Domingo, 23 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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JORNAL DE DEBATES > O CASO CBS

Condenados por falta de provas

Por Luiz Weis em 18/01/2005 na edição 312


‘De acordo com uma fonte da Broadcasting & Cable [2/1/05] em Washington, o presidente da CBS News, Andrew Heyward, e a chefe da sucursal em Washington, Janet Leissner, tiveram uma reunião com o diretor de comunicações da Casa Branca, Dan Bartlett, para resolver os problemas de relacionamento da emissora com a administração de George W. Bush. A popularidade da CBS caiu na Casa Branca depois da reportagem de Dan Rather no 60 Minutes sobre o serviço prestado pelo atual presidente na Guarda Nacional, na década de 70. Um incentivo para melhorar as relações com o governo é o iminente relatório do júri que investiga o uso de documentos forjados pela CBS para a matéria do 60 Minutes.’ (‘CBS faz as pazes com a Casa Branca’, Observatório da Imprensa, 11/1/05)


O relatório, de 224 páginas mais apêndices, saiu no mesmo dia da edição do OI. Escolhido pela cúpula da CBS, o ‘júri’ – um ex-presidente da agência Associated Press e um ex-procurador geral dos Estados Unidos, que por sua vez subcontrataram sete advogados da filial de Washington de uma grande banca, a um custo estimado em até 1 milhão de dólares – concluiu que a ânsia pelo furo levou a divisão de jornalismo da emissora e os editores do programa 60 Minutes a pôr no ar, a partir de quatro memorandos que sabiam serem suspeitos, uma reportagem sem fundamento sobre a doce vida de George W. Bush na Guarda Nacional do Texas, nos anos 1970, onde a influência do pai o amoitou para que não precisasse servir no Vietnã.


A matéria foi transmitida numa noite de quarta-feira, 8 de setembro, menos de dois meses antes da eleição que acabou dando um segundo mandato a Bush II. Dan Rather, o veterano (72 anos) âncora e repórter da rede, não participou da apuração. O duo de jurados descobriu que, recém-chegado de uma cobertura no exterior, ele tinha apenas uma vaga noção das origens da denúncia, quando começou a apresentá-la, lendo o que outros escreveram no telepromter.


Mas Dan Rather é provavelmente o jornalista de primeira linha mais odiado pela direita americana. (Outro é Seymour Hersh, da New Yorker.) Um dos mais agressivos liberals (progressistas) da grande mídia de seu país, trombou com Richard Nixon, Ronald Reagan e, numa memorável troca de gritos, em 1988, ao vivo, com o então candidato presidencial Bush I. Além disso, pouco antes da invasão do Iraque, teve o desplante de entrevistar em Bagdá o monstruoso Saddam Hussein, sem hostilizá-lo. Existem pelo menos dois sites (Ratherbiased.com e Rathergate.com) dedicados a destruí-lo.


Histórico de pressões


A política (no caso, a relação entre o jornalismo e o poder na América de Bush) é indissociável de praticamente tudo o que se seguiu desde aquela noite – ou desde antes até. Pois, embora o relatório da comissão de dois tenha isentado os jornalistas do programa das acusações de facciosismo político que passaram a chover sobre eles, principalmente na chamada blogosfera, mal a reportagem acabou de ser exibida, só mesmo um recém-chegado de Titã, a lua de Saturno, poderia ignorar que, além de dar um olé na concorrência, o pessoal envolvido com a reportagem queria mesmo, com toda a probabilidade, cravar os caninos na jugular de Bush, para fazê-lo se esvair eleitoralmente.


A produtora da matéria, Mary Mapes, tinha até procurado o escritório da campanha do candidato democrata John Kerry para que o pessoal entrasse em contato com o ex-oficial da Guarda Nacional que seria depois identificado como o fornecedor dos documentos. Segundo o New York Times, numa matéria de primeira página com ar de quem se compraz com a desgraça alheia – como o resto da mídia se deliciou com a confissão das malandragens do seu repórter Jayson Blair e as cabeças coroadas da redação que rolaram em seguida –, ‘Ms. Mapes, que mora no Texas, era conhecida na CBS pela sua persistente cobertura agressiva do presidente Bush, desde quando era governador’.


E ela não era uma Mary qualquer. No ano passado, dessa vez trabalhando em parceria com Dan Rather, ela pôs a CBS no topo do mundo ao mostrar, também no 60 Minutes, as primeiras imagens da infâmia de Abu Ghraib. (A direção de jornalismo da emissora, com a anuência de Rather, segurou a matéria duas semanas, a pedido do governo. E mais não segurou porque soube que Hersh estava para publicar fotos da mesma série na New Yorker.) E antes disso ela revelou que o falecido senador arqui-racista Strom Thrumond tinha tido uma filha com uma empregada negra.


