brasileiras. Ao manter um mercado fechado e com enormes barreiras de entrada, o Brasil sufoca a sua própria criatividade’. É, pode ser.

Para conferir tanto a proposta como as críticas, assisti à ‘Central da Periferia’ deste sábado, 13/05 e tenho que confessar que…adorei! Aos gritos, Regina Case convoca a favela de Heliópolis em São Paulo, ‘Quem aqui gosta de beijar na boca? Então botem a língua pra fora…Eu tô trabalhando, mas não estou morta.’. Perceberam o tom da proposta? Central é um excelente programa experimental que mistura tudo o que a TV tem de melhor e pior. É um Supertudo. Segue uma receita de sucesso ao misturar reportagem, entretenimento, showmício e entrevistas em meio a muito talento. Mas sofre de um grave defeito. A proposta inovadora do programa se perde na frieza das gravações e da edição. Deveria e merecia ser… ao vivo. Afinal, TV de verdade é ao vivo. VT é TV ao contrário.

Esta semana, em um dia particularmente grave com a chacina dos policiais paulistas, o programa de Regina Casé aproximou a ‘Central da Periferia’, misturou São Paulo com o Brasil, Samba com Rap, Olodum com Salgueiro, Rock com Forró, Hip Hop com Pagode, boa música com jornalismo e Antropologia de qualidade.

Mas programa experimental, mesmo pré-gravado, ainda é muito arriscado. No programa deste sábado, o melhor momento ficou por conta do desabafo meio inesperado e surpreendente do sambista da periferia paulista contra a mídia: ‘A vida não é só essa porcaria que a gente vê na TV’. Ainda estou tentando entender. Afinal, o desabafo foi um mero deslize de edição ou foi um grito da periferia contra a TV brasileira, ou seja, contra a Globo?’



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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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