Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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Correspondente de guerra: a rotina da cobertura no front

Por Lilia Diniz em 15/09/2011 na edição 659

Uma aura de glamour acompanha o trabalho de correspondente de guerra desde que o primeiro jornalista foi enviado a um campo de batalha para relatar seus horrores. Na guerra da Criméia, em 1854, William Howard Russel, do jornal The Times, mandava seus despachos via telégrafo. Um século e meio depois, as notícias se propagam em tempo real. E mesmo quem não é jornalista profissional pode ser convertido em porta-voz de informações.

Trabalhar em zonas conflagradas para mostrar ao mundo as atrocidades de um conflito armado é encarado como o lado mais romântico da profissão, mas o cotidiano daqueles que estão no front é bem diferente. O correspondente de guerra ganha fama e visibilidade, no entanto, a rotina é dura e os perigos, constantes. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo pela TV Brasil na terça-feira (13/09) discutiu o encanto que esta atividade exerce no cidadão comum e entre os jovens jornalistas.

Alberto Dines recebeu três jornalistas com larga experiência em cobertura de conflitos. Em São Paulo, o Observatório contou com a presença de Leão Serva e Samy Adghirni. Professor e escritor, Serva foi correspondente na Bósnia, Angola, Somália e Kuait. Trabalhou na Folha de S.Paulo, criou o site Último Segundo e foi o responsável pela recente mudança editorial do jornal Diário de S. Paulo. Adghirni é repórter da editoria Mundo da Folha de S.Paulo. Especialista em assuntos de Oriente Médio e política externa, passou parte deste ano cobrindo a Primavera Árabe. Esteve no Egito, na Tunísia e na Líbia. Já esteve no Irã, Iraque, Iêmen, Israel e outros países. No Rio de Janeiro, o convidado foi Antonio Scorza, fotógrafo da Agência France Presse há vinte e cinco anos. Scorza cobriu inúmeras rebeliões, eleições, posses presidenciais na América Latina, entre outros eventos.

Em editorial, Dines avaliou que a grande quantidade de conflitos bélicos e a facilidade para cobri-los levou à ilusão de que “o correspondente de guerra é o único que na redação tem oportunidade para viver grandes aventuras e bravuras”. Para ele, a defesa da sociedade contra o narcotráfico pode exigir mais bravura do que o campo de batalha. “Pouco adianta mostrar ao público tanques em chamas, guerreiros correndo com armas na mão, metralhadoras pipocando, jatos em voos rasantes, feridos pedindo ajuda, mães chorando. O leitor, ouvinte ou telespectador, antes de tudo, quer saber por que os homens estão se matando em vez de sentar para negociar. Cobrir guerras não é o lado mais empolgante do jornalismo. Explicar contenciosos e, sobretudo, não alimentar rancores é missão muito mais heroica. E só jornalistas podem desempenhá-la”, sublinhou o jornalista.

Guerras cotidianas

A reportagem produzida pelo Observatório mostrou a opinião de jornalistas que atuam nesta área. Para o correspondente Silio Boccanera, que já cobriu seis conflitos, não há glamour em coberturas de guerra. O risco nesta situação não é muito maior do que a cobertura da violência urbana e o narcotráfico nas grandes cidades brasileiras. “Em uma guerra, é claro, os jornalistas enfrentam calibres mais elevados. Mas, que diferença faz morrer sob um bombardeio aéreo do que com um tiro de 45? ‘Coragem para fazer a cobertura de guerra’, é o que dizem as pessoas. Na verdade, a palavra que descreve melhor a situação é medo porque quem não sente medo não faz o trabalho direito em uma cobertura de guerra. É o que dá a distância, a dimensão entre o que é possível fazer e o que não passa de imprudência”, avaliou Boccanera.

Os “louros” em um campo de batalha costumam ir para os repórteres que assinam as matérias e “botam a cara no vídeo”, mas, na opinião de Boccanera, devem ir para os cinegrafistas e fotógrafos. “Eles, sim, não podem ficar mandando notícias longe da ação, no conforto de um hotel, usando um laptop. São eles que têm que chegar perto dos tiros, dos combates. E só assim conseguem as imagens que correm o mundo. A eles, portanto, todo o crédito que merecem como verdadeiros correspondentes de guerra”.