Aos seus chefes, a mais bem paga dos produtores da CBS News dissera que punha a mão no fogo pela fonte dos documentos que comprovariam o bem-bom do bravo soldado Bush – e pela autenticidade dos papéis. A dupla de auditores a condenou em última análise por falta de provas irrefutáveis das suas descobertas. Ela não teria se esforçado o suficiente para checar a verdadeira origens dos memorandos e sua veracidade. Divulgado o relatório, Mary se apressou a observar, nesse ponto com razão, que ‘o painel não concluiu que os documentos eram falsos’.


A opinião geral, a propósito, é que os papéis foram forjados, possivelmente a partir de outros, autênticos. Seja como for, os fatos a que se referem – os privilégios desfrutados pelo recruta Bush – estariam acima de qualquer dúvida.


Àquela altura, em todo caso, Mary já tinha sido demitida com desonra pelo presidente da CBS, Leslie Moonves. O passaralho se abateu sobre três outras figuras – uma vice-diretora sênior da divisão de jornalismo, um produtor executivo do 60 Minutes (que estava há seis dias no cargo quando a matéria rolou) e o seu sub. O diretor de jornalismo da estação, Andrews Heyward, ficou onde estava.


Dan Rather também, embora, depois de defender a reportagem a ferro e fogo e jogar a toalha logo em seguida, tenha anunciado que deixará de ancorar o noticioso nobre da rede, CBS Evening News, em março. O seu contrato vai até 2006. Antes de finalmente cair na real, Rather disse que as pressões sobre a emissora para renegar a matéria anti-Bush lembravam o que ela sofreu ‘durante o macartismo, durante o Vietnã, durante a luta pelos direitos civis, durante o Watergate’.


Equilíbrio e imparcialidade


As cabeças cortadas na CBS não serão o primeiro nem o último caso de fuzilamentos seletivos numa redação. Para ficar nos Estados Unidos, em 1998 a CNN saiu com uma matéria segundo a qual, durante a guerra do Vietnã, forças americanas usavam um gás letal que ataca o sistema nervoso contra seus camaradas que haviam desertado para o Laos. Seria a Operação Vento de Cauda. Por falta de provas, dançaram os repórteres envolvidos e os editores do programa; a turma do andar de cima escapou só com alguns arranhões.


‘Mapes caiu num conto do vigário e o criador da Operação Vento de Cauda foi convencido por fontes inconfiáveis’, compara Jack Shafer, editor itinerante do site Slate (http://slate.msn.com), para quem, aliás, ‘tirando um punhado de repórteres de direita que ficam sugando tetas conservadoras dentro do governo [Bob Woodward?], a maioria dos jornalistas investigativos vota nos democratas ou são esquerdinhas’. ‘Nenhuma evidência conflitante, quão forte pudesse ser, bastou para abalar a fé dos dois repórteres. Tragicamente, eles não parecem ter aprendido nas suas carreiras que a dúvida, não a certeza, é muitas vezes o melhor amigo do jornalista investigativo.’


Das muitas coisas que disse em sua defesa, Mary Mapes ressaltou que, por decisão dos seus superiores, entre eles o próprio Heyward, o segmento foi transmitido menos de uma semana depois de ter ela obtido o grosso da papelada, o que não lhe teria dado tempo de passar o pente finíssimo que a história exigia. Pode ser, pode não ser (dada a sua indisfarçada relutância em submeter a matéria à checagem implacável que decerto terminaria por derrubá-la).


Mas os críticos do relatório, como Jack Shafer, notam que os seus autores não identificaram quem foi que resolveu antecipar de 29 para 8 de setembro a emissão da matéria – um caso clássico de decisão crucial. Eles se limitaram a dizer que ‘a decisão foi influenciada em boa parte por pressões competitivas’.


Em geral, a iniciativa da CBS de formar uma comissão de inquérito independente e as conclusões dos comissionados foram recebidas como um remédio heróico para uma doença que aflige a mídia americana e da qual a emissora matriz do radiojornalismo e do telejornalismo de alta qualidade nos Estados Unidos hoje está longe de ficar imune: a perda de credibilidade.


‘Em 1988’, escreveu semana passada Howard Kurtz, repórter e colunista de mídia do Washington Post, citando o respeitado Pew Research Center, ‘58% do público não achava o noticiário político tendencioso. Em 2004, o índice caiu para 38%’.


Por trás desses números desalentadores está um dos grandes triunfos da direita americana na guerra político-cultural que vem travando com obstinação, competência e muito, muito dinheiro contra os valores liberais (no sentido americano) que predominaram no país – em boa parte por causa da renovação da visão de mundo da grande imprensa, personificada no New York Times e na CBS do lendário âncora Walter Cronkite – entre o fim do macartismo e o advento da chamada Revolução Reagan, na passagem da década de 1970 para a de 1980.


