Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1024
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JORNAL DE DEBATES >

Convencer, comover, deleitar

Por Francisco José Castilhos Karam em 05/04/2011 na edição 636

Quando aparecem algumas surpresas relacionadas à sobreposição informação-entretenimento, marca registrada de parte do jornalismo atual, alguns comentários são sugeridos.

Sempre houve, de alguma forma, mistura de assuntos sérios com amenidades. Ou de conteúdos relevantes (vinculados a partir do século 18 ao nascente espaço público moderno e posteriormente ao chamado interesse público) e conteúdos curiosos, insólitos, ‘interessantes’… mas não tão necessários de se conhecer para se situar no dia-a-dia.

O jornalismo presta contas à Retórica e à Dialética greco-romanas. Já entre os gregos, havia um certo consenso, entre os retores, de que o discurso dirigido a alguém deveria estar situado em três perspectivas: a) convencer; b) comover; c) deleitar.

Curiosidades diárias

No Renascimento, com o incipiente nascimento do ‘direito social à informação’, e o posterior surgimento dos meios massivos e rotineiros, já na Modernidade e Contemporaneidade – como o jornal periódico mensal, depois semanal e diário… e hoje a cada instante no ciberjornalismo –, houve um desdobramento do jornalismo em duas perspectivas centrais: de um lado, o chamado jornalismo de referência, a partir da herança que o jornalismo recebe do Realismo; de outro, o chamado jornalismo popular, a partir da herança do Melodrama.

O primeiro gerou o campo dos assuntos necessários para o conhecimento, a informação e a participação públicas, com o surgimento de jornais considerados mais sérios; o segundo, gerou o campo dos assuntos mais amenos ou curiosos, menos importantes, mas que complementam o dia-a-dia dos comentários sobre a vida pública e privada. Um e outro sempre se preocuparam com as formas narrativas, gerando diferentes gêneros, como a notícia, a reportagem, a crônica, o artigo. E, ainda, a charge, a história em quadrinhos, o folhetim… com, claro, formas narrativas diferenciadas, herdadas inicialmente da Literatura – do conto, do romance, da crônica…

Hoje, os chamados jornais de referência tendem a se tornar online, dado que seu público predominante tem acesso à mídia digital. Os jornais populares tendem a permanecer no impresso – e por longo tempo isso deve durar – à medida que seu público, enquanto não for incluído no mundo digital – o que deve passar por um processo de alfabetização, escolarização e domínio tecnológico – continuará tendo a mídia impressa popular, além da tevê e do rádio, como preferencial.

Daí que se nota um certo crescimento dos jornais populares impressos, que tentam corresponder a demandas específicas e locais, em linguagem tributária do melodrama e com capacidade de envolver, como diziam os antigos retores. Isto é, com capacidade de não apenas informar e ou convencer, mas também de comover e de deleitar. Adaptando a linguagem e os conteúdos tanto às necessidades informativas e às amenidades e curiosidades diárias, torna-se um jornalismo popular de referência.

Gregos e romanos

A retomada do infoentretenimento contemporâneo, apropriando-se das várias perspectivas e formatos do jornalismo, vincula-se a um espaço público dilacerado em que a sobrevivência econômico-financeira dos negócios depende da capacidade de envolvimento das pessoas com assuntos mais relevantes e, simultaneamente, com a capacidade de manter a curiosidade. Assim, o jornalismo tem sofrido certo hibridismo.

Isto compromete os ideais centrais da atividade, como os de credibilidade, que se assentam nas bases da legitimidade social da área. Mas, ao mesmo tempo, enquanto os temas e linguagens forem interessantes e claros e estiverem representando determinados atores sociais, certamente haverá uma dupla eficácia do discurso: a do convencimento de mensagens, baseada na representação que faz do cotidiano de determinado público; e a capacidade de gerar socialmente comentários sobre o mundo vivido e compartilhado, em que a narrativa melodramática – alçada ao infoentretenimento – garante a permanência de um público, tanto pela relevância do tema para sua vida como para deleite e/ou comoção por meio da estrutura da própria narrativa, prolongando o campo da discussão pública, seja pelo senso comum ou via senso crítico. Estas bases de reconhecimento social imediato ainda estão sendo dadas pelo jornalismo, mesmo que ele faça concessões aos ideais iluministas que moldaram os valores éticos e técnicos dos últimos 200 anos.

A representação discursiva do jornalismo permite, com tal perspectiva, que o fato se desdobre em meta-acontecimentos, mantendo um ritual milenar num ambiente midiático, público e virtual, um ‘ao vivo’ à distância, seja a morte do ex-vice-presidente da República, José Alencar, seja a vitória de Guga Kuerten em Roland Garros, a escolha de um novo papa, as vitórias olímpicas e as intermináveis histórias pessoais de grandeza e superação e de tragédias e derrotas; de persistência e de abandono, de honra e de infortúnio.

Gregos e romanos clássicos parecem ainda estar entre nós, conduzindo o fio das narrativas e das performances.

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Professor de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina e pesquisador do objETHOS

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