Para a correspondente Deborah Berlinck, a cobertura de guerra é sempre arriscada, mas o risco pode ser calculado. Fotógrafos e cinegrafistas são considerados “kamikazes” porque precisam estar no front. “Se jogam em um tanque junto com os beligerantes, acompanham a ação e, praticamente, lutam sem armas”, detalhou. Com a experiência de quem cobriu vários conflitos, Deborah ressaltou que há limites na busca pela notícia. “Um jornalista morto não serve para grande coisa. O grande desafio da cobertura de uma guerra é você conseguir sobreviver para contar tudo o que viu”.

Rotina árdua

A logística da cobertura da guerra não é glamourosa. Na recente cobertura do conflito na Líbia, a jornalista passou cerca de duas semanas tomando banho com garrafas de água mineral em uma região onde a temperatura beirava os 40 graus. E, por ser mulher em um país de maioria muçulmana, precisava cobrir os braços e a cabeça. “A cobertura de uma guerra é sempre fascinante, mas não é uma cobertura para amadores”, sublinhou Deborah.

Há algumas semanas, Diego Escosteguy, repórter da revista Época, viveu momentos de grande perigo. O jornalista estava em Trípoli, na Líbia, quando as forças rebeldes tomaram o poder. “O jornalista, neste momento, como era o meu caso, se tornam um civil. Ele pode ser atingido tanto por uma bomba da OTAN, quanto por tiros do Kadaffi, quanto por rajadas dos rebeldes”, explicou. O jornalista ponderou que a parte mais dura da cobertura é acompanhar o sofrimento da população civil. “Se existe algo que prescinde de quixotismo e de romantismo, é uma situação de guerra”, disse o correspondente.

Os filmes e livros de ficção, na opinião do jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva, costumam mostrar o correspondente de guerra como uma figura heróica, mas, na prática, é uma atividade sacrificada. “As pessoas são obrigadas a passar por situações de extremo desconforto e muitas vezes de grande perigo, inclusive com risco de perder a vida. Eu acho que muita gente idealiza a condição de correspondente de guerra quando, de fato, ela é uma atividade bastante difícil de ser exercida”, ponderou.

Entre grades

Andrei Netto, repórter de O Estado de S.Paulo, ficou preso na Líbia, incomunicável, por mais de uma semana. O jornalista contou que o momento da prisão foi assustador. “Cerca de seis horas depois da prisão, nós fomos levados à unidade de serviço secreto líbio e teve início um novo momento, que durou oito dias. Foram momentos muito angustiantes porque eu estava incomunicável e amigos, família, colegas e trabalho pensaram o pior, que eu podia ter morrido durante a cobertura”. O correspondente era ameaçado de morte constantemente.

No debate ao vivo, Dines comentou que os jornais investem altas somas de dinheiro para enviar correspondentes aos locais de conflito, mas, no dia a dia, a cobertura internacional tem espaço limitado nos jornais. Para Leão Serva, há um forte aspecto de marketing ao enviar correspondentes para o front. “Custa muito dinheiro, mas dá também muita repercussão. Faz bem ao jornal tem um correspondente, um enviado especial em um conflito que está no centro das atenções”, destacou.

Em momentos críticos, falta contextualização maior dos fatos, na opinião de Serva. No recente conflito na Líbia, por exemplo, a imprensa tratou o caso com maniqueísmo, opondo o “ditador” Kadaffi aos “libertários”, quando, na verdade, o conflito era mais complexo porque envolve a unificação de três países diferentes. “Isso não apareceu na cobertura da mídia brasileira com a frequência que deveria”, criticou o jornalista.

O trabalho em meio ao caos

Na avaliação de Antonio Scorza, a mística da atividade está “nos olhos de quem vê” porque, na prática, o trabalho é árduo. “Não existe glamour na guerra. Existe o perigo constante, existem injustiças pulando em seus olhos o tempo todo, existe você ver a morte acontecendo. E existe o instinto de sobrevivência porque você foi voluntário, mas tem que voltar vivo porque não há matéria que valha uma vida. E, se você não volta vivo, também não conta a história”, disse Scorza.