Lenta, gradual e seguramente, como já foi moda dizer por aqui, a direita moveu uma campanha afinal vitoriosa contra a suposta hegemonia da esquerda na mídia nacional dos Estados Unidos. De tanto serem acusados de facciosismo, cada vez mais os jornalistas passaram a buscar o Santo Graal do equilíbrio e da imparcialidade, sem atentar para o fato de que a direita não queria produções jornalísticas equilibradas e imparciais, mas cúmplices de seus objetivos.


Conclusão irrefutável


Para demonstrar que as inegáveis simpatias das redações pelo Partido Democrata não influenciavam os seus atos profissionais, muitos jornalistas de primeiro time se prestaram ao abjeto papel de câmara de eco do que outra coisa não era se não o golpe em curso contra o presidente Bill Clinton, conduzido pelo promotor ‘independente’ Kenneth Starr, um Torquemada made in USA, a pretexto de investigar obscuros negócios imobiliários do primeiro casal ainda em Arkansas – desembocando, sem trocadilho, no affaire Monica Lewinsky.


Apesar disso, o genial embrulhão que presidiu os Estados Unidos no seu mais longo período de prosperidade em tempos de paz se safou do impeachment. Mas a submissão da imprensa ao rolo compressor da direita só continuou a se aprofundar. Ainda está para ser escrita toda a história da contribuição da imprensa, em especial do telejornalismo americano, acumpliciada ou acoelhada, para a fraude eleitoral escancarada que levou Bush à Casa Branca em 2001. Mas um bom começo está no livro de Eric Alterman What Liberal Media? (Basic Books, 2003).


O 11 de Setembro, como se sabe, completou o serviço. O economista convertido em crítico de mídia Paul Krugman provou à farta como o jornalismo americano se associou à mentira erigida em política de Estado pela ‘junta Cheney-Bush’, como diz o escritor Gore Vidal (sem esquecer, naturalmente, do marqueteiro Karl Rowe, a quem se chegou a atribuir, com alguma plausibilidade, a montagem da armadilha em que caiu a CBS com os seus documentos duvidosos sobre os gloriosos dias de Bush na Guarda Nacional).


Quaisquer que tenham sido os erros – e foram muitos e foram graves – da matéria que desmoralizou o que a TV americana tinha de melhor em termos de jornalismo, juntamente com os noticiosos e documentários do Public Broadcasting System (PBS), eles não são páreo para o que faz, dia sim, o outro também, o mais popular canal jornalístico dos EUA, a Fox News de Rupert Murdoch.


O mesmo se pode dizer dos blogueiros conservadores que saíram de tochas em punho para incendiar a CBS e levar Dan Rather à estaca. O clima na blogosfera era de incitação ao linchamento. Na última edição da Columbia Journalism Review, fechada antes do desenlace da semana passada, Corey Pein observa com propriedade que os ataques dos blogueiros ao 60 Minutes, apresentados como um triunfo do intrépido povão anônimo sobre as elites preguiçosas da mídia convencional, foram antes um caso de pega-pra-capar.


‘Os blogueiros’, escreve Pein, ‘são culpados dos mesmos pecados’ de que acusam a CBS. Na manhã de 9 de setembro, exemplifica, o blog conservador Little Green Footballs (sic) apresentou uma experiência, que qualquer um poderia reproduzir, provando que os documentos sobre o tratamento adocicado a George Bush na Guarda Nacional, 30 anos atrás, foram criados em computador. Um perito foi convidado a se manifestar – e avalizou a alegação. O endosso saiu com destaque no Washington Post e, na mesma noite, foi ‘repercutido’ na Fox, MSNBC e CNN.


E quando um Ph.D da Universidade de Utah, David Hailey, ousou sugerir que os memorandos podem ter sido, sim, datilografados – o que não significaria necessariamente que fossem genuínos, advertiu – foi chamado na internet de ‘mentiroso, fraudulento e charlatão’. A sua caixa de correio eletrônico ficou inundada. Telefonemas anônimos à universidade exigiam a sua demissão.


‘Hailey não foi o único a sentir o que é ser alvo de um blog-mob‘, registrou Pein. ‘O chefe de uma filiada da CB-S disse ter recebido 5.000 e-mails contra a matéria do 60 Minutes, mas apenas 300 da área de alcance da emissora.’


A sua conclusão parece irrefutável: ‘Embora tenham saído em 2004 muitas matérias mais importantes do que sobre como George W. Buhs passou a guerra do Vietnã, para a mídia poucas foram tão importantes do que a cobertura do Memogate [como foi batizada a reportagem da CBS]. Quando a fumaça clareou, a autoridade do jornalismo convencional estava enfraquecida. Mas não precisava ser assim’.


[Texto fechado às 20:01 de 17/1]

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