Segunda-feira, 23 de Abril de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº983
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JORNAL DE DEBATES > MÍDIA & POLÍTICA

Correndo atrás do próprio rabo

Por Ivan Berger em 15/04/2008 na edição 481

Para quem carrega o estigma de ser antigovernista, golpista e outros bichos, a imprensa está sendo no mínimo contraditória ao colocar em pauta com tanta antecedência a hipótese de um terceiro mandato para Lula. Contraditória e pouco inteligente, na medida em que parece não se dar conta de estar fazendo exatamente o que os lulistas querem, ou seja, antecipando a possibilidade de uma mudança nas regras do jogo.

No afã de queimar pontes de eventuais candidatos, como nessa tentativa de responsabilizar a bola da vez na escalada sucessória de 2010, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, pela elaboração do tal dossiê sobre os gastos de FHC, a imprensa acabou precipitando um processo que normalmente só entraria em discussão no próximo ano, ou vá lá, após as eleições municipais de outubro próximo. Açodamento que, se pode efetivamente ter minado a candidatura da queridinha de Lula, por outro lado não deixou de fomentar ainda mais o zum-zum-zum em torno do terceiro mandato, com o vice José Alencar aproveitando para lançar um balão de ensaio a respeito, evidentemente para ver se colava. Se colou ou não, ainda é cedo para dizer, mas que a mídia apressou-se em passar recibo não resta a menor dúvida.

O fato é que ao procurar sistematicamente depreciar e embaraçar o governo vinculando-o à coleção de escândalos que teimam em aflorar à sombra do lulo-petismo, a imprensa nada mais faz do que correr atrás do próprio rabo, já que, por mais que cavouque, o prestígio de Lula se mantém intacto ou, mais paradoxal ainda, até vem aumentado.

Desavenças políticas

Quanto mais podres aparecem, maior é o índice de aprovação do presidente, o que denota claramente que o grosso do eleitorado não está nem aí para as mazelas da política. Vai daí que ao hostilizar o governo, ao invés de vergá-lo, a imprensa na verdade vem aplainando o caminho através dos tempos para um possível referendo à sua continuidade. Inclusive promovendo a fritura de nomes que poderiam sucedê-los, como José Dirceu, Palocci e agora Dilma.

É quase consensual a percepção de que enquanto a economia se manter no prumo esse quadro dificilmente mudará. Nem a imprensa e muito menos a oposição parecem ter cacife para manter o atual tom beligerante, de um confronto até aqui inútil. Lula sabe disso melhor do que ninguém, daí o apoio incondicional que continua dando as diretrizes impostas pelo BC, mesmo quando desagradáveis,como uma eventual retomada de elevação das taxas de juros, recomendável, segundo os entendidos técnicos da área, para conter o consumo e a inflação que ameaça fugir do controle.

Não é o melhor dos mundos, ainda mais com a crise nos Estados Unidos ganhando contornos cada vez mais sérios, mas nada que o governo não pareça capaz de continuar administrando como vem fazendo. O que não deixa de representar outro impasse tanto para a imprensa como para a oposição, no sentido de que um eventual desgaste do lulismo está condicionado a uma reviravolta no cenário econômico, algo que não traria benefícios a ninguém. Afinal, a manutenção da atual estabilidade não é só uma luta do governo, mas de interesse geral, e não seria bom para ninguém que as coisas desandassem por conta de desavenças políticas.

Culpados continuam impunes

Se bem que a oposição já emite sinais de uma mudança de estratégia, tipo já que não podemos combater o inimigo, aliemo-nos a ele. É o que sugere o apoio ao projeto que visa a equiparar os reajustes dos aposentados ao mesmo patamar dos assalariados, com o que se estancaria a gradual perda de poder aquisitivo que os pensionistas do INSS estão sendo vítimas com as mudanças implementadas através dos anos. Medida obviamente justa mas que acabaria por desarranjar ainda mais as contas do Tesouro e, mais especificamente, de nosso combalido sistema previdenciário. Sucede que nem se pode acusar a oposição de oportunista no caso de querer montar seu próprio pacote de bondade, pois seria a única forma de contrabalançar as benesses e os favores que sustentam a popularidade de Lula e cuja ampliação, às vésperas das eleições municipais, além de afrontar a legislação comporta excentricidades como o projeto de substituição de milhares de geladeiras à guisa de economia de energia. Só falta o governo bancar também a substituição da frota de carros velhos por modelitos do ano, no que até eu, que sou mais bobo, me interessaria.

Brincadeira, é claro, mas em se tratando do lulo-petismo a verdade é que nada mais surpreende. Nem o caráter de normalidade que o próprio ministro da Justiça, Tarso Genro, concedeu à lavratura do dossiê sobre os gastos de FHC, oficializando a bisbilhotagem como instrumento lícito à disposição do Estado, animado, talvez, pela revelação de que o governo Bush não só sabia como autorizou a prática de torturas em suas prisões de guerra. Dossiê sobre o qual, em que pese tanta celeuma, sequer os responsáveis por sua divulgação foram revelados, ou seja, os culpados permanecem impunes e estamos conversados. Típico do lulismo, de um regime que passa a impressão de que as leis são como as virgens, foram feitas para serem violadas.

Os despojos do traficante

Não é à toa que não há pejo em se comemorar as indecorosas regalias que Lula, através de seu poder de veto, manteve para seus antigos companheiros e correligionários sindicalistas que, além de continuarem mordendo parte do salário dos trabalhadores, seguirão sem precisar prestar contas do uso dessa bufunfa. Depois da dança da pizza, que escandalizou o país, o regabofe dos sindicalistas, com direito a Black Label e Moet & Chandon, curiosamente não mereceu o mesmo repúdio. Outra evidência de que o timing da mídia anda deixando muito a desejar, para não dizer que é mais um sinal de que o espírito da malandragem, de culto as espertezas e ilicitudes, em suma, da pilantropia, cada vez mais vai ganhando espaço em nossa sociedade.

Prova ainda mais eloqüente dessa conspurcação de valores foi a verdadeira pândega que se estabeleceu em torno da aquisição dos despojos do megatraficante colombiano, quando, em nome de um oportunismo amoral e inescrupuloso, ignorou-se a origem criminosa, o contexto de mortes e as desgraças em que aqueles bens foram amealhados. Enfim, depois que o chefão daquela equipe famosa da Fórmula 1 foi flagrado em trajes nazistas, numa festinha íntima, quem atira a primeira pedra?

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Jornalista, Santos, SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 21/04/2008 Marcelo Ramos

    Rapaz, há quanto tempo não vejo essa expressão, ‘voto distrital misto’. Acho que há uns dez anos, pelo menos. Sou totalmente a favor. Entre outras razões, acabaria de vez com os currais eleitorais e com os cabos eleitorais, que, hoje, são como os capatazes dos coronéis que mantêm os currais. A proporcionalidade então, acabaria com uma série de distorções da política nacional. E o postulante só poderia ser candidato em seu local de origem, para evitar distorções como a do senador Sarney, que é do Maranhão e se elegeu pelo Amapá. Agora, mudando de milho pra trigo, porque o pejo do articulista, nos dois últimos parágrafos, soa tão artificial? E demonstrou menos pejo ainda, no antepenúltimo parágrafo, ao chamar de dossiê um conjunto de dados que ele está careca de saber que todo o Sistema da União utiliza, para registrar dados de todos os integrantes dessa União, inclusive dos presidentes. Típico do articulista…

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