O correspondente da France Presse contou que, durante o trabalho no Iraque, buscou registrar não só as cenas bélicas, como também o cotidiano de um país invadido. “Eles mantinham o mercado funcionando, o artesão continuava fazendo as suas peças de cobre. Os soldados passando e tendo uma influência política e sendo os novos donos do país. E no meio de uma cidade onde você via os cabos de telefone soltos na rua, os tanques de guerra americanos passando por cima das calçadas e mulheres com crianças pulando porque não se respeitava nada e os buracos feitos pelas bombas nos edifícios. Só este cenário é muito violento”, relembrou.

Para Samy Adghirni, é importante haver um equilíbrio entre o tempo que o correspondente fica na redação, monitorando o trabalho das agências de notícias e das redes de televisão à distância, e o trabalho no campo de batalha. Sem este acompanhamento, o jornalista chega ao front com pouca base para interpretar os acontecimentos com profundidade. “Essas ferramentas teóricas têm que ser transformadas em produção de reportagem sob tensão, em um clima hostil, em um ambiente muito perigoso. Eu conheci, ao longo destas coberturas, gente que está há 20, 30 anos nesse tipo de cobertura de conflitos. Gente que não tem base. Eu tenho uma base, que é São Paulo”, sublinhou Adghirni. Enquanto está na redação, o jornalista produz reportagens mais analíticas. “É muito importante a gente poder ver de perto essas coberturas porque, infelizmente, no jornalismo brasileiro não é uma tradição ter sempre alguém no front”, avaliou.

Outros olhares

Adghirni vê com otimismo o fato de não só a chamada grande mídia brasileira enviar profissionais para a cobertura de guerra. Cada vez mais jornais regionais e canais de televisão de menor porte investem em enviar profissionais para os conflitos. “Nada substitui o olhar do jornalista in loco”, defendeu o repórter. Adghirni contou que grandes redes de TV e agências de notícias, como Al Jazeera, CNN e Reuters, chegam aos locais conflagrados com equipes de até 20 profissionais e levam “malas” de dinheiro para ser investido na cobertura. Como não é possível competir com esta estrutura, o olhar dos correspondentes brasileiros deve procurar uma linha de raciocínio diferenciada para trazer informações exclusivas.

Dines perguntou como evitar que possíveis empatias com um dos lados do conflito afetem o trabalho de um correspondente de guerra. Leão Serva disse que há uma natural simpatia pelas vítimas civis. “É também uma forma de denunciar os males em qualquer conflito armado. Em relação às partes envolvidas na guerra, esse é, de fato, o principal desafio do jornalismo. Porque, invariavelmente, não se trata de um maniqueísmo de mocinho contra bandido”, ponderou. O jornalista observou que, muitas vezes, a imprensa brasileira adota este viés na cobertura.

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Jornalismo de ilusões

Alberto Dines # editorial do Observatório da Imprensa na TV nº 610, exibido em 13/09/2011

A ideia de que o jornalismo é a última profissão romântica infelizmente ficou superada pelo modelo de negócio adotado pela grande imprensa. Com a profusão de conflitos bélicos e a facilidade para cobri-los, em todos os cantos do planeta, estamos agora diante de outra ilusão: a de que o correspondente de guerra é o único que na redação tem oportunidade para viver grandes aventuras e bravuras.

Em primeiro lugar, é preciso registrar que esta aura de heroísmo que ainda envolve as guerras é a grande responsável por sua imagem enganosa e triunfalista. Guerras não são charmosas, são sujas, infames, produzem mais dor do que fervor, tanto para vencedores quanto para perdedores. Não existem guerras sem mortes, sem sangue, sem dor, sem luto.

A defesa da sociedade contra o narcotráfico ou gangues corruptas pode exigir mais bravura do que enfiar-se numa trincheira ou correr das balas ou mísseis disparados de um ponto situado a quilômetros de distância.

Pouco adianta mostrar ao público tanques em chamas, guerreiros correndo com armas na mão, metralhadoras pipocando, jatos em voos rasantes, feridos pedindo ajuda, mães chorando. O leitor, ouvinte ou telespectador, antes de tudo, quer saber por que os homens estão se matando em vez de sentar para negociar.

Cobrir guerras não é o lado mais empolgante do jornalismo. Explicar contenciosos e, sobretudo, não alimentar rancores é missão muito mais heroica. E só jornalistas podem desempenhá-la.

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